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05-06-2008
Em 1932, Cícero Vidal e outros dissidentes do Batutas da Boa Vista estavam no Pátio de São Pedro e viram uns foliões batendo em latas. Chamaram os rapazes e decidiram repentinamente formar um bloco. Nascia, então, na casa número 10 do Pátio, o Bloco Carnavalesco Misto Batutas de São José. Muitos carnavais passaram, com muitas glórias, vitórias e histórias, como diz o famoso frevo, e hoje o Batutas de São José comemora, com uma festa na sua sede, em Afogados, seus 72 anos de muita tradição e contribuições à cultura pernambucana. No entanto, nem tudo é alegria. O bloco passa por um momento dificílimo, a maioria dos sócios beneméritos abandonaram o Batutas e, no último Carnaval, por pouco eles não deixaram de sair. A atual presidente da agremiação, Nadira Maria de Almeida, trabalha para não deixar o Batutas morrer, mas o descaso do poder público somado às enormes dívidas trabalhistas coloca em risco a existência do mais antigo bloco carnavalesco misto do Estado. (© JC Online) Batutas deseja recuperar o feitiço Dirigentes do Batutas reúnem forças para comemorar aniversário, mas a celebração não faz jus à importância da agremiação para o CarnavalRAFAEL GUERRA O Batutas de São José comemora seus 72 anos com a ameaça de fechar as portas. Pode-se dizer que o bloco foi esquecido pela juventude e hoje é freqüentado e administrado por antigos sócios, que participaram durante suas vidas da história do bloco. Nadira Maria de Almeida, auxiliar de enfermagem aposentada, é presidente da agremiação há três anos, e assumiu o cargo porque não havia ninguém interessado. Paga na justiça uma dívida trabalhista de R$ 68 mil e, com recursos mais que escassos, tenta manter em funcionamento a troça que desde a sua fundação, em cinco de junho de 1932, mantém uma atividade ininterrupta. Hoje, a festa de aniversário será animada pela Orquestra Batutas de São José Jazz Banda. O maestro Mário Guedes da Silva, à frente da orquestra há 34 anos, será o homenageado da noite. Mário nasceu no município de Lagoa Grande, Paraíba, em 1913. Durante dez anos, participou da Orquestra da Rádio Clube de Pernambuco junto com os maestros Nelson Ferreira, Guedes Peixoto, Severino Araújo e Clóvis Pereira. Chegou ao Batutas de São José em 1959. Recuperando-se de uma cirurgia, Mário não conversou com a reportagem do JC, mas comparece hoje para receber a homenagem. A presidente Nadira Almeida diz que “esta festa, ao contrário do que nós queríamos, não tem nada de grandiosa. Com a ajuda de amigos, conseguimos organizar o evento, para a data não passar em branco. Mas é pouco para a importância do bloco”. A presidente Nadira e a tesoureira Maria Leci Santos são as dirigentes que seguram a onda da agremiação. Elas reclamam do descaso das autoridades e dos sócios, que não se comprometem a ajudar. “Nossa única fonte de renda são os bailes dominicais. Das pessoas que comparecem, mais da metade entra de graça, são policiais e dirigentes de outros blocos, o dinheiro que sobra é irrisório”, afirmou Nadira. Maria Leci complementa: “os altos impostos pagos pelo uso da sede, os problemas com a justiça do trabalho e a falência da Federação Carnavalesca de Pernambuco estão minando a força do Batutas”. O único dinheiro extra que o bloco recebe é da Prefeitura, às vésperas do Carnaval, mas, segundo as diretoras, a verba não passa de uma simples ajuda de custo. A luta destas duas senhoras é para manter viva a memória dos antigos Carnavais, tentando reerguer o Batutas de São José – um dos principais representantes dos tempos áureos do Carnaval recifense. Com uma trajetória única, a agremiação coleciona uma enormidade de frevos-de-bloco, frevos-de-rua e marchinhas que já fazem parte do imaginário coletivo dos pernambucanos. O Batutas de São José há seis anos abandonou o bairro que lhe deu nome e se instalou em Afogados, mas especificamente na Rua Cabedelo, 60. “É até uma ironia, nós que estamos no fundo do poço, mergulhados em dificuldades, termos a sede em Afogados”, brincou a tesoureira. “Estamos no fundo do poço, mas lutando e com esperança que alguém jogue uma corda para nos salvar”, disse a presidente, que apesar de tudo está sempre com um sorriso no rosto. A festa começa às 19h e os ingressos custam R$ 5. Segundo Nadira Almeida, o aniversário vai ser muito animado. “A Orquestra da casa toca de tudo, jazz, rumba, mambo, samba, frevo. Quem comparecer não vai ficar parado”, garante ela. (© JC Online) Sem renovação, repertório reflete estagnação do bloco Poucos blocos tiveram a sorte de contar com um número tão grande de bons compositores. No Batutas de São José, nomes como Edgard Moraes, Nelson Ferreira, Álvaro Álvim, João Santiago e Levino Ferreira ajudaram a criar a história do bloco com um sem número de lindas composições.Boa parte das canções feitas em homenagem ao Batutas entraram no LP João Santiago e os 50 anos do Batutas de São José (LP 90021), lançado em 1982 pela extinta e lendária gravadora Rozenblit. O grande sucesso comercial do bloco foi a música Você Sabe lá o que É Isso, de João Santiago, que ficou conhecida como o Hino do Batutas de São José. Feita para o Carnaval de 1952, a marcha só foi gravada em 1973, pelo Quinteto Violado e Zélia Barbosa, seguindo-se de um segundo lançamento, dois anos depois, pelo sambista Martinho da Vila. Vale ressaltar que, apesar de usar o nome do bloco carnavalesco, as músicas não geram nenhum lucro para o Batutas. A presidente Nadira Almeida sabe que o envio dos direitos autorais foram acordados há muito tempo e que o dinheiro pertence aos familiares dos autores. Mas ela não esconde a sua indignação. “Eu sei que as família detêm os direitos pelas obras, mas, por uma questão de respeito ao Batutas, que atravessa uma crise nunca antes vivida, uma parcela do dinheiro poderia ser repassado para nós”, disse Nadira. “Já tentamos diversas vezes entrar em contato com os filhos dos ilustres compositores, mas eles não quiseram nem conversa”, complementou Maria Leci, a esforçada tesoureira. Os frevos-de-bloco, frevos-de-rua e frevos-canção ajudaram a tornar inesquecíveis muitos blocos antigos e até os que não existem mais. Nesse quesito, o Batutas de São José está muito bem representado. Mas, como o bloco carnavalesco misto mais antigo em atividade, deveria renovar seu repertório. Há muito que não surgem novos frevos, as músicas que tocam no Carnaval são quase todas composições com mais de 50 anos. Segundo Nadira Almeida, não aparecem compositores jovens que inspirem segurança. “Há um sócio antigo do Batutas, João Cristiano Gomes, que escreve letras e têm uma infinidade de textos inéditos”, disse a presidente. É necessário que apareça uma nova geração de músicos que ajudem a resgatar blocos que passam por dificuldades, o que não é um caso isolado do Batutas de São José, basta olhar para os Banhistas do Pina e Lenhadores e ver que a situação também é difícil. (© JC Online)
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