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05-06-2008
Diretor faz sua estréia em longa-metragem, que tem Paulo Autran como protagonista LUIZ CARLOS MERTEN RIO - João Falcão inicia a filmagem de A Máquina. Ele roda cenas da apresentação da banda do filme, que terão de ser editadas até o início real das filmagens, daqui a um mês. Há tempos que João Falcão sonhava transpor, para o cinema, a peça que dirigiu no palco, adaptada do romance de sua mulher, Adriana Falcão. O roteiro que escreveu faz mudanças importantes.Projeta Antônio, o protagonista, no futuro. Ele narra a história daqui a 50 anos. Ou recua no tempo para contar sua história. Paulo Autran será o intérprete do papel. Há coisa de dois ou três anos, João Falcão esteve prestes a concretizar o projeto, com Chico Buarque no papel de Antônio. "Passamos do estágio da conversa e chegamos aos testes. Em função do Chico, escolhi o ator que o interpretaria quando jovem. O Chico desistiu de interpretar, mas não de participar de A Máquina no cinema. Fez uma canção linda, que já me entregou." Os atores que participaram de A Máquina no palco - Lázaro Ramos, Wagner Moura - também já garantiram sua participação. "Vão fazer pequenos papéis. Os principais serão Gustavo Falcão e Adriana Ximenes." A dupla passou o fim de semana no Nordeste, fazendo pesquisa para os personagens. Foi uma idéia de João Falcão que o produtor Diller Trindade encampou. Estão encantados, um com o outro. Diller tem ganhado muito dinheiro com os filmes da Xuxa. Finaliza atualmente o novo filme de Renato Aragão, Didi Quer Ser Criança. Diller acredita em cinema industrial. Investe em Xuxa e no trapalhão. Sabe que está financiando uma produção intelectualmente mais ambiciosa. "O Diller é sensacional", derrama-se em elogios o futuro diretor. "Primeiro, tentei que outros dirigissem A Máquina; quando assumi que ia dirigir, bati em algumas portas atrás de patrocínio." No ano passado, conversou com Diller e lhe apresentou o roteiro, que já teve várias versões. "Ele adorou e me perguntou quando queria começar a filmar. Chutei - julho do ano que vem. Ele topou e agora já vamos começar a filmar." João Falcão conta essas coisas num restaurante do Leblon - o Barra Brasa -, durante o almoço com o repórter do Estado. É cinemeiro desde criança. A direção do filme será a concretização de um sonho muito alentado. E não será a direção de um filme qualquer - "A Máquina não é autobiográfico, mas narra a minha história, a história de pessoas que conheço. Acho que poderá ser um belo filme." Paulo Autran não duvida disso. O grande ator de teatro, com poucas, mas importantes passagens pelo cinema - Terra em Transe, de Glauber Rocha -, se confessa um admirador de João Falcão. "Ele escreve bem, tem um humor inteligente, encravado numa matriz brasileira. Gostei muito do roteiro e do personagem. Vai ser algo estimulante de fazer." Muito provavelmente não será a repetição da experiência de Terra em Transe, em que Glauber, segundo Paulo Autran, "escreveu um filme, fez outro na filmagem e um terceiro na montagem". Até por ser sua estréia na direção, João Falcão, que estudou arquitetura, deixou a faculdade e incursionou pela música e pela publicidade antes de sentar pé na Globo, como parceiro de Guel Arraes, está tendo o cuidado de planejar as cenas nos mínimos detalhes. Tem até storyboard - que não desenhou, esclarece. "Posso até mudar durante o processo, mas é uma garantia, uma base para dar certo." Está entusiasmado com a parceria de Walter Carvalho, que será seu diretor de fotografia. "O Walter está todo animado com o filme. Tem idéias muito interessantes que vamos poder desenvolver." Walter Carvalho tem sempre idéias interessantes - seu conceito para a fotografia de Cazuza resultou num dos pontos altos do filme que ele próprio co-dirigiu com Sandra Werneck e que está em cartaz desde sexta em 152 salas de todo o País. Máquina de sonho - "Vamos filmar em estúdio", diz João Falcão, que fez construir o núcleo central da cidadezinha de Nordestina, prevendo a movimentação da câmera e dos atores. Na história de A Máquina, Antônio é um homem muito