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A sanfona erudita de Sivuca

05-06-2008

Sivuca

Veja e escute Sivuca tocando sua sanfona
 

Tradicionalmente vinculado ao forró, o instrumento ingressa no requintado mundo das orquestras sinfônicas pelas mãos do músico paraibano

JOSÉ TELES

   “Quando esteve ao lado da sinfônica executando a Rapsódia Azul, esse louríssimo sanfonista (sic) de Itabaiana mostrou o quanto pode ainda realizar num simples ambiente que esteja à altura da sua inteligência e de sua inclinação musical”. O trecho é pinçado da coluna Radiocultura, na edição de 3 de outubro de 1948, do Jornal do Commercio. Sivuca, “o louríssimo” sanfonista de Itabaiana”, 56 anos depois, mostra aonde chegou com sua inteligência e inclinação musical, assumindo o papel de solista da Orquestra Sinfônica do Recife. Ele e a OSR, regida pelo maestro Osman Gioia, estão gravando sua obra erudita, para um CD, patrocinado pela Prefeitura do Recife, a Phillips e a UFPE.

   “Me sinto em estado de graça, não somente por estar vivendo um grande momento na minha carreira, mas também por realizar este trabalho aqui no Recife, onde tudo começou”, diz Sivuca que aos 15 anos veio a Pernambuco tentar uma chance na então terceira capital do País.

   Não apenas Sivuca está vivendo um grande momento, a sinfônica também, conforme ressaltou Osman Gioia: “Depois de feito concurso público para preencher todas as vagas, a orquestra finalmente pode contar com seus músicos em tempo integral”. o maestro explicou que as gravações não estão sendo feitas no Teatro Santa Isabel pela sua localização no centro da cidade: “Lá a gente só poderia gravar tarde da noite, por causa do barulho do trânsito”.

   O repertório que Sivuca e a sinfônica estão registrando é o mesmo da apresentação que ambos fizeram, em 12 de março no aniversário da cidade do Recife. Homenageado do São João do Recife este ano, Sivuca volta a tocar hoje, no Marco Zero, com a mulher Glorinha Gadelha. O CD tem lançamento previsto para setembro.

(© JC Online)


Sanfoneiro diminui distância entre música popular e clássica

   A obra sinfônica de Sivuca consiste na Rapsódia Gonzaguiana (seleção de clássicos de Luiz Gonzaga), Concerto sinfônico para Asa branca (adaptação para sanfona e orquestra do hino de Gonzagão e Humberto Teixeira), Feira de mangaio (baião composto por ele e a Glorinha Gadelha, sucesso com Clara Nunes), Aquariana (peça feita por ele para Glorinha), Moto perpetuo (transcrição para sanfona da célebre, e de difícil execução, peça de Paganini), Quando me lembro (de Luperce Miranda), e João e Maria, melodia composta por ele aos 17 anos, quando iniciava carreira na Rádio Clube de Pernambuco, e que foi letrada por Chico Buarque 30 anos mais tarde.

   Com este repertório, que só tem uma música inédita em disco (Aquariana), Sivuca parece querer ressaltar como é estreita a linha que separa o erudito do popular. Nestas gravações mostra não apenas os já conhecidos dotes de instrumentista,como também seu talento como arranjador e orquestrador: “O projeto existe desde 2001, mas só poderia ser feito com Sivuca, que tem toda concepção desta obra”, ratifica o maestro Osman Gioia.

   Sivuca retribui o elogio, apontando que este disco não teria o mesmo resultado se gravado com uma orquestra que não fosse nordestina e, sobretudo, pernambucana: “Nenhuma outra tem um naipe de metais igual, e isto se deve ao frevo. Só uma orquestra daqui poderia tocar com este sotaque”, afirma com o conhecimento de quem já tocou muito frevo.

   “Meu objetivo é trazer a sanfona para a família dos instrumentos sinfônicos”, complementa Sivuca, que não gosta de tratar o instrumento pelo nome acordeom. Alguém pergunta como a sanfona está comportando-se entre celos, e violinos: “Bem.Comigo, ela sempre se comporta muito bem”, brinca.(J.T.)

(© JC Online)


Naipes orquestrais do mestre Sivuca

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

"Trazer a sanfona para a família da música sinfônica é o objetivo maior da minha obra. Estou vivendo talvez o principal momento da minha profissão. Estou em estado de graça." As afirmações poderiam ser vistas como entusiasmo corriqueiro se não viessem de Sivuca, o principal sanfoneiro do Brasil, que em mais de 60 anos de carreira contribuiu para a história do instrumento mais ou tanto quanto Naná Vasconcelos para o berimbau ou Jimi Hendrix para a guitarra. O motivo de tanto orgulho é a gravação de um CD, no Teatro da UFPE, junto com a orquestra Sinfônica do Recife, que será o primeiro disco a reunir toda a obra erudita do músico. "Vou fazer o presidente Lula ouvir esse CD", desafia, com autoridade suficiente para tal.

  O disco reúne as sete peças da obra sinfônica de Sivuca, Rapsódia Gonzaguiana, Concerto Sanfônico para Asa Branca, Feira de Mangaio, Aquariana, Moto Perpétuo, Quando Me Lembro e João e Maria. Ele levou meses, às vezes mais de um ano, para compor todos os detalhes das sinfonias, preocupando-secom a erudição, porém incorporando características da música popular, sua verdadeira origem. Em parte por essa raiz cultural ele está satisfeito em gravar com a Sinfônica do Recife, cidade onde o paraibano oficialmente começou sua carreira aos 15 anos, em 1945. "Só mesmo uma orquestra brasileira e nordestina para tocar isso", explica, mencionando que uma vez a Filarmônica de Copenhagen (Dinamarca) executou um dos temas sem atingir a perfeição. "Não existe um naipe de metais no Brasil como o dessa orquestra", complementa, detalhando o elogio e buscando explicação na convivência dos músicos com o frevo.

