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Memórias de quem toca a Orquestra Tabajara

05-06-2008

O maestro Severino Araújo


Adriana Castelo Branco

   No dia 18 de julho, o primeiro domingo de funcionamento do novo Circo Voador, na Lapa, a Orquestra Tabajara estará fazendo sua apresentação número 13.731. A marca, prestes a ser incluída no “Guiness book of records”, foi alcançada graças à dedicação do maestro Severino Araújo, de 87 anos, há quase 70 regendo 22 músicos em shows pelo Brasil e pelo exterior. Depois de tocar para presidentes, embalar a inauguração da televisão brasileira, animar soldados na Segunda Guerra Mundial, lançar mais de cem discos e fazer apresentações com gente do quilate de Pixinguinha, Ary Barroso e Orlando Silva, o maestro tem tanta história para contar que virou protagonista de documentário. Aliás, pretende continuar contando: ele garante que não tem planos de aposentar a baqueta tão cedo.

   — Lembro que quando anunciamos o último baile da Tabajara na “Domingueira voadora” do Circo, todo mundo chiou. Vamos voltar com força total. Quero completar os 80 anos da orquestra lá — diz Araújo.

Direção do Circo faz questão da presença do maestro

   Se depender da direção do Circo Voador, o lugar da orquestra na noite de domingo está garantido com tudo que seu maestro mandar. Lugar de honra, é bom ressaltar. A produtora Maria Juçá, que inaugura o espaço no próximo dia 14, com jam session de Lobão, Frejat e Tony Garrido, lembra que Araújo animou a “Domingueira” durante nove anos, de 1984 a 1993 e, quando começou a preparar as atrações do Circo, não titubeou em chamá-lo de volta:

   — O maestro virou referência para a música instrumental, com um repertório interplanetário. A presença dele vai ajudar a mostrar a dimensão do horizonte musical brasileiro.

   Os elogios da diretora do Circo não inflam o ego de Severino Araújo, acostumado a tocar com estrelas e a ser admirado por músicos do primeiro time da MPB. O saxofonista Paulo Moura, que fez uma turnê com a Orquestra Tabajara na Argentina nos anos 1970, lembra que os arranjos do maestro, com grande influência das big bands americanas, causaram um grande impacto no meio musical.

   — Ele é um nome muito importante na história da nossa música. Nos anos 50, seus arranjos tinham influência do jazz e, ao mesmo tempo, preservavam o ritmo brasileiro — ressalta Moura.

   Araújo e seus irmãos músicos — hoje ainda tocam com ele o baterista Plínio, de 83 anos, e o saxofonista Jaime, de 80, realizando uma média de dez apresentações por mês, com cachê de R$ 6 mil — introduziram o frevo no Rio e executaram pela primeira vez música clássica e bolero em ritmo de samba. Na família de Severino, aliás — ele é casado há 59 anos com dona Neuza, tem quatro filhos, cinco netos e seis bisnetos — a música corre nas veias.

   — Tenho um neto de três anos, o Rubens, que já toca clarinete. No baile que fiz recentemente no América Futebol Clube, ele fez questão de ficar no palco. Ele vai ser o sexto músico da família, pois, além dos meus irmãos, meu filho Francisco e meu neto Igor também seguiram a carreira — conta ele.

   Foi em Pernambuco, na cidadezinha de Limoeiro, que o maestro começou a estudar música aos 6 anos com o pai, também maestro. Aos 11 tocava clarinete e, aos 18, tornou-se o primeiro clarinetista da banda da Polícia Militar, já morando em João Pessoa. Dois anos depois, assumia a orquestra Jazz Tabajara, fundada em 1933, na rádio do governo da Paraíba, onde ficou até 1944. Nessa época, levou seu suingue para a base militar americana em Natal e começou a acompanhar artistas como Francisco Alves e Silvio Caldas, que logo trataram de fazer propaganda da Tabajara no Rio.

   — Quando eu tocava, os artistas cariocas ficavam espantados com os arranjos. Em 1944, fui convidado para tocar na Rádio Tupi e no Copacabana Palace; em 1945 vieram os outros integrantes da Tabajara e não paramos mais — lembra o maestro, que gravou o primeiro LP em 1945 e inaugurou a TV Tupi em 1951.

Filme sobre a orquestra será lançado no fim do ano

   As histórias de Araújo farão parte do documentário “Orquestra Tabajara, 70 anos”, que será lançado no fim do ano pelo diretor Antônio Ernesto Martins, que, aos 42 anos, lembra-se de ouvir o maestro na Rádio Eldorado, quando tinha 12. O cineasta já tem 15 horas de gravação com depoimentos de Sérgio Cabral, Ricardo Cravo Albin e Paulo Moura. O projeto está orçado em R$ 200 mil.

   — Meu filho foi fazer um workshop de bateria com o irmão do Severino e, quando ouvi a história da orquestra, decidi contá-la. Acho importante que ela seja perpetuada — diz o diretor.

(© O Globo)

 

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