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Todas as coisas preciosas de Gal Costa
em São Paulo

05-06-2008

 

Show que estréia hoje no DirecTV mostra repertório que explora mais a melodia e as preferências da cantora

BEATRIZ COELHO SILVA

   O show de Gal Costa, Todas as Coisas e Eu, que estréia hoje no DirecTV Music Hall, em São Paulo, tem o repertório do CD do mesmo nome, que vendeu 100 mil cópias desde o início do ano, e também músicas de discos antigos, mas com arranjos diferentes. Em entrevista no Rio, ela conta que vai se apresentar com um quarteto (Zé Canuto nos sopros, Marcos Teixeira no violão e guitarra, Bororó no baixo acústico e Jurim Moreira na bateria), para expor mais sua voz, em canções que fizeram sua formação musical. "Por opção, não há hits. Essas músicas vêm da minha infância, antes de aparecer João Gilberto, um divisor de águas na minha vida", explica ela. "Como sempre o tenho como referência para cantar, elas receberam um tratamento joãogilbertiano."

   Esse show, que tem direção de Bia Lessa, ocorre quase um ano depois da previsão. Gal pretendia gravar um disco ao vivo no Canecão, mas, na última hora, cancelou a temporada por falta de verba e foi para o estúdio registrar o um repertório de hits pré-bossa nova. "Foi ótimo ter sido assim. O disco ao vivo era vontade da gravadora e seria o primeiro produzido por Mariozinho Rocha nesse esquema", conta Gal. "A gente sempre se acertou, especialmente em discos importantes dos anos 80, e ficamos mais seguros gravando no estúdio. Agora, o show ficou mais enxuto. Minha intimidade com os músicos aumentou e a direção musical de Eduardo Souto Neto unificou os arranjos que a gente criou nos ensaios."

   Além dos hits do disco, o show tem músicas que não estouraram no rádio, mas despertaram paixão em quem as ouviu. Tem Alegria, de Assis Valente; Nada além, de Mário Lago; Três da Madrugada, de Torquato Neto e Gilberto Gil. Em alguns momentos, ela canta quase a capela. "Abro o show com Alguém Cantando, de Caetano Veloso, e Assum Preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) é feito só com o sax rodeando a melodia", adianta ela. Há ainda uma música nova, de Chico Buarque, mas só ficará pronta para a temporada do Canecão, no Rio, daqui a um mês. "Eu queria cantar algo inédito dele, mas fiquei intimidada de pedir. Aí ele mandou uma melodia que eu passei para o José Miguel Wisnik.

   É a primeira parceria dos dois e também a primeira vez que o Chico faz música e não letra de uma canção. É difícil definir o gênero, fica entre o samba e o baião."

   Essa será a única inédita de Gal, que já nem liga quando lhe cobram gravar compositores e músicas novas, no lugar dos clássicos que registra há quase uma década. Mesmo assim, enumera argumentos. "Tem tanta música linda, feita antigamente, e é preciso cantá-las. Além disso, é um repertório que explora mais a melodia, ao contrário do que se faz hoje, em que o ritmo é o principal. Música melódica é melhor para um cantor. E mesmo os cantores novos estão gravando sucessos antigos. Veja a Maria Rita, por exemplo, que tem várias regravações em seu disco", comenta ela. "Mas ainda vou gravar músicas inéditas, só não entendo essa cobrança insana por canções novas."

   A curta temporada paulista, só até domingo, deve-se à agenda apertada de Gal Costa. Ela faz show para lançar no Brasil o perfume de Narciso Rodrigues (que assina seu figurino) e depois viaja para Roma, onde abre a temporada de verão, ao lado de Gilberto Gil e Jorge Benjor, num espetáculo aberto, na Piazza del Popolo. Depois vai a Milão e Nova York e volta para fazer o Canecão. "Mas eu vou voltar a São Paulo, com certeza, quando estiver em turnê pelo Brasil", promete a cantora, que pensa em se mudar para a capital.

   "Já morei aqui no início da minha carreira e quero voltar, pois é preciso ter um pouso no centro do País e eu adoro São Paulo."

(© O Estado de S. Paulo)


Gal Costa começa hoje em São Paulo temporada de seu novo show, estabelecendo clima de intimidade com a platéia

"João Gilberto de saias" se solta no violão

LUIZ CAVERSAN
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

   A emoção não está reprimida, mas a sensação é a de que existe uma linha de contenção para os arroubos e grandiloqüências.

   Os tons são sempre médios, embora a voz esteja absolutamente cristalina e aqui e ali alcance um agudo mais cortante.

