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05-06-2008
Galeria carioca abre mostra e começa a vender imagens do fotógrafo BEATRIZ COELHO SILVA RIO - Dois anos após o centenário de nascimento de Pierre Verger, sua obra está cada vez mais viva. No Rio, suas fotos entram no mercado de arte, oferecidas pela Pequena Galeria 18, que abre uma exposição com 66 delas, escolhidas entre os 62 mil negativos da Fundação Pierre Verger de Salvador. Em setembro, outra exposição, com 350 trabalhos, será inaugurada em Berlim e deverá percorrer a Alemanha até meados do ano que vem. Em 2005, será a vez de Paris homenagear o mais baiano de seus filhos, com mostras no Jeu de Paume e no Hotel de Sully. Para 2006, um documentário e uma série de televisão abordarão as principais questões de sua obra e sua análise dos 17 orixás das religiões afro-brasileiras.A mostra do Rio é o ponto de partida dessas homenagens e, segundo o publicitário Mário Cohen, curador da exposição e diretor do documentário, colocará seu trabalho no lugar que Verger merece no mercado de arte. "Ele é mais lembrado por suas viagens, por seus estudos estabelecendo as relações do Brasil e da América Latina com a África. Mas suas fotos, além de serem documentos, têm um cunho artístico, que é explorado nessa mostra", explica Cohen. Ele escolheu as fotos tiradas entre 1946 e 1948, em Salvador e Recife, logo após a chegada de Verger ao Brasil. "O principal critério foi mostrar sua surpresa com a descoberta do novo país, o olhar do apaixonado antes do casamento." O diretor da Fundação Pierre Verger, Gilberto Sá, vai além. Ele explica que as exposições da Alemanha e de Paris foram iniciativas locais. "A Fundação Goethe nos solicitou o material para a mostra que irá a cinco cidades e terá um catálogo, o primeiro em alemão. A de Paris fará parte do ano Brasil-França e também foi iniciativa do Centro de Fotografia, um instituto estatal, mas ainda está em gestação", adianta ele. "Paralelamente, vamos contatar galerias de arte desses países, para que vendam seus trabalhos. Esta é uma divulgação importante de Pierre Verger, uma forma de aproximá-lo do público." Nascido em Paris, em 1902, Verger foi um intelectual burguês até quase os 30 anos, quando começou a viajar, primeiro pela Indochina (atual Vietnã, então colônia francesa), depois África, América Latina e Brasil. Encantou-se com Salvador, onde encontrou uma África ocidental, e passou a estudar como essa troca cultural aconteceu. Sem a fortuna de sua família, fazia fotojornalismo para manter-se e colaborou com os principais veículos da época, como a Paris Photo e a Time Life. Aqui, publicou na revista O Cruzeiro. Cohen e Sá concordam que Verger tinha o olhar jornalístico e documental, mas indicam que a estética era fundamental. "Ele seguia a máxima de Cartier Bresson, para quem fotografar era captar, com um clique, um momento de beleza e autenticidade. Por isso, suas fotos são também arte, embora naquela época ele não as visse sob esse aspecto ", explica Cohen. "Hoje, no mundo inteiro, a fotografia juntou a característica documental com a arte, mesmo que esse mercado seja ainda incipiente no Brasil. Como a Pequena Galeria surgiu para divulgar esse suporte, decidimos começar com um dos melhores." Numerações - Os 66 escolhidos foram ampliados para 35 cm x 35 cm e tiveram apenas sete cópias impressas e numeradas, seguindo as normas do mercado de fotografia de arte internacional. Estão presentes retratos, em que os personagens são pegos em absoluta espontaneidade, e outras imagens nas quais são retratados grupos de pessoas. "As primeiras cópias dessas fotos custarão a partir de US$ 2 mil (cerca de R$ 6,2 mil), mas a sétima pode chegar até U$ 3 mil, um preço aquém do mercado internacional, mas suficiente para animar o nacional", explica Cohen. "Como qualquer novo suporte