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Moderno e clássico

05-06-2008

Suíte Habana

 

Risco - Lúcio Costa e a Utopia Moderna abre hoje a mostra competitiva de longa-metragens do XIV Cine Ceará. O filme de Geraldo Motta Filho traça o perfil do arquiteto e da moderna arquitetura brasileira

Sílvia Bessa
da Redação

   Lúcio Costa foi o homem que inventou Brasília, ajudou a construir a moderna arquitetura brasileira, casou o moderno com a tradição colonial, fez o projeto de urbanização da Barra da Tijuca (RJ), o Pavilhão do Brasil na 13ª Trienal de Milão, criou o Parque Guinle no Rio de Janeiro, o museu das Missões Jesuítas no Rio Grande do Sul. E se não teve a mesma fama de suas obras é porque também foi um homem silencioso, discreto.

   Foi também o bisavô de Clarinha. E é aí que sua trajetória se cruza com a do cineasta Geraldo Motta Filho. Em 1986, Geraldo era um estudante de Filosofia que dividia apartamento com as amigas Vera Saboia e Julieta Sobral.

   Julieta tinha uma filha de dois anos e um avô que vez ou outra visitava a menina. Numa tarde, o senhor de grandes bigodes aproximou-se de Motta Filho, que estava estudando grego na mesa da sala. Puxou uma conversa sobre cultura clássica. Os dois passaram a trocar idéias sobre a arte grega, arquitetura, urbanismo.

   Motta Filho ficou impressionado. O avô da Julieta, o bisavô da Clarinha, era muito culto. ''Também, ele é o Lúcio Costa'', explicou Vera. ''O Lúcio que projetou Brasília?', admirou-se. ''Ele mesmo'', confirmou.

   ''O bom desse encontro inicial é que eu não sabia quem ele era e fiquei descontraído. Eu falava muito à vontade. Não tinha uma formalidade ou reverência. Acho que por isso estabelecemos um contato mais pessoal'', diz Geraldo.


   A idéia de um documentário sobre Lúcio Costa surgiu anos depois. No início, o arquiteto se esquivou. Depois, entregou-se. E foi assim que surgiu o O Risco -
Lúcio Costa e a Utopia Moderna,
longa que abre hoje a mostra competitiva do XIV Cine Ceará.

   Esse é o primeiro filme de Geraldo Motta Filho, que sempre trabalhou como assistente de direção. O Risco ganhou, no 31º Festival de Gramado, o Prêmio Especial do Júri, pela pesquisa e a recuperação de imagens de um dos maiores personagens da cultura brasileira.

  Recentemente, Motta Filho também foi premiado no concurso de argumentos lançado pelo Ministério da Cultura. Assim, escreve o roteiro de um ficção baseada na história do sergipano e Arthur Bispo do Rosário.


O POVO - Como foi a participação de Lúcio Costa no filme? Ele ajudou você na escolha dos entrevistados?
Geraldo Motta Filho - Ele me deu muita liberdade. Nós conversamos muito e tive acesso a um material pessoal dele. Em 1939, Lúcio comprou em Nova York uma câmera de 8mm. E de 1939 até 1972, registrou muita coisa. Ele me cedeu esses filmes e nunca me omitiu nada. Inclusive, tem um depoimento muito tocante no filme, que é a lembrança do dia em que a esposa dele (Julieta) faleceu. Na verdade, Lúcio se sentia culpado pelo falecimento da mulher porque ele cochilou quando vinha dirigindo o carro. O câmbio perfurou o coração dela. No dia que me contou isso, ele me mostrou um desenho que, alguns anos antes, o (arquiteto) Le Corbusier tinha mandado de presente para a Julieta. Era o desenho de um punhal ensangüentado. Lúcio chamava esse desenho de premonição.

OP - Esse depoimento foi você que propôs?
GMF - Um dia ele tocou no assunto.

