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Mestres do conserto de sanfona

05-06-2008

Sanfonas e sanfoneiros

 

No interior do Estado, humildes ex-acordeonistas vivem dedicados apenas à manutenção de um instrumento difícil de ser tocado e mais ainda de ser afinado

MARCOS TOLEDO

   Período junino, tempo de forró, de sanfoneiro. Tempo de tocador com sua sanfona afinada, pronta para encarar noites e dias animando todo tipo de festeiros doidos por um arrasta-pé. O que pouca gente não pára para pensar é que, por trás de cada bom sanfoneiro, há sempre em especialista em deixar seu instrumento pronto para a maratona de forrobodó.

   Os afinadores ou consertadores são os luthiers da sanfona, capazes de montar, desmontar e até fabricar peças ou o próprio instrumento. Pode parecer incrível, mas, num País onde o acordeom (ou acordeão, denominação mais universal) tem uma grande tradição – do Nordeste como um todo, passando pelo pantanal e pela capital paulista até os pampas –, não existem mais fábricas. A manutenção, em geral, dá-se com o reaproveitamento de sucata, um trabalho difícil e realizado por verdadeiros artesãos.

   Em Pernambuco, há exímios acordeonistas que também executam o serviço de conserto de seu instrumento, a exemplo de Cicinho do Acordeom, Lula do Acordeom e Arlindo dos Oito Baixos, todos residentes no Recife. No entanto, saindo da Capital, o instrumentista que quiser afinar ou consertar sua sanfona pode encontrar alguns raros ex-músicos que hoje vivem humildemente dedicados apenas à manutenção de acordeons.

   Rumo ao interior do Estado, logo após sair do Recife, no município de Jaboatão dos Guararapes, encontra-se a oficina de Pedro do Acordeom. Paraibano de Sapé, Pedro Gomes de Sousa começou a tocar aos 13 anos. Ele conta que, quando sua sanfona – presente do pai, em 1956 – apresentava algum defeito, deslocava-se cerca de 40 km até a vizinha Santa Rita para consertar. E foi o próprio afinador, conhecido como Horácio, que o estimulou a afinar o próprio instrumento.

   Em 1976, Pedro do Acordeom veio morar em Pernambuco onde remontou sua oficina. Num pequeno quarto nos fundos de sua casa, no bairro de Santo Aleixo, ele conserta os mais diversos tipos de acordeons. “Minha oficina é uma bancada (com um pedal e um fole), um teclado em cima e um diapasão de afinação”, resume.

   Entre os meses de abril e setembro, Pedro do Acordeom recebe o maior volume de serviço. De maio a julho, transfere parte de seu equipamento para sua cidade natal e divide o trabalho com seu aprendiz, Antonio Sales, de 19 anos. “Lá, tem mais serviço do que aqui”, explica. Pedro do Acordeom é provavelmente o único afinador de sanfona que tem a oportunidade de preparar um ajudante.

   Além de afinação, o consertador precisa fabricar algumas peças que não encontrar mais para repor, como as carretas reguladoras das correias que sustentam o instrumento no corpo do tocador. As próprias correias também são feitas pelo artesão. “A gente fabrica do jeito que o camarada quer”, garante.

   Outras peças, o afinador encontra na sucata de acordeons inutilizados que mantém organizada nas prateleiras da oficina. “Eu só quero aqui sanfona funcionando. Não funcionou, arranco tudo”, conta. “Tiro o que presta e jogo o resto no lixo”. No ano passado, Pedro chegou a consertar quase 40 instrumentos. O afinador também recupera muitos acordeom para revender.

(© JC Online)


Ofício se confunde com a arte de tocador

   No interior, encontramos três afinadores de sanfona que têm em comum uma característica principal: a humildade. Se já é difícil tocar sanfona – pense em usar o teclado com a mão direita, os botões dos baixo com a esquerda e ainda mexer o fole –, imagine deixar o instrumento em perfeito estado para ser executado.

   José Nilton de Souza, do município de Pombos (Zona da Mata), Antônio ‘Ticaca’ Francisco de Sales, de Gravatá (Agreste), e Napoleão Gouveia de Souza, de Catende (Mata Sul) já foram tocadores, mas há anos se dedicam apenas à afinação. “Nem entendi porque deixei, mas já tinha deixado”, diz Napoleão, 72 anos, o mais experiente, que conserta há mais de 50 anos. Já para o ‘caçula’ Nilton, 48, o motivo foi uma confusão. “Chegaram 11 caras numa festa, tudo armado. Fiquei com medo e deixei de tocar.”

   Seja qual for a razão, pelo que cada um demonstra em suas oficinas, quem saiu ganhando foram os acordeonistas, que têm nestes homens simples a chance de manter seu instrumentos sempre bem afinados.

   Criado em Serra Talhada, Nilton aprendeu a afinar sanfona de ouvido. Em sua oficina no Centro de Pombos, na qual também conserta e vende relógios, atende a clientes da região e da capital. Ex-agricultor, aponta como principal defeito a ferrugem nas notas (pequenas lâminas que ajudam a emitir o som do instrumento).

   Devido ao alto custo do serviço – o básico, a afinação, não sai por menos de R$ 130 –, o movimento ao longo do ano é fraco e só aumenta um pouco antes e depois das festas juninas. Um dos clientes de Nilton deixou um acordeom para consertar dizendo que voltava em 15 dias. Já faz seis anos.

   No Centro de Gravatá, Antonio Ticaca, 65, é mais feliz com seus clientes – músicos como Duda da Passira e acordeonistas dos grupos Brucelose e Capim com Mel – que sempre aparecem para, pelo menos, afinar seus instrumentos. Natural de Jataúba, distrito de Brejo da Madre de Deus, Ticaca começou a consertar sanfonas sozinho até quando foi escolhido como discípulo de mestre Moisés.

   Hoje em dia, o consertador domina a mecânica do instrumento e orgulha-se: “Na sanfona, faço qualquer coisa.” Uma das especialidades de Ticaca é mudar o número de registros de um acordeom (recurso que muda o som do teclado deixando-o mais grave ou agudo, cada sanfona possui de dois a 13 registros).

   O afinador mais afortunado atualmente talvez seja Napoleão. Nascido em Tacaimbó, aprendeu a tocar acordeom com o pai, aos oito anos. Aos nove, tornou-se aprendiz do famoso sanfoneiro e mestre Manoel Maurício. “Aos 15, já estava fazendo servicinho para os outros”, lembra.

   A oficina de Napoleão em Catende, onde vive há 55 anos, é uma viagem no tempo. Ele não se desfaz de quase nada e possui provavelmente o maior depósito de sucata de sanfona do Estado. Mas, o que mais impressiona no trabalho do consertador é sua facilidade para recriar peças e instrumentos.

   De canos de PVC fundidos, faz as teclas brancas, de tampas de televisores antigos faz as teclas pretas. Para fazer as notas, serra e lixa corda de despertador. Com soluções alternativas como estas, montou um oito-baixos todo artesanal. Tanto Napoleão, quanto Nilton e Antonio Ticaca, no entanto, não possuem aprendizes. O ofício deles, que se confunde com a arte pode estar com os dias contados.

(© JC Online)

 

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