artístico, a fotografia no Brasil ainda precisa de um intermediário entre quem a produz e o público. Isso cabe às galerias de arte e à crítica especializada." A mostra estará na Galeria Pequena 18 até setembro. Mesmo sem patrocínio, Cohen editará um catálogo da exposição, com as 66 fotos, dando início a uma série de publicações sobre fotografia. No ano que vem, ele começa o filme, que terá gravações em Cuba, Benin, Costa Rica, Bahia e Washington, onde brasilianistas vão falar de sua importância. "Não iremos à França, pois nos interessa mais o que ele encontrou pelo mundo e como retratou isso. Verger sempre defendeu duas questões fundamentais, a importância da cultura oral, normalmente desprezada pelas instituições acadêmicas, e a discussão sobre quem domina e quem é dominado culturalmente", explica Cohen. O filme, orçado em R$ 4 milhões, está em fase de captação e busca co-produção estrangeira. "Não deve ser difícil, pois o interesse da Alemanha, França e, agora também Espanha, em Verger, indica que sua obra continua atualíssima", conclui Gilberto Sá. (© O Estado de S. Paulo) Pierre Verger, com status de arte, ganha o mundo Mostra no Rio de Janeiro traz 66 imagens com acabamento museológico, que podem ser compradas pelo público EDER CHIODETTO O fotógrafo e antropólogo francês Pierre Verger (1902-94) desembarca hoje, finalmente, no mercado de arte, 58 anos após sua chegada ao Brasil. A mostra "Pierre Verger: 66 Imagens", na Pequena Galeria 18, em Copacabana, no Rio de Janeiro, é a primeira na qual as fotografias de Verger, com tratamento de obra de arte, poderão ser adquiridas pelo público. A idéia de profissionalizar a comercialização das fotografias foi da Fundação Pierre Verger, órgão criado para a difusão e a preservação do trabalho do mestre francês. O colecionador e galerista Mario Cohen foi a pessoa escolhida para dar vazão a esse projeto. Também curador da mostra e proprietário da galeria que sedia a exposição, Cohen elegeu 66 imagens entre os 64 mil negativos disponíveis. "Optei pelas imagens da primeira fase de Verger no Brasil, entre 1946 e os anos 50. Essa era uma época em que ele ainda não havia começado seu trabalho de pesquisa e documentação das religiões afro. Era basicamente um fotógrafo encantado com um mundo novo", diz. De fato, as imagens expostas flagram um fotógrafo em êxtase circulando por Salvador, na Bahia, descobrindo ressonâncias da África no Brasil. Os retratos formam a maior parte do conjunto dessas imagens com domínio de fotografias de homens negros que evidenciam um olhar intensamente homoerótico e desejante, algo ainda pouco discutido na obra do fotógrafo. Nessa fase de Verger, é possível perceber também seu alinhamento com o estilo clássico francês em capturar flagrantes com grande rigor de composição, algo que se perderia em parte anos mais tarde quando sua fotografia ficou mais a serviço do registro documental das suas atividades de etnólogo e pesquisador. "Pierre Verger: 66 Imagens" virou também um livro homônimo e inaugura a coleção "Pequeno Livro da Pequena Galeria 18", idealizada por Cohen: "Minha intenção é lançar três livros por ano, dois de imagens e um com textos de reflexão sobre a fotografia". O projeto de difusão da obra de Verger, capitaneado pela fundação, não pára aqui. Está em fase de captação de recursos um documentário de 17 capítulos inspirado no livro "Orixás", que prevê filmagens em Salvador, Benin, Haiti e Cuba. Além disso, está prevista uma
exposição itinerante organizada pelo Instituto Goëthe por cinco cidades
alemãs neste ano e uma retrospectiva no museu Jeu de Paume, em Paris, em
2005. A ponte Brasil-África, que Verger sabiamente estreitou, agora se