OP - Houve momentos em que você preferiu desligar a câmera?
GMF - Na verdade, quando você está registrando não desliga a câmera. Este tipo de critério, eu vou ter na sala de edição. Não só em relação a ele mas em outros casos. A filha falando sobre esse mesmo assunto. O que eu acho interessante no filme é que ele nos permite compreender também quem é o Oscar (Niemeyer) na formação da arquitetura moderna brasileira. O Lúcio abriu caminhos de uma forma bastante consciente para o Oscar. E não apenas por ser uma pessoa generosa, mas por compreender que o Oscar poderia criar um atalho para a consolidação desse projeto moderno. No caso do Oscar, uma arquitetura de caráter mais monumental exuberante e muito diferente da arquitetura de gosto íntimo do Lúcio Costa. Se a gente pegar algumas coisas, como o parque Guinle (no Rio de Janeiro) e o Park Hotel de Friburgo, percebe que a arquitetura do Lúcio é muito complexa. Ela estabelece um certo diálogo com a tradição. A maneira como ele estabelece essas novas relações com os elementos da tradição gera uma proposta arquitetônica muito complexa que é, inclusive, muito difícil de transformar numa arquitetura que possa ser feita em grande escala. E aí existe até um certo paradoxo - um homem que abraça as questões modernas e, ao mesmo tempo, faz uma arquitetura que não eminentemente moderna. O Lúcio, de fato, é moderno no momento que ele aposta na técnica como um dos elementos de resolução dos problemas do homem.

OP - Qual o sentido que tinha a arquitetura pro Lúcio Costa?
GMF - Nada como ver o parque Guinle o Park Hotel de Friburgo pra compreender a complexidade e o caráter extremamente inovador da arquitetura pro Lúcio. Ele foi uma pessoa extremamente importante na consolidação do projeto moderno na arquitetura. É uma geração de um esplendor intelectual - Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Sérgio Buarque, Mário de Andrade, Carlos Drummond, Rodrigo Melo Franco de Andrade. O Lúcio faz parte desse grupo de intelectuais que pensou a questão da civilização brasileira.

OP - No filme, a arquiteta Maria Elisa Costa, filha de Lúcio, diz que ''o tempo é um só na cabeça dele''. Como você tratou o tempo na sua narrativa?
GMF - O tempo é uma simultaneidade para Lúcio. E isso estava presente na arquitetura dele. Mais uma vez vou falar do parque Guinle - onde você tem pilotis, combogós e muxarabis. Tudo isso num único conjunto arquitetônico. É genial a maneira como esses elementos se relacionam. Eles não são mais passaditos, são contemporâneos porque se relacionam de uma maneira nova. Por isso eu acho que o tempo é um só para o Lúcio.

OP - Essa noção de tempo aparece na sua narrativa?
GMF - De certa forma sim, porque o filme não é linear. É através dos depoimentos que as questões vão surgindo e vão sendo debatidas. De forma alguma é um filme apologético, muito pelo contrário. Às vezes coloco algumas questões que são delicadas em relação à posição do Lúcio.

OP - Como você vê a produção brasileira de documentário?
GMF - O Brasil tem uma vocação muito grande para o audiovisual. Recentemente, por acaso, o documentário tem chamado muita atenção porque têm surgido coisas muito boas. Mas no cinema de ficção também surgem coisas muito boas. Se os cineastas brasileiros tiverem oportunidade de realizar seus projetos, os filmes serão cada vez melhores.

© NoOlhar.com.br)


O JÚRI OFICIAL

Para curtas
- Malu Moraes (atriz e produtora - DF)
- Carlos Brandão (jornalista, pesquisador e crítico de cinema - RJ)
- Marcelo Lyra (jornalista e crítico de cinema - SP)
- Pedro Jorge de Castro (cineasta - CE)
- Maria Muricy (jornalista, produtora e montadora - RJ).