   O que predomina, no entanto, é um clima joãogilbertiano de sofisticação vocal e timbres elaborados, harmonias ricas e, mais que tudo, um repertório brasileiramente luxuoso.

   Quem tem ouvido Gal Costa cantar nos últimos tempos provavelmente vai estranhar: não há profusões de instrumentos e/ou arranjos, tampouco os vibratos a compensar a voz ligeiramente delimitada pelo diafragma contido.

   Não, a Gal Costa que vem a São Paulo remete muito mais ao "João Gilberto de saias", apelido que ganhou no início da carreira a cantora de voz colocada, jeito brejeiro e violão em punho dos anos 70.

   Mesmo porque o violão está de volta em três canções.

   A Folha teve a oportunidade de acompanhar no último sábado, num estúdio do Rio, boa parte de um dos ensaios para o show.

   De cara, a surpresa: um quarteto inusual: baixo acústico, violão, bateria discreta e sopros (saxofones variados e flauta).

   Nada de piano, quase nada de eletricidades. Aliás, no último caso, perfeitamente dispensáveis diante do repertório de clássicos da música brasileira, uma coletânea de mitos -de Herivelto Martins a Assis Valente, passando por Nelson Cavaquinho, Ary Barroso, Caymmi, Custódio Mesquita, Lupicínio Rodrigues e, claro, Caetano e Jards Macalé/Waly Salomão.

   O que soou naquele estúdio encravado na floresta da Tijuca contextualizava esses talentos do cancioneiro popular de uma forma a resgatar Gal ao que tem tudo para ser uma nova e profícua fase.

   De cara, o susto diante de "Assum Preto" em dueto de sax soprano com uma voz remoçada de Gal -ela perdeu peso, livrou-se da pressão no diafragma e na sustentação das notas.

   Mais surpresa ainda diante da passagem surpreendente do clássico de Luiz Gonzaga para outra pérola, imortalizada por ela, "Vapor Barato" (Macalé/Salomão). A emoção percorre o estúdio, atingindo um sereno clímax na vocalize final com o jogo de palavras em "Oh minha honey/ baby/ oh, honey, baby".

Detalhes

   A cada nova canção, um detalhe de beleza (como na voz a capela de "Alguém Cantando", de Caetano), ousadia (o solo de baixo acústico para acompanhar "Nada Além", de Custódio Mesquita/ Mario Lago, realçando o lado jazzístico daquele velho fox) ou de serenidade (na belíssima "Folhas Secas", de Nelson Cavaquinho).

   Ao violão, depois de dois instrumentos roubados e décadas de afastamento, ela retorna com "Um Favor", de Lupicínio, e com "Nega Manhosa" e "Samba Rubro Negro", na melhor tradição do samba de conteúdo jocoso.

   A volta ao instrumento é trabalhosa: "Até que tenho uma boa ginga na mão direita, porém a esquerda é muito ruim. Mas os amigos estão ajudando e vai ser legal criar essa intimidade com a platéia", afirmou a cantora.

   Quanto à sonoridade do conjunto do show, ela garante que a intenção era mesmo a busca da delicadeza: "Há uma evidente conexão com João Gilberto, estou retomando uma aproximação que tive com ele desde sempre. Aquela coisa de ficar com o sentimento em suspensão, meio que na ponta do pé, quase sussurrando, trabalhando a técnica de respiração e colocação das notas".

   Esse sentimento foi devidamente captado e será explorado em cena pela diretora do espetáculo, Bia Lessa, para quem o tipo de musicalidade que vai rolar exige que se crie "algo fora do tempo". "Sem passado, presente, futuro; sem compromisso com a forma, com a música em suspensão."

   Pelo que foi possível perceber no ensaio do Rio, em suspensão deverá ficar a platéia paulistana diante dessa "nova" Gal Costa.

GAL COSTA. Direção: Bia Lessa. Com: Zé Canuto (sopros), Marcos Teixeira (violões), Bororó (contrabaixo) e Jurim Moreira (bateria). Direção musical: Eduardo Souto Neto. Roteiro: Gal Costa e Mario Canivello. Onde: DirecTV Music Hall (av. dos Jamaris, 213, Planalto Paulista, região sul de São Paulo, tel. 0/ xx/11/3177-3663). Quando: hoje, às 21h30; amanhã e sáb., às 22h; e dom., às 20h. Quanto: de R$ 40 a R$ 80.

O jornalista Luiz Caversan viajou ao Rio a convite da produção do show

(© Folha de S. Paulo)

 

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