comum, obscuro funcionário de uma cidadezinha tão nordestina que tem esse nome. O que ilumina a vida de Antônio é o amor por Karina. Ela é atriz e, quando anuncia que vai embora para conquistar o mundo, Antônio lhe pergunta - "É o mundo que você quer? Então eu trago ele para você." Mas, como o mundo que Antônio encontra não é digno de ser oferecido a Karina, ele resolve mudá-lo e é aí que entra a máquina. Não é bem uma máquina do tempo. É mais uma máquina de sonho, de acreditar na utopia de poder mudar o mundo, mas o tempo - de Antônio jovem e idoso - é sempre importante no teatro desse pernambucano de 45 anos. Está na essência de outro trabalho - A Dona da História, que Daniel Filho filmou, para estrear em outubro. As duas personagens de A Dona da História, interpretadas por Marieta Severo e Andréa Beltrão no palco e por Marieta e Débora Falabella no cinema, trafegam entre o passado e o futuro, 30 anos depois. O prazo vai aumentar ainda mais em A Máquina - serão 50 anos, entre o que Paulo Autran lembra e... vai viver, na sua tentativa de presentear Karina com nada menos do que o mundo. A Máquina surgiu como livro de Adriana Falcão, editado pela Objetiva, virou peça de Adriana que João dirigiu e agora será filme que João escreveu. Quando dirigiu A Máquina no palco, ele disse que queria prescindir de recursos cinematográficas e usar a riqueza da linguagem teatral. Agora vem com tudo para o cinema, convencido de que A Máquina pode ser metáfora desse meio de expressão. João Falcão escreve e dirige para teatro desde 1980. O primeiro texto, Muito pelo Contrário, parodiava a tendência de folclorização do Nordeste. Desde então, acumulou êxitos como ator, autor e diretor, mas admite que só ganhou visibilidade na Globo. Fábula assumida no teatro, A Máquina surgiu de uma proposta de João Falcão à sua mulher. Ele queria uma peça sobre um migrante nordestino diferente do tipo tradicional. O problema do retirante é sobreviver. João Falcão queria falar sobre a necessidade de existir, de ganhar visibilidade. A situação de Antônio em Nordestina ganha múltiplos significados - representa a solidão do homem no mundo e a situação das culturas periféricas em relação às hegemônicas. Neste processo, a TV - meio de comunicação de massas - representa um papel importante. Representou na vida de João Falcão. Representou na peça, não deixará de estar presente no filme. Adriana não queria escrever a peça que o marido lhe cobrava. Dizia que não era sua praia, mas João leu as anotações da mulher, se entusiasmou e a incentivou a escrever um romance, que verteu para o teatro, convencido de que o formato de fábula não precisava de muitas adaptações para o palco. Decupou o romance e dirigiu a peça. Deu-lhe nova dimensão, ampliando o personagem principal, e agora vai para o cinema na boa companhia de Paulo Autran. O produtor Diller Trindade havia advertido o repórter - "Deixa ele te contar o filme. É poesia pura." A questão do vocabulário é fundamental e, por isso, Gustavo Falcão e Mariana Ximenes foram pesquisar a linguagem dos personagens in loco. João Falcão não espera que tragam um sotaque, mas uma música da linguagem. Autodidata, ele inventou seu teatro, dizendo que queria desvirginar a arte da representação, que andava muito recatada, tímida e avessa a novas experiências. A expectativa é de que o desvirginamento continue no filme - o cinema brasileiro precisa desse apetite de João Falcão por novas experiências. (© O Estado de S. Paulo)
Primeiro filme de João Falcão começa a ser rodado
RIO - João Falcão inicia a filmagem de A
Máquina. Ele roda cenas da apresentação da banda do filme, que terão de ser
editadas até o início real das filmagens, daqui a um mês. Há tempos que
João Falcão sonhava transpor, para o cinema, a peça que dirigiu no palco,
adaptada do romance de sua mulher, Adriana Falcão. O roteiro que escreveu
faz mudanças importantes. Projeta o protagonista, no futuro. Ele narra a
história daqui a 50 anos. Ou recua no tempo para contar sua história. Paulo
Autran será o intérprete do papel. (© Pernambuco.com)
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