Para longas
- Myrna Brandão (crítica de cinema - RJ)
- Sergio Sanz (cineasta - RJ)
- Geraldo Moraes (cineasta - Brasília- DF)
- Luiz Zanin Oricchio (Jornalista e crítico de cinema - SP)
- Vladimir Carvalho (cineasta - PB)
- Rosemberg Cariry (cineasta - CE)
- Regina Martins (produtora - RS)

O MELHOR DO DIA
''Para mim, o melhor da programação de quinta é a Mostra Competitiva de Curta e Longa-metragem com o documentário Borracha para a Vitória, pois conta com grandes nomes do cinema cearense como Wolney Oliveira e Márcio Câmara. O filme é muito bem editado e mostra com realidade o descaso do governo com o povo.''
Fábio Miranda, videomaker de animação

(© NoOlhar.com.br)


Traço e perigo

O Risco, o livro, reúne trechos das entrevistas feitas para o documentário O Risco - Lúcio Costa e a Utopia Moderna

   Nem tudo coube na tela grande. Encerrada a captação de imagens em O Risco - Lucio Costa e a Utopia Moderna, eram dezenove entrevistados, várias horas de depoimentos gravados. Cinco depoimentos ficaram de fora, tudo foi resumido a 76 minutos de duração.

   ''A gente tinha um material muito extenso e muito rico. Por isso, resolvi editar um livro. As entrevistas não estão na íntegra mas há passagens bem significativas de cada uma. Aproveito o espaço para também contar o meu encontro com Lúcio'', explica Geraldo Motta Filho.

   O Risco, o livro pela editora Cosac & Naify, tem depoimentos da família de Lúcio Costa e de Oscar Niemeyer, Ítalo Campofiorito, Sophia Telles, Otília Fiori Arantes, Sérgio Ferro, Lauro Cavalcanti e Yves Bruand. Entre uma conversa e outra, vai se traçando o perfil do arquiteto Lúcio Costa, da moderna arquitetura brasileira, do próprio Brasil.

   Não por acaso, filme e livro levam o mesmo título. Lúcio viveu do risco da arquitetura - traço e perigo. Apostou nas convicções e abandonou os caminhos fáceis. A partir de 1932, o então jovem e bem sucedido arquiteto passou a rejeitar os projetos que lhe encomendavam. Os clientes queriam casas de ''estilo'' e Lúcio estava à frente.

   ''Lúcio sempre achou que a questão da arquitetura é intrinsecamente ligada ao belo. E pra ele o belo na arquitetura era uma certa adequação das tecnologias construtivas disponíveis com a resolução formal. Para ele, era um absurdo estar se fazendo arquitetura eclética. Quando ele percebe isso, abandona tudo. É um período, de 1932 a 1936, que ele chama que chômage (em francês, desemprego). Ele não queria continuar a fazer algo em que não acreditava. Preferiu correr o risco e dar uma reviravolta na própria vida e no cenário nacional da produção arquitetônica'', diz Motta Filho. (Sílvia Bessa)

(© NoOlhar.com.br)


A Ilha de Fidel na redoma

Firmino Holanda
Especial para O POVO

   É inevitável associarmos Suíte Habana a dois filmes da década de 1920: Berlim, sinfonia de uma metrópole, de Walter Ruttmann, e Um homem com a câmera, de Dziga Vertov. Abordando cidades no espaço de um dia, documentam seu cotidiano. Na montagem de situações paralelas, com locais e pessoas diversas, que não se cruzam, tecem um olhar sobre as respectivas realidades: o mundo capitalista da República de Weimer e o mundo socialista em construção. Apesar de duros tempos, não há nesses filmes um discurso político manifesto, sobre os respectivos sistemas. No filme cubano em questão, fica mais difícil ocultar essa vertente. Além de tudo, o trabalho se mostra marcado por uma melancolia ausente naqueles outros. E isso mais enfatiza a visão crítica da obra.

