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05-06-2008
Na terceira e última matéria de uma série que enfocou novos e veteranos do forró, o sanfoneiro Camarão fala sobre sua trajetória, critica e elogia a música que se faz hoje. A entrevista de Camarão é complementada com comentários sobre lançamentos recentes, abrangendo os diversos estilos de forró, do pé-de-serra ao universitário JOSÉ TELES Uma prova do descaso sofrido pelo forró é o que acontece com o sanfoneiro Camarão. Os 18 LPs que lançou estão todos fora de catálogo. Com mais de meio século de sanfona, ele não recebe nada de direito autoral, sustenta-se dando aulas de sanfona e acompanhando, há 13 anos, Santanna, o Cantador. No São João de Caruaru, cidade onde viveu a maior parte dos seus 64 anos, está escalado para apenas uma noite. Nascido em Brejo da Madre de Deus, Camarão aprendeu sanfona ainda criança. “O forró como a gente chama hoje era conhecido por samba. Os sanfoneiros tocavam valsas, polcas, vi muitas vezes Zé Tatu tocando estes estilos. Estas músicas nordestinas, a não ser nos sítios, só tocavam no período junino. Só depois é que vieram as músicas de Luiz Gonzaga”, conta ele, com a autoridade de testemunha ocular da história. Até Luiz Gonzaga estilizar os vários ritmos nordestinos, e criar o modelo de conjunto com sanfona, triângulo e zabumba, usavam-se diversos instrumentos, alguns curiosos, como o melê: “Era feito um tamborim grande. Cortavam uma árvore, furavam no meio, e pregavam uma borracha na boca. Era um sonzinho meio baixo, mas dava pra fazer a percussão. Só conheci bateria já rapazinho, em Caruaru. Era chamada de jazz”, continua. “Comecei com 18 anos, tocando nos cabarés. Em Caruaru, Serra Talhada, onde tivesse cabaré eu tocava”, relembra. Depois desse estágio, Camarão voltou para Caruaru e entrou na Rádio Difusora: “Na vaga de Zé Vaqueiro. O primeiro sanfoneiro lá foi Hermeto Pascoal, que chamavam de Sivuquinha. A gente acompanhava todos aqueles artistas famosos, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, todo artista que vinha para a Rádio Jornal do Commercio (atual Rádio Jornal) ia para Caruaru”. Louro de bochechas avermelhadas, veio daí o apelido Camarão: “Um dia cheguei atrasado na rádio. No que entrei com a introdução, avexado, Jacinto não acertou e gritou: ‘De novo, Camarão’. O pessoal caiu no riso e a coisa pegou”. Até o final dos anos 70, Camarão conseguiu viver de música sem se mudar de Caruaru. Vinha ao Recife, para apresentações ou gravações na Rozenblit. “Toquei nos discos de Jacinto, Déo do Baião, Ludugero (cômico e forrozeiro, fenômeno de público e vendas no Nordeste, até 1971, ano de sua morte, em um acidente aéreo). Teve também A Polquinha choradeira, de minha autoria (no selo do disco, em parceria com Luis Queiroga).” Camarão chegou a participar de um trio com Jacinto Silva e Raimundo Peba, Os Nordestinos do Ritmo, mas é sua a paternidade da primeira banda de forró, A Bandinha do Camarão, composta por doze músicos. Logo ele que não é admirador das bandas de forró atuais: “Nem se pode dizer que é forró, cantam até versões de músicas estrangeiras. Mas conseguiram dominar o mercado. Essas bandas, feito Limão com Mel, são administradas por magnatas, então fica difícil competir com eles”. Quanto ao chamado forró pé-de-serra, Camarão só livra a cara de três cantores: Flávio José, Santanna e o novato baiano Delmário Coelho. De compositores, cita Maciel Melo, Petrúcio Amorim e o falecido Accioly Neto: “O problema é que não tem mais assunto, o que tinha para falar, Gonzaga falou: seca, boi, rio, mar, aonde o sujeito for, já está copiando Gonzaga. Então, agora, o pessoal fica nessa coisa melosa”, critica. Ele atribui às bandas de forró eletrônico o interesse pela sanfona: “Teve uma época que o sanfoneiro era espécie em extinção. Havia eu e mais uns poucos. O Mastruz com Leite e essas bandas trouxeram o sanfoneiro de volta. Embora, hoje, a sanfona nas bandas seja objeto decorativo, o que vale é a guitarra e o teclado”. Camarão não pensa em se aposentar, mas não demonstra interesse em continuar com sua banda ou voltar a lançar disco: “Gravar para quê? Para presentear os amigos? Ninguém compra, não toca no rádio, e quando acontece de vender bem, no outro dia está no camelô