Notícias
Zé Lins do Rego, o escritor e o homem

05-06-2008

José Lins do Rego

'Bangüê', romance que deu rumo e caráter ao ciclo da cana-de-açúcar, está fazendo 70 anos

ALUÍZIO FALCÃO
Especial para o Estado

   Há exatamente 70 anos foi lançado Bangüê, de José Lins do Rego.

   Embora sendo o terceiro numa série de seis, este romance deu rumo e caráter ao que se chamou de "Ciclo da cana-de-açúcar" na obra do grande escritor paraibano. O ciclo teve um falso remate em 1936, com o romance Usina, mas viria a fechar-se mesmo no ano de 1943, com Fogo Morto, sua obra-prima.

   Bangüê, entretanto, firmou o tom desta saga incomparável na literatura brasileira, que usou como pano de fundo a decadência da aristocracia canavieira do Nordeste. Em Menino de Engenho e Doidinho o escritor ainda ensaiava o tema, dando tratamento ficcional às memórias de infância. O terceiro romance fixou de vez, em 1934, as tintas do cenário em que se desenvolveria o enredo cíclico.

   José Lins do Rego pertenceu a um quarteto de ouro completado por Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Não teve a popularidade de Jorge, nem a escrita ímpar de Graciliano, nem obviamente a singularidade de Rachel, única mulher escritora no Brasil dos anos 30. O que teve ele de específico e superior aos seus companheiros?

   Teve uma capacidade incomum de transpor a oralidade para o texto ficcional.

  arrativas e diálogos, embora movidos pela imaginação desmedida, chegaram em seus livros com uma verdade jamais alcançada por qualquer outro romancista brasileiro. Os grandes críticos da época exaltaram esta peculiaridade.

   Agrippino Griecco escreveu que os seus personagens falavam "como homens e não como heróis de romance", dentro de um estilo palestrado, nunca discursivo. Fechando Bangüê, disse ele, ficava-se com a impressão de ter ouvido a palavra de quem "melhor conversa por escrito no Brasil". Carpeaux afirmou que o romancista deu o próprio sangue à sua obra, enchendo-a com o sopro de uma personalidade visceral e arrebatada. Antonio Candido e Tristão de Athayde engrandeceram a mestria na composição de personagens. O rigoroso lingüista Antenor Nascentes chegou a elogiar até mesmo "solecismos do nosso falar comum" usados por Lins do Rego. Argumentava que vocábulos peregrinos e pronomes à lusitana poderiam tolher o fluxo espontâneo de sua linguagem.

   Naquele tempo, críticos tratavam autores de modo formal: "o soberbo talento do sr. José Lins do Rego etc. etc."... Era "sr." para cá e para lá, mesmo quando se destratava o autor. Nós, leitores, simplesmente o chamávamos de "Zé Lins", como se fosse um íntimo. E de certo modo era mesmo, porque em seus romances ele expunha, quase sem disfarce, todas as particularidades de si mesmo e de sua família rural.

   Decorridos tantos anos, ainda folheamos, com a emoção de antigamente, aqueles relatos de um período social praticamente encerrado. Reabrindo o Bangüê ou qualquer outro do ciclo, podemos caminhar pelas terras do Engenho Santa Rosa, rever suas estradas ladeadas por mulungús, cajazeiras, paus-d'Arcos. Contemplamos, extasiados, os partidos de cana acamando na várzea do Paraíba. O cheiro dos bogaris e o canto estalado de canários mexem com os nossos sentidos e sentimentos. E vão ecoando na memória vozes de personagens indeléveis como Vitorino Carneiro da Cunha, mestre José Amaro, coronel José Paulino, moleque Ricardo, Seu Lula de Holanda.

   O homem - A obra cresce quando se conhece o criador, caso tenha ele uma personalidade especial. Já foi costume a publicação de perfis ou episódios vividos pelos romancistas, exatamente como se faz hoje com as chamadas celebridades eleitas pela mídia. Otto Maria Carpeaux deixou algumas pistas para recomposição da figura humana de Zé Lins. No prefácio de Fogo Morto lembrou seus gracejos rabelaisianos em voz alta e barulhenta, súbitas indignações, disparates, manias de doenças, olhos muitos móveis por trás dos óculos. E há uma frase chave: "É homem de comida boa e farta, das moças bonitas, do futebol e do povo."