   Vários moradores da Havana desfilam diante de nós, silenciosamente, no ritmo pausado do filme, pontuado por música e ruídos dos ambientes (sonoridades com equivalência de um plano cinematográfico, pois tomam o corpo além do mero recurso de fundo). Entre as personagens destacadas, há somente uma criança, cuja formação excepcional inspira cuidados dos parentes. No mais, são pessoas maduras, ou bastante idosas. Essas, que viveram o apogeu da revolução cubana, nos dão a impressão de predominância no filme. A idéia do tempo a vencer seus corpos lá está. O tempo que descasca a tinta das paredes, da lousa escolar ou da geladeira. O tempo que poderá tragar os sonhos dos mais jovens, caso não seja feito algo (''o que fazer?' - parece ser o clamor travado da obra). No fim, as legendas expressam os sonhos de cada personagem. Aquela septuagenária de olhar triste, vendedora de rua, já não sonha mais. Isto será o destino dos demais?


   São relatos melancólicos de vidas modestíssimas, apegadas apenas à dignidade (ao contrário de tudo, valor que não se degrada). Não estamos diante de uma Cuba exaltada por seus feitos revolucionários ou de uma Cuba turística. Não se pode tomar o filme como uma visão definitiva sobre o país, do qual faz um recorte, a partir daquelas vidas. Mas não há espaço para Fidel, para charutos, ou para o charme musical captado por Win Wenders. O contagiante mambo é ''desmontado''. Numa festa, quando é sugerida sua intervenção, corta-se para um canto oral cheio de espiritualidade, lento, invadindo cenas em estádio de futebol e aquelas mesmas do clube dançante. E, quando ouvimos algo do gênero, é dublado por um travesti.

   Há também uma senhora nonagenária, alheia ao mundo, olhos vidrados no televisor. Em êxtase senil, assiste a manifestação política, com bandeirinhas nacionais; ou se encanta com um velho mambo. Representaria um passado a ser superado? Ela vê também o ícone da nova trova cubana, Silvio Rodriguez (mas nos foi impossível compreender a letra de sua canção. ''Mariposas'', e perceber até onde vai a dimensão crítica da cena).

   O filme é pontuado por um farol e pela estátua de John Lennon numa praça, desde a abertura. Surrealisticamente (nada é 100% documental), o beatle será ''velado'' por pessoas num revezamento ininterrupto, naquele logradouro. Noutras situações, fotos de Che Guevara discretamente se divisam. É uma rara referência à revolução. O mito do rock e o mito guerrilheiro poderiam ser equacionados no filme? Representariam um ideário dos anos 60 a ser resgatado nesses tempos atuais?

    Suíte Habana é criticamente mais explícito ao mostrar o rosto do triste palhaço, que se alegra somente quando junto às crianças. Na seqüência, a menina agita a bandeira cubana, enquanto paralelamente um compatriota viaja a Miami. A tristeza do palhaço volta quando se encara a função. O teor político é evidente ao longo do filme, principalmente por conta da montagem de planos como esses. Por tratar-se da sociedade cubana, porém, essa preocupação, vista de fora da ilha, aflora de modo mais contundente. Mas, se atentarmos bem, Edifício Master (Eduardo Coutinho) ou Central do Brasil (Walter Salles), por exemplo, também registrariam frustações, falta de perspectivas e pobreza do povo brasileiro - sem que aí os críticos vissem um poderoso libelo contra o sistema político brasileiro.

   Produzido, naturalmente, pelo poder estatal cubano, Suíte Habana demonstra um apurado cuidado técnico, na composição dos quadros, no desenho sonoro, na montagem etc., acentuando o compasso desse painel de ''naturezas vivas'', mas expostas como se sufocadas por redoma. Mas o próprio filme parece, também, formalmente sufocado por essa condição. Não deseja, ou não pode, romper com as próprias amarras do audiovisual de qualidade. Dá harmonia ao desarmonioso daquelas vidas amargas; usa trilha musical um tanto previsível. O que incomoda os realizadores lá está, mas a narrativa não ousa desmontar o próprio cinema com seus artifícios. As ondas a castigar o litoral de Havana parecem indicar o desejo de ruptura que poderia ter sacudido outros momentos da obra.

