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Cordel do Fogo Encantado

05-06-2008

 
 

Da pequena cidade pernambucana de Arcoverde, o Cordel do Fogo Encantado e sua mistura de teatro popular e música injeta novo ânimo na Música Popular Brasileira e mostra que modernidade e tradição podem andar juntas.
Esta entrevista foi feita em Natal, RN no dia 13 de abril 2004

Entrevistadores: Diogo Guanabara, Fernanda Gurgel, João Mauro, Kênia Castro, Luciana Cabral e Rodolfo Torres. Fotos: Kênia Castro e Alexandre Honório
 

Rodolfo Torres– Gostaria que vocês falassem um pouco sobre a gênese do Cordel...

Lirinha
– Cordel do Fogo Encantado não era o nome de um grupo, e sim de um espetáculo que nasceu em Arcoverde, uma cidade que fica no interior de Pernambuco, na divisão da Zona da Mata, Agreste e Sertão, a primeira cidade do sertão pernambucano. A gente não se conhecia antes do Cordel. Eu e Clayton, que está desde o início, tínhamos tido contato apenas por ser uma cidade pequena. Freqüentávamos os mesmos bares e lugares da noite e alguém nos apresentou. Das conversas, nasceu a idéia de um espetáculo de poesia, onde a música servisse como cenário para os temas que estavam sendo desenvolvidos, só que ela começou a ganhar um espaço que não era percebido.

Clayton Barros– A música era um alicerce para as palavras.

Lirinha– A partir daí houve uma descoberta geral dos envolvidos. Eu não compunha, também não era cantor, apenas recitava poesia. Todos os integrantes do Cordel do Fogo Encantado têm uma história semelhante, descobrimos a possibilidade da composição.


Rodolfo Torres– Como foi que vocês se encontraram e resolveram “vamos montar um espetáculo com teatro e com música?”

Clayton Barros
– Foi gradativo. Começamos a nos encontrar e “vamos lá em casa ouvir e fazer um som juntos”. Nos identificamos musical e artisticamente. Começamos a trocar discos, livros e a conversar sobre as coisas que nos influenciavam e percebemos que era a nossa vez de criar algo que representasse a nossa vida e as coisas que nos cercavam em Arcoverde.  


Luciana Cabral– Qual foi a influência de vocês?

Clayton Barros–
Olhamos muito para o que estava ao nosso redor, para os artistas e as manifestações que rolavam, e isso serviu de base para que a gente começasse a criar o nosso próprio estilo, utilizando até a música local – que era nossa, dos artistas de lá – para fundamentar a nossa identidade.

Lirinha– Questionamos muito essa coisa da influência direta. Na verdade, montamos um personagem para responder isso. Por trás, existe uma grande mentira: “ah, fui influenciado pelo samba de coco”, que vou dizer, é o mais direto e o mais óbvio para mim. Viajava muito na música do samba de coco de Arcoverde. Achava uma música revolucionária, louquíssima, uma percussão violenta, agressiva e tal, mas não foi só isso, tem a influência que não assumimos, mas cerca a gente: de rádio e tv e que pode ser considerada uma má influência, mas é uma influência. Quando montamos essa idéia de “o que influenciou a gente”, geralmente coloca um gosto pessoal do que a gente deseja que seja a nossa influência.
Eu acho que nesse ponto existe um segredo em todo o artista porque ele é influenciado pelo seu tempo, inclusive pelo que não curte também.


Luciana Cabral– Seria uma contra–influência, não é?

Lirinha–
Exato. Uma dialética, isso serve de parâmetro para aquilo que você não quer fazer também. Isso é importantíssimo.

Clayton Barros–
Lá em casa, por exemplo, não tinha som. Era um rádio da minha mãe que, por ser muito católica, não gostava muito de música. Isso me levou a buscar amigos que tivessem um som em casa para escutar.

Lirinha–
Antes de ouvirem o som do Cordel do Fogo Encantado, existe uma idéia de seqüência da música de Luis Gonzaga ou algo semelhante a Jackson do Pandeiro.
Kênia Castro– É o que mais se escuta: o som do Cordel do Fogo Encantando é regional.

Clayton Barros–
Como se fosse uma prateleira de coisas do sertão do nordeste unicamente.


Diogo Guanabara– O regional restringe muito, não é?

Lirinha–
Totalmente. Passei dois anos batendo de frente com isso, era um absurdo, você vê: Milton Nascimento fez o disco Tambores de Minas e concorreu ao prêmio Sharp de melhor disco nacional. Vem o Hermeto Pascoal e é considerado nesse prêmio como regional, por ser nordestino. Que absurdo! Você vê discos de Chico Buarque totalmente influenciados pela região do Rio de Janeiro. Discos só de samba ou algo ‘bossa' que ganham conotação nacional. A gente faz um som lá em Pernambuco, aí é regional. Há uma idéia de um Nordeste arcaico, ultrapassado, antigo, conservador, e de um sudeste antenado, futurista, com ligações e aberturas... Isso é uma invenção! Uma invenção que tem amparo do conservadorismo político.