pirateado”. O forró, este Camarão acha que não acaba nunca: “Na verdade, o forró nunca foi muito considerado, mas é feito aquele programa, Balança Mas Não Cai: balança, balança, mas não cai, vai continuar sempre”. (© JC Online) Do pé-de-serra ao baião de nível universitário A carência de compositores talentosos, produções semiprofissionais e a apresentação canhestra das capas dos CDs tornam desigual a competição entre o forró tradicional com o forró alambadado do Limão com Mel e quejandos. O CD Homenagem ao Rei, da Banda Alvorada, sintetiza os defeitos de grande parte da safra atual de forró. A pobreza da capa beira ao naif ruim, a qualidade de gravação é igualmente amadora e a música, embora com boas melodias, peca pela insistência em falar das coisas do Nordeste como se isso fosse obrigatório. Pior ainda é Dançando Xote, de Zé Ceará. A capa reforça a imagem do matuto ingênuo, a produção é inexistente e os xotes só não são mais fracos do que a voz de Zé Ceará. Ele ainda tem outro CD, Um Cabôco em Paris, com poesia matuta, dessas que entortam a prosódia. Poucos logram escapar dos estreitos limites deste subgênero poético. Zé Ceará não está entre estes poucos.“São três coisas na vida que eu não deixo de fazer/ Dançar muito forró, raparigar e beber”, os versos que abrem o CD Eu Sou Safado (Polysom) dão a pista do conteúdo do disco. O Forró Sacode segue a linha dos eletrônicos, com letras de triplo sentido. O ritmo acelerado pode ser sucesso nos forrobodós, mas deve fazer Luís Gonzaga dar cambalhotas no túmulo. Um Dia Perfeito (Deckdisc), do Falamansa, ainda insiste na linha do forró universitário, já meio fora da moda. A banda não é ruim, mas também não é boa. O grupo canta Sete Meninas (Dominguinhos/Toinho Alves), Roendo unha (Luiz Gonzaga/Luiz Ramalho), mas não vai além da diluição do gênero. A mineira Irah Caldeira presta uma homenagem a já considerável obra de Maciel Melo em Irah Caldeira Canta Maciel Melo. O próprio compositor participa em uma faixa, e o ubíquo Dominguinhos em outra. O repertório foi bem escolhido e a cantora segue a linha Elba Ramalho, ou seja, forró com jeito de quem faz MPB (o forró nunca foi convidado para o clube da MPB, a não ser quando cantado por emepebistas de carteirinha e crachá). Ela não tem, no entanto, o mesmo pique da paraibana, apesar de ser acompanhada pela nata dos instrumentistas do forró pernambucano. Patrícia Cruz faz forró de nível universitário, com o CD Belezura (desnecessário o subtítulo “Forró Pé-de-Serra”). Até a apresentação do disco é assinada pelo poeta Jaci Bezerra, expoente da geração 65. A maioria dos compositores que interpreta é ligada à cantoria e admiradora de Elomar (Miguel Marcondes, Luiz Homero, Anchieta Dali), mas o disco, embora com algumas letras rebuscadas, não deixa de ter balanço, uma variedade de ritmos saudável e temáticas que não se limitam a cantar apenas o amor. Por fim, a experiente Nena Queiroga, com Xotes e Forrós. Seu repertório é de primeira qualidade, com composições da cantora e de autores como Alceu Valença, Lula Queiroga e Zé da Flauta, de quem resgatou a quase desconhecida Zé Piaba, um forrozão como não se faz mais. A produção poderia ser menos polida, o que esfria, por exemplo, o rojão Fé na Perua (Alceu Valença/Zé da Flauta) e Forró dos Infernos S/A e Lula Queiroga.(J.T.) (© JC Online) Forró ao molho de coco é a receita de Herbert Lucena
MARCOS TOLEDO Um década após o fim da banda Uzzo, seus principais idealizadores e integrantes ressurgem com projetos tão pessoais quanto diferentes. O primeiro foi Junio Barreto, que se apresentou no Abril pro Rock 2003 e, neste ano, lançou um disco independente em sintonia com o que há de mais moderno (com qualidade) na música pop brasileira. Agora é a vez de seu parceiro, Herbert Lucena, que aposta em autênticos coco e forró em seu primeiro trabalho solo, o também independente Na Pisada Desse Coco. Em comum com Junio Barreto, além das experiências iniciais nas bandas Goma de Mascar e Uzzo, Herbert Lucena, 38 anos, possui a forte influência de Luiz Gonzaga e das bandas de pífanos de Caruaru, cidade onde iniciaram o trabalho musical ainda nos anos 80. Enquanto Junio se voltou mais para a veia do samba tradicional do interior e rumou do Recife para São Paulo em busca de