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Rap repentista

05-06-2008

Leonardo Rozário

Moacir Laurentino, Dom Negrone, Ivanildo Vila Nova e Bê Negão: rappers vão assistir hoje ao desafio de cantadores

Os rappers Bê Negão e Dom Negrone conversam com cantadores nordestinos sobre ritmos e rimas

Helena Aragão

   Ivanildo Vila Nova vive há cinco décadas de cantoria. Aos 59 anos, o poeta recifense já viajou o mundo todo graças à sua imensa capacidade de inventar versos. Está feliz, mas quando deita e fecha os olhos, só vem à mente o sonho que nunca conseguiu realizar: uma espécie de copa do mundo do improviso, com partideiros, rappers e repentistas brasileiros, salseiros cubanos e trovadores franceses. Enquanto junta forças e recursos para isso, organiza e participa do bem-sucedido Desafio Nordestino de Cantadores, evento pernambucano que em sua quarta edição expandiu fronteiras e vem pela primeira vez à Feira de São Cristóvão, hoje, às 21h.

   A vinda ao Rio proporcionou a chance de plantar a semente do evento dos sonhos. Convidados pelo JB, ele e seu companheiro de desafio, o também pernambucano Moacir Laurentino, foram conhecer dois rappers cariocas: Bê Negão, que aos 30 anos é um dos mais conhecidos nomes do gênero, e Dom Negrone (26 anos), vencedor habitual da Batalha do Real, desafio de rap que acontece de tempos em tempos na Lapa. E o que se seguiu foi uma peleja das boas.

   Respeitosos e curiosíssimos, os MCs - que poderiam render uma boa dupla de cantadores, Negão e Negrone - resumiram a história do rap no Brasil para os nordestinos. Mas queriam mesmo era ouvir e perguntar muito. Riram com os improvisos da dupla sobre tudo o que acontecia - teve repente para a repórter, para o fotógrafo, para quem passava na rua e, claro, para eles (leia ao lado). Os rappers, mais tímidos, deram uma amostra do seu estilo. Ficaram embasbacados ao serem informados que faziam algo parecido com o martelo, um dos diversos gêneros de cantoria.

   - Temos pelo menos cem estilos diferentes, o quadrão, a sextilha... O que importa é a métrica. Já a embolada é outra coisa, é rica em melodia mas sem improviso - explicou Moacir, mostrando ainda a viola, que usa cordas de guitarra e violão.

   - Para nós a métrica não é algo tão rígido, apesar de sempre haver variações. Nos campeonatos concorremos com outros rappers e temos que seguir as mudanças de batidas impostas pelos DJs - detalhou Negrone, acrescentando que a próxima ''rinha'' deve ocorrer em agosto.

   Em pouco tempo, os quatro perceberam que tinham mais em comum que a obsessão com a rima. Reúnem platéias de raça, credo e idade variada e nutrem igual paixão pela música.

   - Vivo da cantoria e para a cantoria. Já acabei dois casamentos por causa dela - afirmou Ivanildo, que é autor de Nordeste independente, sucesso na voz de Zé Ramalho.

   - Ih, sabe que também já perdi mulher por causa do rap? - emendou Negrone.

   Mais uma semelhança: se em outros tempos cantadores e rappers tinham que trabalhar em outras frentes para ganhar dinheiro, hoje vivem de seus versos. Sempre têm que convencer os organizadores de festivais de que não precisam de ensaio. Encaram o ofício com afinco: Ivanildo e Moacir lêem tudo sobre história do Brasil e mitologia grega para enriquecer as rimas.

(© JB Online)


Desafiando estereótipos 

   Os rappers não vão tão longe, mas também sabem que têm responsabilidades sociais.

   - Uns vêem o rap como instrumento de transformação e outros como elemento da cultura hip hop - contou Negrone, que largou o trabalho como técnico de enfermagem para se dedicar ao rap.

   A conversa serviu também para desfazer certos estereótipos - e a visão equivocada dos mundos do rap e da cantoria é algo que irrita as duas partes.

   - Você imagina que uma emissora de TV queria que a gente usasse chapéu de coro e peixeira? Respondi que não somos cangaceiros - contou Ivanildo, alinhadíssimo em paletó e camisa social.

   Negão e Negrone também colecionam casos de preconceito. Mas assumiram certa falta de informação. A constatação é deles próprios: a imagem de um cantador faz pensar num sujeito fechado na música nordestina, enquanto a do rap é associada a uma idéia abrangente. Com a conversa, atestaram que não é bem assim.

   - Enquanto o Ivanildo conhece músicas do mundo inteiro, a maioria dos rappers não se interessa em ouvir outras coisas. Mas se aparecesse um rapper gringo dizendo que cantoria é bom, iriam atrás como carneirinhos - disse Negrone.

   Negão concordou:

   - Rapper em geral é muito conservador. O Sabotage (rapper que foi assassinado em 2003) era a exceção, fazia um caminho valioso para abrir cabeças.

   Os repentistas contaram que nunca foram procurados por rappers pernambucanos.

   - Ouço falar de mangue beat e do Alto Zé do Pinho (favela de Recife que tem alta efervescência cultural), mas nunca tive contato. Vocês são os primeiros rappers que vejo de perto - garantiu Ivanildo.

   E na hora que a repórter propôs um desafio entre os dois gêneros, Negão e Negrone não tiveram vergonha de assumir que não conseguiriam.

   - Nessa hora não dá só branco. Dá amarelo, vermelho... Queria mesmo é que vocês ficassem mais tempo para me ensinar - brincou Negrone.

   - arrepiado, para mim a história é antes e depois desse encontro - declarou Negão, acrescentando que nunca foi bom improvisador.

   Os cantadores também ficaram satisfeitos. Ivanildo viu na conversa uma significativa quebra de barreiras. Daqui para a frente, quando deitar a cabeça no travesseiro, vai imaginar a copa do mundo do improviso como um sonho não tão distante.

(© JB Online)


A peleja do rap

Versos criados por Ivanildo Vila Nova e Moacir Laurentino 

   Eu vejo o jornal presente/ outros órgãos da imprensa/ vou provar que a cantoria não é como o mundo pensa/ rap e repente nascem no R mas são muito diferentes

   É outra alegria imensa que é porque eu colecione/ vou levar muita saudade de Bernardo e de Negrone/ Vou levar seu cartão e lhe dar meu telefone

   Gostei muito de Negrone/ Bernardo tem seu valor/ É uma característica, seu nome nasce da cor/ e o meu nasce com o M e o C é de cantador

   O rapper e o cantador hoje estão bastante unidos/ Negrone e Bernardo são dois tipos conhecidos/ não são o Gordo e o Magro/ Mas são muito parecidos

   Não são versos aprendidos e em mim mesmo eu confio/ são versos feitos na hora no calor do desafio/ o verso vem do Nordeste e o rap é daqui do Rio

   Mas todos os dois têm origem de lusos e espanhóis/ mesmo ritmo e mesma voz/ podem não ser repentistas mas são bravos como nós

   A diferença é na voz e tem toques orientais/ vou provar neste momento que nós somos desiguais/ porque nesse mesmo estilo se eu mandar ele não faz

   Diferenças musicais há de Recife a São Luis/ de reggae pra repentista/ de DJs pra MCs/ mas vamos unir os laços de Norte a Sul do país

(© JB Online)

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