  João e Maria ficou famosa na voz de Chico Buarque a partir da década de 1970, mas sua melodia, uma espécie de valsa, foi composta originalmente por Sivuca em 1947. Vários compositores colocaram letra na música, mas a do carioca é a única que tem o aval oficial do instrumentista. Rapsódia Gonzaguiana é um pout-pourri com clássicos de Luiz Gonzaga em versão orquestrada, assim como Concerto Sinfônico para Asa Branca, que faz o mesmo com a canção mais famosa do Rei do Baião. Moto Perpétuo é uma obra composta por Paganini no século XIX para violino, que é substituído pela sanfona na partitura do nordestino.

  Sivuca é o homenageado do São João da cidade do Recife em 2004, tocando hoje à noite no Marco Zero. A gravação do disco, no entanto, lembra que sua obra não deve ser associada apenas aos ritmos juninos, pois também tem incursões jazzísticas e, mais explicitamente agora, orquestrais. Naturalmente, todas as suas peças sinfônicas têm a sanfona como solista. Além de dirigir os arranjos pessoalmente, ele toca nas gravações a mesma sanfona que usa em seus shows de forró. Sivuca só tem duas sanfonas, idênticas, da marca italiana Scandalli, a melhor fábrica da Europa para o instrumento. Apesar de ter experimentado outros tipos de acordeão ao longo da carreira, o maestro prefere continuar com esse de estimação, fabricado em 1953. Na verdade, ele possuía mais uma sanfona, igual, depois dada de presente a Dominguinhos, que passou a usá-la em todas as apresentações e mandou substituir o nome italiano pela palavra Sivuca, que exibe com orgulho.

  A parceria com a Sinfônica do Recife é o terceiro CD gravado pelo compositor em 2004. Sivuca, que já lançou mais de 50 discos, participou este ano do disco Cada um Belisca um Pouco, formando um trio com Dominguinhos e Oswaldinho, que também está na programação do Marco Zero, junto com Marinês, outra lenda da Sanfona que tocou pela primeira vez com o paraibano em 1948. Este ano ele também lançou um disco com o quinteto de cordas Uirapuru, produzido pelo selo Kuarup.

  O projeto da gravação do CD era um sonho cultivado por Sivuca desde 2001. A concretização dele é resultante de uma soma de coincidências. A Orquestra Sinfônica tocou para os funcionários da Philips no Natal de 2003. Depois disso, a empresa aceitou patrocinar o projeto em parceria com a Prefeitura, que havia convidado Sivuca para se apresentar no Carnaval. Segundo o regente da Orquestra Osman Gioia, só agora, depois de investimentos da Prefeitura que permitiram a contratação de instrumentistas, ela está em condições de participar de tal empreendimento. Este também é o primeiro disco da OSR gravado sem a participação de músicos de outras orquestras. Além do teatro, a UFPE cedeu a tecnologia de captação de som e posterior mixagem. "No Teatro Santa Isabel não seria possível gravar por causa do trânsito", complementa Gioia.

Serviço

Shows dos sanfoneiros Sivuca, Marinês e Sua Gente, Oswaldinho do Acordeon e Glorinha Gadelha
Quando: Hoje, às 21h
Onde: Marco Zero

(© Pernambuco.com)


Forró inspirado no rap de Eminem

Áudio
» Xote Mei-de-Feira
» Chinelo
   Piauiense, de Santo Antônio de Lisboa, morando há 21 anos em João Pessoa, Beto Brito, que se apresenta hoje no Marco Zero, está lançando o sexto disco, Mei de Feira, evitando ser enquadrado apenas como forrozeiro. “Sempre procuro desvincular o rótulo forró do meu trabalho. O que eu faço é música nordestina”, classifica.

   Uma música com inspiração nas mais diversas nuances da região, entre as quais os folhetos de feira. O novo trabalho tem origem num folheto homônimo do próprio Beto Brito. Seu sétimo disco será feito em cima de ditados populares, compilados por ele em outro folheto, Sabedoria Popular.

   Na música de Mei de Feira, o CD, os ritmos dançantes do Nordeste (baião, xote) encontram-se com o repente. Na faixa Trem do forró, incursiona por uma das mais difíceis modalidades da cantoria de viola, o gabinete: “Sou passageiro numa boléia desse trem/ esse trem donde vem, esse trem donde vai/ esse trem donde vai, donde vem/ nem vem, nem vai/ nem vai, nem vem/ querem puxar meu tapete/ quem não canta gabinete não é cantor pra ninguém”.

   Beto Brito confessa ser um artista à procura do timbre perfeito: “Passei um ano gravando um disco para encontrar um timbre com o qual eu me identifique, e que faça com que as pessoas me identifiquem assim que escutar uma música minha”.

   Para chegar aos timbres de Mei de Feira, Brito diz que tem escutado um músico que não faz parte do universo dos forrozeiros, o rapper Eminem: “Se o cara vendeu milhões de discos é porque tem alguma coisa na música que faz. Escutando discos de Eminem, já fiz seis músicas para o meu próximo CD”, revela.

Sem disfarçar a imodéstia, o piauiense afirma que pretende que seus discos sejam escutados daqui a 40 anos, não como uma relíquia do passado, mas como uma música que ainda seja contemporânea. A definição do que faz, ou pretende fazer, está na faixa Balaio: “O meu forró é meio hippie, meio rap, meio rock, meio pop, made-in-fêra” (J.T.).

(© JC Online)

 

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