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A primeira parceria ninguém esquece

05-06-2008

O pernambucano Aguinaldo Silva (de óculos, ao lado de Wolf Maia), inclui passagens autobiográficas em nova novela das 8

  
Amelia Gonzalez

   Wolf Maia estava protegido pelos muros de um colégio interno quando os militares deram o golpe, em 1964. Aguinaldo Silva foi preso na época e levado para a Ilha das Flores, cenário de tristes lembranças. A diferença entre os dois atuais nomes consagrados da teledramaturgia não pára em suas trajetórias de vida. Na verdade, eles não se parecem em quase nada: Maia é irrequieto, mexe-se o tempo todo na cadeira, fala rápido. Silva tem um jeito pausado, anda devagar, gestos lentos. Um é da noite e urbano; o outro acorda às 7h para escrever e prefere a tranqüila Itaipava à efervescência do Rio.

   Mas dizem que os opostos se atraem. Pois os dois resolveram aceitar o desafio de fazer sua primeira parceria profissional. O resultado poderá ser visto e acompanhado pelo público a partir do dia 28, com a novela “Senhora do destino”, às 21h. E já que o casamento é inovador, Aguinaldo Silva e Wolf Maia decidiram estrear outras atitudes e largar suas bagagens pelo caminho. Assim, garantem, o telespectador não verá em “Senhora do destino” nem sombra da imagem agitada, marca de Maia, ou do realismo fantástico que sempre caracterizou Silva. O autor (sua última novela foi “Porto dos Milagres”, em 2002) partiu para uma história com toques autobiográficos, espécie de compromisso com ele mesmo:

   — Não estava gostando do que eu escrevia. Aí, pensei: “Ou eu faço outra coisa ou escrevo com pseudônimo”. Já pensou? Assinaria como Consuelo Meirelles. Imagina se a Globo ia deixar uma coisa dessas!

   Já Maia, que sempre preferiu o estilo comédia vaudeville e qüiproquós (“Uga Uga”, em 2001, e “Kubanacan”, em 2003), adotou planos cinematográficos para ilustrar a história densa que será contada pelo novo parceiro.

   — Estou fazendo uma estética diferente para uma dramaturgia mais vertical e consistente. Na primeira fase, eu mostro imagens lindas de um Nordeste diferente daquela pobreza com a qual estamos acostumados porque tem a ver com a história.

   E tem mais novidades. Ambos abandonaram o “kit atores” que sempre os acompanhava. O novo elenco reúne um batalhão de estrelas de primeira grandeza. Tem tudo para dar certo, mesmo levando em conta a combinação de temperamentos explosivos. Mas Maia, cuja fama é a de um excelente agregador, diz que prefere os atores temperamentais aos desanimados e indisciplinados:

   — Atores são mesmo temperamentais e tenho uma fórmula muito simples para lidar com eles: sou sincero. Explico o que eu quero e o que eu não quero.

História da protagonista foi inspirada na mãe do autor

   Carolina Dieckmann foi uma sugestão de Aguinaldo Silva para viver a protagonista na primeira fase da novela, que dura só quatro capítulos:

   — Este início é só uma preparação para a segunda fase. O público precisa se acostumar com o tempo real da novela, que será o atual — diz Silva.

   Maria do Carmo abandona Belém de São Francisco, em Pernambuco, com cinco filhos no braço e vai para o Rio de Janeiro em busca do marido e do irmão. O AI-5 tinha acabado de ser decretado, os estudantes protestavam nas ruas, e a moça desembarca em meio ao caos. A ingenuidade dela não escapa aos olhos espertos de Nazaré (Adriana Esteves/Renata Sorrah), que lhe rouba a filha recém-nascida. Desesperada, Maria do Carmo vai reclamar com um guarda e acaba sendo presa na Ilha das Flores por desacato à autoridade. Uma história que Aguinaldo Silva viu de perto:

   — Quando eu estava no barco a caminho da Ilha das Flores, uma pessoa chamou minha atenção: era um homem comum, do povo, que tinha virado preso político por engano. Ele nem sabia o que estava acontecendo no país naquele momento, coitado. Eu quis mostrar esta realidade na novela. O AI-5 é só um pano de fundo para a tragédia dessa mulher — diz o autor.

   Mas o enredo não será a busca da filha perdida. As duas vão se encontrar, muitos anos depois. E a história passa a ser o resgate do amor da filha pela mãe. Semelhanças com a história do menino Pedro Braule Filho e sua falsa mãe, Wilma? Há, sim, e são propositais:

   — Contaremos a história que não foi contada: como ficou o coração desse menino que viu a mãe ser presa e teve que se habituar à outra família? — comenta o diretor.

   Na segunda fase, Maria do Carmo é interpretada por Suzana Vieira. Mulher forte e determinada, a personagem foi inspirada na mãe do autor, que também homenageia seus conterrâneos. Aguinaldo Silva nasceu em Pernambuco:

   — O primeiro nome que eu dei para a história foi: “ Lula e seus irmãos”. É que eu vivia ouvindo que Lula era um nordestino que tinha dado certo, e todos se espantavam. Eu conheço muitos nordestinos que deram certo!

   Que ninguém espere um dramalhão, tampouco uma comédia, avisa Maia. “Senhora do destino” é uma novela com todos esses elementos bem distribuídos. O ponto de partida da personagem vivida por Marília Gabriela, dona de jornal que luta contra a ditadura, por exemplo, é a frase que ela diz ao ser presa.

   — O motorista diz que ela será expulsa do país e ela começa a arrumar as jóias. Ele acha estranho e ela diz: “Eu nunca me separo das minhas jóias.” — explica o autor.

   Em lua-de-mel com seu novo parceiro, Maia está comemorando: já tem 14 capítulos gravados, e Silva, organizadíssimo, trabalha com boa frente. A novela deve ter 204 capítulos porque a Globo pretende esticá-la até depois do carnaval. Maia não liga para o excesso de trabalho e se deu até mesmo um papel na trama:

   — Eu gosto de estar nos dois lugares e não ia perder a oportunidade de trabalhar numa novela de Aguinaldo Silva — desmancha-se ele.

(© O Globo)

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