Clayton Barros– Imagine como fica a região Norte. Inclusive, a gente nem faz show lá porque não tem uma demanda contratual. Imagine como ficam as pessoas de lá? Se o Nordeste é tratado dessa forma, imagine o Norte!  


Luciana Cabral– Vocês evitam muito essa questão de rótulos, não é?

Lirinha–
O rótulo é para diferenciar o produto na prateleira de um grande mercado e faz parte da nossa vida, desse sistema capitalista onde a música também é um produto. O rótulo surge naturalmente. 
Rodolfo Torres– Você falou do aspecto regional, quando Chico Buarque faz um som influenciado pela música do Rio de Janeiro e concorre a um prêmio nacional. O som de vocês é uma espécie de afirmação da cultura nordestina?

Lirinha–
Quero a destruição dessa divisão estadual porque acho extremamente frágil essa coisa territorial do tempo das Capitanias Hereditárias. A turma fica “Sou baiano” ou “Sou pernambucano”, e é um mergulho numa situação política. Acredito que a música não se relaciona dessa forma, não vejo a “música pernambucana”, embora as pessoas levantem bandeiras. Não quero levantar bandeira. O nosso primeiro disco é muito “bandeira levantada” porque naquele momento era necessário: o grupo nasceu em Pernambuco e só tinha o movimento “Mangue” e a gente vinha do sertão. O movimento “Mangue” não tocava no sertão, os jornais que se dizem pernambucanos na verdade são da Capital, e eles não noticiavam apresentações de grupos do interior, não têm notícia do que está rolando no interior, ninguém sabe o que está rolando. E se dizia muito “Viva a cultura pernambucana.” Uma grande mentira! Não era a cultura pernambucana, era Recife. Recife vivendo um momento. E saindo de Recife, da Zona da Mata até Petrolina, ninguém sabia absolutamente o que estava acontecendo. E isso sim seria Pernambuco. Então, essa levantada de bandeira naquela época: “trago poeira da terra queimada.”

Clayton Barros–
Era para quebrar esse muro até a Capital, para que as pessoas não olhassem só para o próprio umbigo, fossem para o interior, onde rolou toda a miscigenação do povo e da cultura do Estado, quando foram empurrando os índios e negros com as Entradas e Bandeiras. A partir daí, começou a grande mistura da raça que se concentrou no porto, as informações vêm de lá. Geralmente as que vão do interior para lá só atingem a página policial com a seca ou a subnutrição. É muito difícil ver um artista, um movimento artístico, uma banda ou um grupo de teatro do interior ser mencionado na capital.  


Luciana Cabral– A gente, quando fala de Pernambuco, tem a idéia do “bairrismo pernambucano...

Clayton Barros–
Existe bairrismo no interior também. Até de bairro para bairro, de rua para rua, isso é uma coisa do ser humano.

Lirinha–
Amplifico a idéia para o Nordeste, que seria o interior do país devido à concentração de riqueza no Sudeste. E isso não é culpa do Sudeste. Quando falamos de São Paulo, as pessoas têm orgulho. No grupo, tem dois técnicos de São Paulo e eles têm orgulho de dizer que é a cidade mais potente e forte. Não é porque é São Paulo. É porque é onde tem mais gente, cara! Poderia ser em qualquer outro lugar. Onde tem mais gente, se concentraram as indústrias, a grande mídia e por aí vai...


Diogo Guanabara– E se quiser ser mais bairrista ainda, é só dizer que mais da metade da população é nordestina.

Lirinha–
Aí dizem: o povo de São Paulo é muito frio! Mas o povo de São Paulo é feito pelo povo quente, que vai e fica frio.

Clayton Barros–
Existe uma demanda de pessoas que foram do Nordeste para São Paulo com o intuito de ganhar uma grana e voltar. A cidade agarrou. Você não consegue mais se libertar. É como um vício! O Cordel está morando em São Paulo, buscando cada vez mais fortalecer sua estrutura artística no país, e mandar informação para outros países. Vejo que São Paulo está cada vez mais me agarrando e vou me atrelando à cidade. Cada vez fica mais difícil sair, porque se cria uma identificação com cada lugar. Principalmente o músico, que é um pouco nômade, vive viajando e tem facilidade de se adaptar. Dormir em três cidades em uma semana. Tomar café em Porto Alegre e jantar em Fortaleza no mesmo dia...  


Kênia Castro– A cidade influenciou musicalmente a banda? O segundo CD é um pouco mais misturado, mais urbano...

Lirinha
– As músicas do primeiro disco foram compostas quando todos moravam em Arcoverde; Clayton e Emerson tinham dado umas voltas por Recife e por São Paulo, mas morávamos em Arcoverde. Eu morava há vinte e dois anos lá, nunca tinha saído. Todas as composições poéticas que escrevi naquele disco foram feitas naquele momento.  


Fernanda Gurgel– Vocês são muito cobrados pelos fãs por causa da mudança?

Lirinha–
Pra caralho!