   Junte-se a essa descrição dois episódios em que o escritor paraibano atuou como uma espécie de personagem de si mesmo. Ambos aconteceram no Rio dos anos 30 e 40. No primeiro, Zé Lins estava a ouvir o comentário de um ricaço amigo, que elogiava o comportamento de certa grã-fina que oferecera, na véspera, um jantar no jardim de sua casa. O amigo não elogiava propriamente o jantar, mas o decidido gesto da anfitriã, expulsando aos empurrões um mendigo que se aproximara das grades do jardim em festa. "Quase derrubou o importuno", comentou, "soube zelar por todos nós". Zé Lins ouviu tudo atentamente e pediu nome e telefone da senhora para transmitir-lhe mais louvores. O amigo prontamente forneceu, imaginando a alegria de sua dama, ouvindo cumprimentos de um famoso escritor.

   Dia seguinte, Zé Lins cumpriu o prometido. "Alô, eu queria falar com madame X." Veio a mulher e o escritor começou imediatamente a louvar-lhe o gesto de enxotar o miserável que ousara perturbar a paz dos seus convidados. "É bom saber que ainda existem anfitriãs, a senhora é um exemplo!" A cada elogio, e foram muitos, ela perguntava quem estava ao telefone. Mas Zé Lins não se identificava, emendando um elogio com outro. "A senhora não imagina o quanto apreciei a sua conduta!" "Mas quem está falando?" - insistia a mulher. E Zé Lins, antes de desligar: "É Satanás, minha senhora, é Satanás!"...

   O segundo episódio ilustra o jeito expansivo do romancista no convívio social. Foi na Cinelândia carioca, onde outrora o Rio chique se reunia em bares com cadeiras na calçada ou desfilava no passeio público. Rachel de Queiroz estava sentada num bar e Zé Lins de pé na calçada, do outro lado da rua. Entre os dois, muita gente a passear. O escritor avistou a colega e de lá berrou, com toda a força do sotaque paraibano: "Rachel, minha nêga, aconteceu uma desgraça!" E Rachel, do outro lado, com a melodia inconfundível da fala cearense: "O que foi que houve, homem de Deus?" "Uma desgraça, criatura!", repetiu ele, diante da numerosa platéia em silêncio ansioso. Rachel: "Desgraça com ela ou com você?" "Comigo, Rachel!" "Mas o que aconteceu, Zé Lins?" E o escritor, dramaticamente: "Broxei!!!" Senhoras se benzeram, homens gargalharam. Assim era o Rio, assim era José Lins do Rego.

   Não há escritor com personalidade mais forte no universo das nossas letras, assim como não há personagens que se possam igualar ao doido Vitorino Carneiro da Cunha, um Quixote redivivo na várzea paraibana. Cavalgava sua égua esquálida, ouvia galhofas da meninada, sofria agressões brutais. E sempre desafiando os grandes, em defesa dos pequenos. Zé Lins, numa entrevista célebre, revelou que ele foi sua criatura predileta: "O Capitão Vitorino é hoje o homem com que conto. Muito podem os críticos contra o literato José Lins do Rego. Contra Vitorino Carneiro da Cunha serão como as moscas que lhe atormentavam a sua pobre montaria magra."

   O criador de Vitorino viveu intensamente uma curta existência de 56 anos.

   Não se expressou somente na ficção. Produziu ensaios, brilhantes e pouco divulgados, que formam uma obra à parte, merecedora de toda consideração.

   Escreveu páginas admiráveis sobre o seu ofício e outras tantas sobre poesia, cinema, teatro, futebol, música e até política. Tudo na mesma linguagem coloquial dos enredos que nos embalaram a mocidade.

   José Lins do Rego foi o grande romancista de uma geração que teve a leitura como hábito de todos os dias. Agora, suas estórias canavieiras aparecem de raro em raro, nas adaptações para a tevê ou como pontos de estudo em vestibulares, logo esquecidos. Os seus engenhos de sonho não botam mais.

  Estão de fogo morto.

(© O Estado de S. Paulo)

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia