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Tom Zé, o rei das mulheres

05-06-2008

O cantor e compositor baiano Tom Zé


Leonardo Lichote*

   O arame farpado e as cordas da capa do disco “Estudando o samba”, de Tom Zé, não assustaram Zélia Duncan, Mônica Salmaso e Adriana Maciel. De olho no pomar de canções do outro lado, elas pularam a cerca e saíram de mãos cheias. Nos recém-lançados CDs das três há canções do disco, cultuado por muitos como a obra-prima do compositor. Zélia pinçou “Tô”, Salmaso escolheu “Menina amanhã de manhã”, e Adriana foi em duas, “Tô” e “Só”.

   — Lancei o disco em 1976. Em 1990 ele passou a existir, como eu, quando David Byrne o descobriu num sebo carioca e lançou uma coletânea que incluía músicas dele. E agora, volta à cena na voz dessas cantoras — diz Tom Zé, antes de fazer algumas contas e divertir-se com a própria descoberta. — De 76 a 90 são 14 anos, assim como de 90 a 2004. “Estudando o samba”, então, é um vírus que se manifesta a cada 14 anos. Quem sabe desta vez eu, que sempre fiz samba, possa ser chamado de sambista?

Samba é gravado pelas novas gerações desde a década de 90

   As recentes gravações são coincidência? Sim e não. Sim, porque nada foi combinado entre as cantoras. E não, porque, numa época em que o samba está no centro da produção musical brasileira — da leitura indie de Los Hermanos ao quintal televisivo de Dudu Nobre, passando pela quase pureza de Teresa Cristina e pelo rap gingado de Marcelo D2 — a bola do “Estudando o samba” parecia estar quicando na área, só esperando o chute. Ganhou três de uma vez. Todos aprovados por Tom Zé.

   — Adriana faz “Só” de maneira linda, com doçura. Mônica canta “Menina amanhã de manhã” num arranjo que é quase um sonho, algo que nunca se materializa, com os instrumentos se disfarçando. E Zélia arranca da letra de “Tô” uma poesia concreta, que nem eu nem Elton ( Medeiros, parceiro dele na canção ) tínhamos imaginado — elogia. — Nos shows faço referências às interpretações delas.

   Zélia aponta a importância do disco:

   — “Estudando o samba” é pertinente em qualquer época. Nos anos 90 assistimos ao encontro do rock com a MPB, coisa que Tom Zé já tinha feito com primor em 1976 — louva Zélia. — Fica difícil falar hoje que algo é novo depois dele. “Estudando...”, um disco abusado. Eu me sinto mais inteligente cantando Tom Zé.

   Fã de “Estudando o samba” desde os anos 90, Zélia escolheu “Tô”, mas quase gravou “Menina amanhã de manhã” no CD “Eu me transformo em outras”. Salmaso, que acabou gravando a canção em “Iaiá”, conheceu o disco — lançado em CD em 2000, na série “2 em 1” (Warner) — quando selecionava o repertório.

   — Eu me apaixonei pela música e fiquei um tempão pensando como ia cantá-la — conta.

   Adriana também foi apresentada recentemente a “Estudando o samba”.

   — Estava escolhendo músicas para “Poeira leve” ( ela tirou o nome do CD de um verso de “Só” ). Tive vontade de gravar tudo — lembra.

   O que tem o disco, afinal? A releitura sofisticada de “A felicidade”, de Tom e Vinicius; a instrumental “Toc”, que pouco a pouco vai distendendo as fronteiras do samba; a intrincada “Hein?”; “Mã”, uma canção ancestral-futurista; versos como “Na vida quem perde o telhado/ Em troca recebe as estrelas” (“Só”) e “Tô te explicando pra te confundir” (“Tô”). Este último foi motivo de depressão para Tom Zé, quando assistiu no ostracismo a Chacrinha pegar a idéia emprestada no bordão “eu não vim para explicar, e sim para confundir”.

   Zélia destaca “Menina amanhã de manhã”.

   — É muita coragem alguém dizer que a “amanhã de manhã a felicidade vai desabar sobre os homens” — elogia a cantora niteroiense.

   Os versos, indiretamente, refletem as intenções que Tom Zé anunciava já em 1968, quando cantava “quero sambar, mas não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada”.

   — Ele tem esse olhar além da tradição, é muito próprio da arte dele — analisa Salmaso.

   Próprio como a contestação. Tanto que uma música sua, “Companheiro Bush”, de 2002, foi selecionada pelo cineasta Michael Moore para o CD “Farenheit 9/11 — Michael Moore’s music Coalition”, com músicas do filme “Farenheit 9/11”, vencedor da Palma de Ouro deste ano em Cannes, e outras afinadas com seu tema.

   — Fiquei com pena do Walter Salles perder em Cannes, mas depois vi que era por uma boa causa — conta Tom Zé, que não faz idéia de como Moore chegou à canção, do CD “Imprensa cantada”, que não foi lançado no exterior.

   Vá saber. Mas certamente tem a ver com aquele dia em que David Byrne esbarrou com o LP “Estudando o samba” num sebo carioca. (*Do Globo On Line)

(© O Globo)

 

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