alarga e ganha o mundo. PIERRE VERGER: 66 IMAGENS. Onde: Pequena Galeria 18 (av. Atlântica, 1.782, loja F, Copacabana, Rio; tel. 0/xx/21/ 2549-3897). Quando: de seg. a sex., das 11h às 19h; sáb., das 11h às 17h. Quanto: preço das obras, de US$ 2.000 a US$ 3.000 (fotos em preto-e-branco, 0,35 m x 0,35 m). (© Folha de S. Paulo) Pierre Verger O fotógrafo viajante ainda corre o mundo, através de mostras na Europa e no Rio Paulo Celso Pereira Paulo Celso Pereira O fotógrafo e etnólogo Pierre Verger (1902-1996) passou boa parte da vida estudando diáspora africana e seu impacto sobre a cultura brasileira. Francês, ele também era um imigrante por opção: desde 1932, deixou Paris e passou a viajar pelo mundo como fotógrafo. Em 1946, chegou ao Brasil, onde, encantado com a Bahia, fincou raízes em Salvador. Agora, através da Fundação Pierre Verger, o intelectual babalaô retorna à Europa. Em um refluxo como o dos descendentes de escravos que voltaram ao continente africano, sua obra será vista em exposições na Alemanha, França e Espanha. Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger, de Salvador, conta que o Instituto Goethe inaugura em 1º de setembro, no Museu de Etnologia de Berlim, uma exposição de 350 fotos, que percorrerá ainda Frankfurt, Stuttgart, Munique, Leipzig e Bremen, por pelo menos dois anos e meio. Em comemoração ao ano do Brasil na França, que acontece em 2005, obras de Verger estarão nos museus Jeu de Paume e no Hôtel de Sully. O terceiro evento será uma exposição em Sevilha, organizada pela Fundación de Cultura Afrohispanoamerica. - Será uma oportunidade de introduzir Verger no circuito artístico, divulgando a sua maravilhosa obra fotográfica - comemora. Enquanto isso, os cariocas, que já viram, em 2002, a grande exposição O olhar viajante de Piere Fatumbi Verger, que rodou sete capitais do país, têm nova oportunidade de conhecer a obra do pesquisador. A exposição Pierre Verger: 66 imagens, na Pequena Galeria 18, em Copacabana, apresenta 66 fotos, das quais 35 nunca haviam saído do negativo. As obras foram selecionadas pelo publicitário e colecionador Mario Cohen, também dono da galeria, especilizada em fotografia. Entusiasmado, Cohen conta que a mostra reúne imagens da época da chegada de Verger a Salvador: - Ele se deslumbrou com a alegria, o povo e a cidade. Por isso escolhi essas fotos, feitas entre 1946 e 1949, a maior parte na Bahia. Depois, ele continua a ser um grande fotógrafo, mas começa a focar seu trabalho em temas mais específicos - explica Cohen, que começa no segundo semestre a rodar um documentário em 17 capítulos Os caminhos de Pierre Fatumbi Verger, explorando as tradições africanas que tanta fascinaram o autor de livros como Orixás e Notas sobre o culto aos orixás e voduns. Na mostra carioca, Cohen pretendeu dissociar a obra do fotógrafo - Verger deixou 62 mil negativos fotográficos - da do estudioso. Sem preocupação com o significado antropológico por trás das imagens, escolheu-as apenas por sua qualidade estética. As cópias, em 35 cm x 35 cm foram ampliadas em selênio, em série numerada. - Na fotografia preto-e- branco, a revelação é metade da questão. Esses negativos têm mais de 50 anos e precisam de um processo de revelação com procedimentos museológicos, que dê durabilidade de pelo menos 100 anos a cada imagem- ressalta Cohen. Sete cópias de cada fotografia estarão à venda - as primeiras de Verger a serem comercializadas em série. - Até agora, só grandes colecionadores, pessoas que conseguiam chegar até a Fundação Pierre Verger, podiam, eventualmente, comprar uma fotografia dele - observa Cohen. As três primeiras cópias vendidas custarão US$ 2 mil, as duas seguintes US$ 2,5 mil, e as duas últimas US$ 3 mil - ou seja, as imagens vão ficando mais caras à medida que há menos disponíveis. O resultado das vendas será revertido para a Fundação Pierre Verger, que planeja levar a mostra também a São Paulo e Salvador. (© JB Online)
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