Firmino Holanda é professor da UFC

(© NoOlhar.com.br)


Cineme-se

A 14ª edição do Cine Ceará tem início hoje, em solenidade só para convidados, com exibição do filme Suíte Habana, dirigido pelo cubano Fernando Pérez. A programação de vídeos, curtas e longas-metragens das mostras competitiva e paralela começa amanhã, prosseguindo até o dia 28. Homenageado, o cineasta Walter Salles garantiu presença

Ethel de Paula
da Redação

   Fernando Pérez, considerado o principal cineasta cubano da atualidade, já desembarcou em Fortaleza. Walter Salles, um dos principais realizadores brasileiros, chega hoje e, como homenageado, protagoniza uma mostra inédita no Brasil em torno de sua premiada filmografia, além de receber o troféu Eusélio Oliveira e conversar com público e crítica. O XIV Cine Ceará - Festival Nacional de Cinema e Vídeo já está no ar. Hoje, às 21 horas, o premiado Suíte Habana, de Pérez, abre o evento, numa noite só para convidados. De amanhã a terça-feira é para todos os credenciados. Estes assistirão a cinco longas-metragens e 28 curtas selecionados, sendo 14 em vídeo e 14 em película. Para melhor digerí-los, debates abertos nos dias seguintes às exibições, um cara-a-cara com os realizadores.

   Nas paralelas, biscoitos finos. A mostra Bu¤uel Mexicano traz ao Espaço Unibanco, no Centro Dragão do Mar, cinco dos trabalhos do polêmico e contestador cineasta espanhol, pai do surrealismo no cinema. Ele à tarde, Salles à noite, em uma retrospectiva que vai de A Grande Arte (1991) a Diários de Motocicleta (2004).

   Durante a 14ª edição do Cine Ceará, sopram ainda ventos do Norte na esteira da mostra Um Amazonas, que reúne curtas de um minuto produzidos entre 2002 e 2003 no estado do Amazonas. Em destaque, outras duas boas novas: a mostra Sertão, Imagens e Movimento, feita de sete curtas e médias-metragens com temática rural, que depois de passar por Fortaleza viaja até os assentamentos Santa Bárbara, em Caucaia, e Caraíbas, em Quixeramobim; e a agora competitiva mostra Olhar do Ceará, onde deságuam trabalhos realizados no Estado, mas que não foram selecionados para a competição oficial - o prêmio, em serviços, vem da Casa de Cinema, do Rio Grande do Sul. E se a noite de abertura cresce com o mais novo trabalho do cubano Fernando Pérez, exibido pela primeira vez no Brasil, a de encerramento, dia 29, reserva outro filme inédito em circuito nacional: Araguaia - A Conspiração do Silêncio traz à cidade o diretor Ronaldo Duque. Isso e mais a prata da casa, em exibição especial: Borracha para a Vitória, do cearense Wolney Oliveira.

   Para chegar mais longe, atingindo públicos específicos, o XIV Cine Ceará aposta novamente nas mostras Cinema nos Bairros, que percorre periferias locais; Melhor Idade, voltada ao público idoso; O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece, dedicada às crianças; e Cine Ceará no Interior, organizada no segundo semestre do ano a fim de levar filmes premiados para municípios cearenses. Este ano, a TV Ceará também contribui com a democratização do evento, exibindo, de quarta a domingo, sempre a partir de 23h30min, filmes e vídeos selecionados.