novas leituras para este ritmo, Herbert voltou para Caruaru e imergiu na musicalidade tradicional da região. “Minha base é o coco e a banda de pífano”, esclarece Herbert, que gravou e toca acompanhado de todos os instrumentistas deste tipo de grupo, aos estilo dos antigos regionais, exceto pelo próprio tocador de pífano. Segundo ele, o instrumento de sopro popular é difícil de ser afinado com os demais. “Meu coco é mais o de embolada, na linha de Jackson do Pandeiro e Jacinto Silva, que a gente faz lá no interior.” Nos shows, Herbert é acompanhado pelo conjunto Filhos do Estado, um dos mais antigos de Caruaru. Apenas para efeito de comparação, pode-se dizer que Herbert Lucena segue a linha de Silvério Pessoa, no sentido de fazer um forró criativo com base no coco. Silvério, porém, desde sua passagem pelo grupo Cascabulho já apontava para uma busca de novos caminhos a partir desta linguagem. CD AUTORAL – A sonoridade do trabalho de Herbert é mais tradicionalista. Já as letras, são mais atuais. Um bom exemplo é a faixa Forró de Caruaru: “Nem todo coco faz cocada/ nem todo sapo é cururu/ nem todo papagaio fala/ nem todo sanfoneiro é Zé Tatu/ nem todo forró que toca em rádio/ é como o forró de Caruaru...”. Nitidamente autoral, entre suas dez faixas Na Pisada Desse Coco apresenta seis composições de Herbert. Três destas, em parcerias: Forró de Caruaru, com Wellington Branco, Me perguntaram, eu respondi, com Xande Razec, e Samba na casa de Biu, com Dja Vasconcelos e Demóstenes. Outras três canções são de forrozeiros veteranos como Juarez Santiago (A saudade que a gente deixa), Manoel Alves (São João no cedro) e Tiago Duarte (Lá vou eu no arrasta-pé). Quase todo o repertório, segundo o autor, é inédito. A única regravação é Em tempo de arrasar, de Tiago e Manoel. “Foi o primeiro coco que ouvi”, afirma. “Tiago quem me ensinou.” Após seis anos tentando viabilizar este projeto, pensado inicialmente para uma banda, Herbert Lucena finalmente consegue colocar seu álbum na praça. Um trabalho bem cuidado, da concepção, passando pelo registro dos fonogramas até a apresentação gráfica. Se o músico – que pretende voltar a morar no Recife – conseguir montar um bom projeto de divulgação, tem tudo para somar mais um nome importante no rol de músicos jovens pernambucanos responsáveis por manter vivas as tradições musicais do Estado. Contatos com o artista pelos fones (81) 9922.0100, 3721.8582 e 9981.0967, pelo e-mail herbertlucena@terra.com.br ou no site www.herbertlucena.com.br. (© JC Online)
Repertório da temporada
Novos discos de forró chegam diariamente às lojas nas semanas que antecedem o São João. Dos caminhos mais tradicionais aos mais estilizados, vale tudo pra chegar aos arraiais. O xote continua sendo o campeão de público, com fenômenos como Fala Mansa e Santanna atingindo as dezenas de milhares de cópias vendidas, conquistando todas as classes sociais. As poucas ousadias não chegam a mudar o gênero, se restringindo ao acréscimo de instrumentos ou à mistura básica de ritmos. De uma forma geral, fica difícil diferenciar os que estão sendo tradicionais dos que estão se repetindo. Mas o importante é que novas músicas estão sendo criadas em ritmo quase industrial, evitando que o povo se restrinja apenas aos clássicos. (Júlio Cavani)
Festa Nordestina - Coletânea de forró da gravadora EMI, que junta de Luiz
Gonzaga a Luiz Caldas, passando por Clara Nunes, Mastruz com Leite, Genival
Lacerda, Sivuca, Marinês e Jackson do Pandeiro, reunindo os maiores
clássicos regionais, como Sebastiana, Asa Branca, Severina Xique-Xique e
Assum Preto. Flávio José - Pra Amar e Ser Feliz - O paraibano de Monteiro valoriza sua condição de sanfoneiro-cantor, separando os dois ofícios apenas em uma música instrumental do novo disco. O forrozeiro prefere gravar canções dos outros, interpretando obras de Jorge de Altinho, Cicinho do Acordeon, Anchieta Dali, Acioli Neto, entre outros.
Maciel Melo - Dê Cá um Cheiro - Apesar do título, o novo disco do autor de
clássicos como Caboclo Sonhador está mais voltado para a valorização das
coisas da terra, do interior. No disco há uma regravação de O Ciúme, de
Caetano Veloso, que ele inclui para homenagear Petrolina. (© Pernambuco.com)
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