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Gal repisa folhas secas em show retrô

05-06-2008

 

Bom repertório é prejudicado pelo sax, em arranjos tão bregas como os cenários de Bia Lessa

   Nada do que foi será, mas ainda há uma força estranha que leva Gal Costa a cantar. Um simples passar de olhos no roteiro era de entusiasmar os mais incrédulos, aqueles que já desistiram de esperar dela arroubos de ousadia.

   Grandes canções, alguns clássicos irretocáveis, jóias escondidas. Que seria retrô todo mundo sabia. A questão era o que iria resultar daquele repertório. E alguém cantando muito, cantando bem surgiu por detrás da cortina a se levantar, espalhando beleza, a capella, muito bom de se ouvir.

   O início promissor do show Todas as Coisas e Eu, aos poucos, deu lugar a decepções, constrangimentos e equívocos. Mas como pancadas de ondas intermitentes, Gal também fez por merecer créditos dos que a conservam na ala das grandes cantoras. E bota conservadorismo nisso.

   Num segundo movimento, empunhou o violão, para arranhá-lo, como nos velhos tempos, tirando do baú pepitas de Lado B setentistas, como a fusão de Nega Manhosa (Herivelto Martins) com Samba-Rubro Negro (Wilson Baptista/Jorge de Castro) e a linda e incompreendida Três da Madrugada (Torquato Neto/Carlos Pinto). Tomou um baile da letra de Um Favor (Lupicínio Rodrigues), mas livrou-se da trapalhada com um arremate bem-humorado. "Que situação tocar e cantar, hein?", brincou.

   O clima de intimismo e felicidade mudaria repentinamente, com uma mal colocada programação eletrônica em Caribantu (Lenine/Sérgio Natureza), vinheta que abriria um desnecessário bloco de baiões. Uma árvore morta suspensa no teto e uma chuva de folhas secas, juntando-se às do chão, introduzem seqüências constrangedoras de cenários bregas, que fazem alusões redundantes às letras das canções, variando como as estações do ano. Quem está por trás disso é Bia Lessa, que também assina a direção (!).

   Quando Gal canta Camisa Amarela (Ary Barroso), o clima é de primavera, então logo a tal árvore ganha pencas de flores. Fácil adivinhar de qual cor, não?

   Em Ave-Maria no Morro (Herivelto Martins), lamparinas acesas descem do teto no momento em que ela entoa ...E quando o céu escurece/ Elevo a Deus uma prece. O sobe-e-desce das chamas continuaria por Assum Preto (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), provocando risos. Pouco antes, Gal teve de pagar o mico de subir numa minúscula plataforma coberta de folhas e quase caiu dos saltos. Meio desequilibrada, mandou dali, acompanhada só de contrabaixo e de estalar de dedos, um dos momentos mais bonitos do show: o fox Nada além (Custódio Mesquita/Mário Lago).

   Outro grande achado foi o bolero Dama do Cassino (Caetano Veloso), gravado por Ney Matogrosso e Jussara Silveira, que Gal cantou radiante e sinuosa. É certo que nem todas as canções foram interpretadas com o mesmo brilho. Em algumas delas, Gal parecia ligada no piloto automático, esbanjando técnica, deslumbrada com a realeza da própria voz, mas sem entrar na célula da canção. Oh, sim, eu estou tão cansado/ Mas não pra dizer/ Que eu não acredito mais em você: é a contundente Vapor Barato (Jards Macalé/Waly Salomão) que se perde no meio do trajeto. Na Linha do Mar (Paulinho da Viola) foi um desanimador anticlímax. Deu saudade de Clara Nunes.

   Transitar sorrindo pela doída Fim de Caso (Dolores Duran), porém, foi mero detalhe entre os equívocos. Pouco, diante da interferência do sax pastoso de Zé Canuto, culpado por melar os arranjos de boa parte do repertório. Poderia ficar só na flauta como bem o fez em outras. Gal não precisa muito mais do que um bom violão, como provou no bis com Força Estranha (Caetano). Mas Bia Lessa tinha de fazê-la cantar Folhas Secas (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito) pisoteando as próprias. E ela aceitou. (L.L.G.)