OS LONGAS CONCORRENTES


Dom Hélder Câmara - O Santo Rebelde, de Érica Bauer (DF)
Lost Zweig, de Sylvio Back (RJ)
Noite de São João, de Sérgio Silva (RS)
O Risco - Lúcio Costa e a Utopia Moderna, de Geraldo Motta Filho (SP)
O Quinze, Jurandir Oliveira (RJ)

OS CURTAS CONCORRENTES


EM FILME
Ópera Curta, de Marcelo Laffitte (RJ)
O Curupira, de Humberto Avelar (RJ)
Filé com Fritas, de Murilo Santos (MA)
Infinitamente Maio, de Marcos Jorge (PR)
A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante (PE)
Transubstancial, de Torquato Joel (PB)
A Moça que dançou depois de morta, de Ítalo Cajueiro (DF)
Formigas, de Verônica Guedes (CE)
A Solidão dos dias difíceis, de Sandra Kraucher e Eduardo Ramos (CE)
Riso das Flores, de Karla Holanda (CE)
Hansen Bahia, de Joel Almeida (BA)
Imensidade, de Amílcar M. Claro (SP)
Os Fiéis, de Danilo Solferini (SP)
A Lata, de Leopoldo Nunes (SP)

EM VÍDEO
O Número, de Beto Bertagna (RO)
O Violento mundo dos animais, de Thiago Daniel (CE)
Esmola, de Tony Costa (CE)
Maternidade Escola (ou Fortaleza Terra da Luz), de Pablo Assumpção (CE)
O Menino e o Azul, de Ives Albuquerque e Michelline Helena (CE)
George My Darling - Uma carta aberta ao Presidente Bush, de Emílio Galo (RJ)
No Ritmo da Raça, de Paulo César Soares (SP)
O Futuro do Brasil, de Daniel Veloso (MG)
Uma Certa Noite Vazia, de Marcelo Mugnol (RS)
Bom dia, Maria de Nazaré!, de Bertrand Lira (PB)
Quase Diretor, de Adriano Lírio (RJ)
Desirella, de Carlos Eduardo Nogueira (SP)
American Movie, de Guilherme Reis (MG)
Enquadros, de Ivo Lopes Araújo (CE)

CREDENCIAMENTO

O credenciamento para o festival continua a ser feito, até sexta-feira, em 13 pontos diferentes. Os ingressos para a mostra competitiva são trocados por um quilo de alimento não-perecível. Entre os postos de credenciamento, Casa Amarela Eusélio Oliveira; três unidades do Sesc/Ceará; portarias dos jornais O POVO e Diário do Nordeste; Centro Cultural Banco do Nordeste; Espaço Unibanco Dragão do Mar; quatro agências da Coelce; e Universidade Estadual do Ceará/Campus do Itaperi.

(© NoOlhar.com.br)


Cuba profunda

A convite do Vida & Arte, o cineasta Marcus Moura analisa a obra de Fernando Perez, cineasta cubano diretor de Suíte Habana

Marcus Moura
Especial para O POVO

   Fernando Perez é um cidadão cubano de 50 e poucos anos que faz filmes. Mora em Havana, é magro, estatura mediana, branco agalegado, culto, simples e tranqüilo. Realizou vários documentários para El Noticiero do ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Industria Audiovisual) antes de tornar-se diretor de ficção em 1987 com Clandestinos, que conta a luta de jovens idealistas que faziam parte da guerrilha urbana antes do triunfo da revolução. Foi nessa época que nos conhecemos. Eu, jovem aluno de cinema na EICTV, ele, jovem professor de direção. Nos primeiros anos da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio haviam muitos professores medalhões de todas as partes do mundo e aparece, quase sem ser notado e bastante discreto, como é seu estilo, o até então desconhecido cineasta.

   Não passou muito tempo para ser considerado entre nós um dos melhores professores e seu filme, que teve algumas acusações de render-se à dramarturgia inimiga, leia-se norte-americana, foi muito bem recebido por boa parte dos alunos, principalmente aqueles mais abertos e que não estavam presos a nenhuma corrente estética ou ideológica (ainda existiam essas coisas). Já era possível perceber que ele poderia tornar-se, como tornou-se, o mais importante cineasta cubano da atualidade e um dos mais importantes da América Latina. O cinema cubano sempre teve bons cineastas; Santiago Alvarez, Julio Garcia Espinosa, Humberto Solas e o mais conhecido da turma que de certa forma criou a cinematografia cubana, Tomás Gutierrez Alea (Memórias do Subdesenvolvimento - entre os filmes preferidos de Walter Salles e Glauber Rocha, Morango e Chocolate e Guantanamera). Na seqüência, veio a geração de Fernando com Juan Carlos Tabio, Daniel Diaz Torres, Gerardo Ghijona e mais recentemente Arturo Soto e Juan Carlos Cremata.

   Os filmes seguintes de Fernando confirmaram sua competência nesse estranho ofício de fazer mundos e vidas. Hello, Hemingway narra com sensibilidade, simplicidade e poesia os sonhos de uma menina moça de periferia que vive na vizinhança do famoso escritor (ele viveu cerca de 20 anos em Cuba). Depois, realiza Madasgacar, que é seu filme mais denso e que reflete o difícil momento por que passava seu país; o chamado período especial, decretado logo após o fim da União Soviética e que caracterizou-se pela escassez de alimentos, produtos, idéias e saídas para uma situação que parecia insustentável. Há uma acentuada diferença estética e narrativa com seu filme anterior. Ele continua mudando. La vida és Silvar (A Vida é Assoviar) é um acercamento mais fantasioso à realidade, beira ao felliniano em certos momentos. Conta a trajetória de dois órfãos que foram separados na infância e marcados pelo destino a encontrarem-se numa data, hora e local dentro de alguns anos. No caminho, a Havana misteriosa, paradoxal e atemporal com sua triste alegria e sua feia beleza.


   A Havana do século XXI (tão igual e tão diferente da do séc. XX ou XIX) vista e contada sem palavras e utilizando a técnica e estilo do documentário em seu novo filme, Suíte Habana, é um cidade essencialmente humana, com tudo de podre e sublime que isso pode significar (ver crítica). Os riscos e certezas que esse conceito pode trazer à narrativa e à estética de uma arte que nos tempos atuais tem como características principais a standartização, o excesso de velocidade (que é pra não dar tempo de pensar) e a besteirolização não incomodam o diretor, muito pelo contrário, parecem estimular seu olhar. O filme conta, sem diálogos ou textos narrados - apenas com o auxílio da música - histórias simples de pessoas simples que vivem em Havana. Os dramas e conflitos que aparentemente fazem parte apenas da vida e do cotidiano dos personagens escolhidos na realidade expressam toda uma situação do que é viver em Havana nesse início de milênio, depois de tanta coisa que aconteceu na ilha; Fidel, Che, Camilo, revolução, mísseis de Outubro, baía dos porcos, bloqueio americano, relação com os soviéticos, os cubanos de Miami, as guerras na África, a quebra do bloco socialista, o período especial, a entrada do turismo e dos dólares etc, etc.

   O filme foi o ganhador do último festival do cinema latino-americano em Havana e muito bem recebido por público e crítica. De novo, ele muda. Corre riscos, não o risco do espalhafato espetacular que tanto seduz a maioria dos cineastas. Corre o risco de ser simples, de ser afetuoso, de não ter medo do melodrama ou da fantasia, de não seguir as regras, de seguir as regras, de não escolher dramas e personagens históricos ou importantes, enfim, o risco de caminhar na corda bamba da criação sem medo, com distinção, maestria, elegância e honestidade. Fernando Perez é uma daquelas raras pessoas que fazem uma interseção entre ser bom tanto na obra como na vida. A vaidade, a afetação e a grosseria são palavras que parecem não existir. Ele é daqueles caras tipo gente boa, tão gente boa que nem parece cineasta.