(© O Estado de S. Paulo)


SHOW/CRÍTICA

Gal enfrenta a alegria -e a tristeza

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Ela voltou, a grande cantora. Nesse tempo em que andou ameaçando se perder de todas as coisas e de si, a artista Gal Costa, 58, anestesiou também uma série de sentidos: tato, paladar, audição, visão, faro...

   Interrompeu contato com parte de seu público (eram várias as cadeiras vazias na estréia de "Todas as Coisas e Eu", quinta, enquanto lá em casa "Celebridade" quase acabava). Fechou olhos e ouvidos para repertórios, arranjos e modos novos de ser Gal Costa. Hoje, corre com gana atrás do prejuízo, de seis ou sete sentidos.

   O resultado é um espetáculo todo errado, todo certo. Um acerto interrompe um erro que substitui um acerto que se muda num erro. Zune um código morse nervoso. A grande cantora se despe assustada, mas viva, muito viva.

   Fotografa o próprio medo quando, ao cantar "Um Favor", de Lupicinio Rodrigues (que desde 77 é dela, muito dela), erra a letra feito uma colegial, cantora imatura em primeiro show. Estava ao violão ex-abandonado; pelada, se desculpa à platéia: "Que situação cantar e tocar, né?".

   Tem a seu favor um roteiro que enfrenta um ponto nevrálgico de sua história recente: o ruído entre alegria e tristeza mal localizadas -equívoco central do CD (todo errado) que deu origem ao show.

   Agora, começa o show à capela, com "Alguém Cantando" (Caetano Veloso, 77), tornando mais aguda (e bela) a melancolia inerente à canção. Revela que a Bahia também é triste, público segredo.

   Pelo começo canta a carta de suicídio "Três da Madrugada" (Torquato Neto e Carlos Pinto, 73). Captura todo o desespero do poeta maldito; acerta. Pelo final avança uma hora no tempo e festeja o "galo cantou às quatro da manhã" de "Na Linha do Mar" (Paulinho da Viola, 73). Faz sambinha alegre, ignorando que "vou-me embora desse mundo de ilusão" também é suicídio; erra.

   Acerta: canta a brejeira "Imbalança" (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 52), ri e sorri. Erra: canta a fatalista "Fim de Caso" (Dolores Duran, 59), ri e sorri. Tenta colocar a alegria em seu devido lugar, na pedra fundadora da Bahia "Alegria" (Assis Valente, 37). Não consegue ser tão alegre como a letra queria; acerta em cheio, errando. Nua.

  Ao revisitar o mais fino de sua obra, veste-se da capa transparente da grossa melancolia. Nessa noite "Um Favor", "Assum Preto" (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 50, dela desde 71), "Vapor Barato" (Jards Macalé e Waly Salomão, 71) e "Força Estranha" (Caetano, 78, de Roberto Carlos e dela desde então) são as coisas mais lindas que já existiram.

   São tristes, tristes, tristíssimas. Ostentam o semblante sério da maturidade, não o riso de Alice da juventude. Obrigado por ter voltado, grande cantora.

   Como é difícil se despir, a mulher ainda se protege no artifício, no show que soluça. Os sambas-canção sabotam a fluência; um tosco montinho em que sobe para "Nada Além" (Custódio Mesquita e Mário Lago, 38, dela desde já) ameaça literalmente derrubá-la.

   A cenografia de Bia Lessa entra em colapso no clímax de "Vapor Barato" -velas sobem e descem histericamente, inconformadas com o que está acontecendo: o reencontro da artista consigo. Nos uivos finais de sua canção-mito, a expressão se convulsiona e retorce; Gal se curva, vira loba, bicho, fera ferida. Esquece de temer a perda da beleza, escancara os cabelos brancos na fronte da artista.

   Ao final, subiu feito onça uma montanha, não o telhado de gata de 93. A gente não se satisfaz, quer sempre mais, fica com vontade de ouvir discos e shows feitos só de vapores baratos. Não podemos exigir-lhe isso, mas ela já usa quatro ou cinco sentidos em prol da causa. Até amanhã, Gal.

Todas as Coisas e Eu
   
Artista: Gal Costa
Onde: DirecTV Music Hall (av. dos Jamaris, 213, tel. 0/xx/11/ 6846-6040)
Quando: hoje, às 22h, e amanhã, às 20h
Quanto: R$ 40 a R$ 80

(© Folha de S. Paulo)

 

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