Marcus Moura é cineasta e professor

(© NoOlhar.com.br)


Os cearenses no festival

Oito produções cearenses - todas em curta-metragem - participam da mostra competitiva do XIV Cine Ceará, que começa no dia 23

   Na mostra competitiva do XIV Cine Ceará - Festival Nacional de Cinema e Vídeo, que começa na próxima quarta-feira, não há nenhum longa-metragem cearense. Mas a participação dos realizadores do Estado está garantida com oito curta-metragens que concorrem nas categorias película e vídeo. Detalhe: no formato 35mm, todos os três curtas cearenses inscritos foram selecionados pela Comissão Julgadora do festival, formada pelo cineasta Armando Praça, pela jornalista Aurora Miranda Leão e pelo produtor Tito Ameijeiras. São as ficções: Riso das Flores, de Karla Holanda; A Solidão dos Dias Difíceis, de Sandra Kraucher e Eduardo Ramos; e Formigas, de Verônica Guedes.

   Os filmes serão exibidos no Cine São Luiz, durante o festival que acontece de 23 a 29 de junho. Além de prêmios em dinheiro e serviços ainda a serem definidos, os curtas concorrem ao Troféu Eusélio Oliveira nas categorias Melhor Vídeo e Filme, Direção, Fotografia, Edição, Roteiro, Animação, Trilha Sonora Original, Direção de Arte, Ator e Atriz.

   Sob a direção de Karla Holanda, o curta Riso das Flores conta em nove minutos a história de Risoleta (interpretada pela atriz veterana cearense Carla Peixoto) que recorda cenas de infância. ''É uma personagem que tem constantes lembranças do passado. A criança rememorada vê seu futuro projetado. Como se a vida da velha hoje fosse um reflexo do que ela era quando criança'', explica Karla. A diretora conversou com o Vida & Arte por telefone de São Paulo, onde faz mestrado em Cinema e Vídeo pela Unicamp. ''O projeto do curta foi desenvolvido em 2002 durante um curso de dramaturgia com Joaquim Assis, no Instituto Dragão do Mar. Depois inscrevi no Projeto Petrobrás 2003 e ganhei R$ 50 mil pra começar a rodar'', comenta Karla, que filmou o curta em apenas quatro dias. A fotografia em tons sombrios e o uso do som ambiente realça a solidão da personagem.

   Karla já participou de edições anteriores do festival. No ano passado, seu curta Vestígio foi exibido na Mostra Olhar do Ceará e ganhou o prêmio de melhor documentário no Festival de Santa Maria (RS). ''Diferente do Vestígio, que era um documentário dramatizado, o Riso das Flores tem narrativa mais densa'', acrescenta.

   Já o curta A Solidão dos Dias Difíceis, de Sandra Kraucher e Eduardo Ramos, parte do universo dos autistas para narrar a trajetória de Hilda (Carol Machado) que trabalha numa farmácia. Diante de uma situação inusitada, a personagem se confronta com a morte. ''A idéia desse curta vem desde um documentário que fiz sobre adolescentes especiais chamado Nosso Olhar. A gente queria criar uma ficção sobre alguém que visse o mundo de forma especial'', comenta Kraucher, que filmou a produção em Maranguape por dois dias. Apesar de ainda não ter sido premiado, o curta de 17 minutos já participou de sete festivais no ano passado, entre eles o Festival de Gramado e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

   Adaptado do conto de Lygia Fagundes Telles, Formigas, de Verônica Guedes, conta a história de duas universitárias que ganham um caixote contendo o esqueleto de um anão. Na pensão onde moram, formigas aparecem à noite para montar os ossos. ''É uma adaptação livre. Mantive as protagonistas e inclui mais uma personagem: a empregada Tigrela. Também adicionei uma história paralela que explica o relacionamento afetivo delas. Mandei o roteiro pra Lygia, ela aprovou e comprei os direitos autorais do conto para filmar o curta'', comenta Verônica. Rodado em digital e transferido para 35mm, o curta de 18 minutos foi concluído no final do ano passado. Verônica está em Campinas para filmar o documentário sobre o compositor Carlos Gomes.

(© NoOlhar.com.br)

 

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