Clayton Barros–
Somos cobrados pelos puristas, as pessoas que acreditam que nós devemos ser guerreiros e sustentadores do pseudo regionalismo. Criticam porque a gente vai descobrindo cada vez mais elementos que estão contidos na gente. Hoje com esse atrito de morar no Sudeste, ter feito turnê na Europa, viajar constantemente, tudo entra na nossa música de uma forma muito direta. São outras coisas pelas quais a gente está lutando.
Emerson Calado–
Uma coisa interessante no segundo disco é que não tivemos a preocupação de ter uma autenticidade com a região da gente, a preocupação era apenas com a música que queríamos fazer, e é um disco muito autêntico. Aí as pessoas cobram muito para que você faça música para quem conhece a região de Pernambuco, para quem é daquela região, ou para as pessoas que são pesquisadoras de música. A nossa intenção não é essa, e sim a de expandir. Você pega um jovem de qualquer outra região e mostra um disco de jovens que vêm do sertão, ele vai ouvir esse disco como se ouve uma banda de Londres ou Nova Iorque. O impacto que a gente quer sentir é esse. O segundo disco começa a abrir essas portas para o Cordel, a possibilidade de alcançar esse público ao usar elementos das bandas que eles costumam ouvir: guitarra, bateria... A música da gente não é composta em cima disso mas esses elementos podem ser introduzidos, porque a gente nunca se fechou.  


Kênia Castro– Como foi o show na Europa?

Lirinha–
Vê que maravilha: na Europa, se perde essa noção regional e as pessoas nos caracterizavam como heavy sound, um som pesado. Há comparações com o punk . Eu disse: “que maravilha, pelo menos uma coisa nova. ”Aqui no Brasil, é quase impossível que isso aconteça, porque tem a palavra “Cordel” que já remete a uma “prisão”. Já escutei coisas do tipo: “vocês não improvisam no palco, pensei que vocês iam improvisar”. É como se nós fossemos um estandarte dos violeiros e repentistas, e na verdade, a gente não tem vontade de ser representante dessa cultura de resgate, até porque a cultura se transforma cotidianamente. Pior que a prisão, é o tal resgate, que muita gente utiliza. O cara encontrava o maracatu e dizia: “vou resgatar aquele som”. Que inocência isso, não é? Inocência ou má fé, porque aquele som existe, não precisa ser resgatado. Deveria trocar a palavra resgate por “eu quero colocar no palco uma dimensão amplificada, que pode ser vendida no mercado”. Aí sim!

Emerson Calado–
Outra concepção que é muito negativa é essa coisa de que a musicalidade necessita de outros elementos para se tornar universal. É justamente o que a gente faz: a gente pega aqueles instrumentos e percebe que o que eles precisam é de você, e não de coisas de fora. É você que põe a sua música nele e leva pra fora e as pessoas comparam com o rock. A gente não fica se comparando ao rock porque o rock é o que a gente faz, só que com outras células e outros instrumentos. É rocha, conteúdo, pegada, isso aí você encontra em qualquer lugar do mundo, até no Oriente, nos tambores orientais que têm a função grave de afinação super–alta, nos tambores japoneses, você sente isso também.
Lirinha–
No primeiro disco, escrevemos: “Antes dos Mouros”, que era uma dica disso porque o Movimento Armorial propagou muito a idéia de que a musicalidade nordestina tem uma influência muito grande moura – os aboios, a viola, a sanfona, os instrumentos de percussão e a rabeca. A forma de construção poética do Cordel tem muito da poesia árabe. Beleza! É real! Daí a gente começou a falar: E antes dos mouros? A gente queria fazer uma música “por favor, dê licença para a gente fazer uma música anterior aos mouros!” O que seria isso? Na verdade, isso é uma alfinetada: “Antes dos mouros/ o som, o som de tudo que passou por lá/ por aqui/ os trovões já batucavam/ vanguardistas batucadas/ o vento já produzia árias de ar e poeira/ o mar nunca atrasará/ o compasso do batuque” porque a música realmente nasceu de uma imitação da natureza. Então o Cordel começou a buscar esse som: “Ah, vamos buscar um som que venha de dentro da gente, do vento... do baião, xote, xaxado, côco”... A intenção não é reproduzir, não é uma música celebrativa. É uma música inventiva, é uma busca disso aí.  


Rodolfo Torres– Como é que foi trabalhar logo de início com um cara como Naná Vasconcelos?

Lirinha–
Naná Vasconcelos quando ouviu a música pela primeira vez, disse para nós: “Eu também sou antes dos mouros”. Acho que isso foi um link.

Clayton Barros–
Naná é o sonoplasta da natureza, não é, cara? Ele traz a natureza dentro dele.

Lirinha–
Ele tirou um instrumento típico da capoeira, o berimbau, e o toca numa orquestra sinfônica.

Emerson Calado–
Todas as pessoas usavam o berimbau somente na capoeira, daí ele começou a usar aquele instrumento como uma base de composição melódica. Ele fala que tirou o instrumento de uma tradição, mas explorou a sua própria música. As pessoas ficam muito preocupadas com essa coisa da pesquisa. Então um bom músico é um bom pesquisador; aquele que sabe ler a partitura, que pega um grupo tradicional se apresentando na rua e escreve as batidas.


Fernanda Gurgel– E o que vocês andam inventado, misturando? Quais as coisas que vocês estão descobrindo por ai? No segundo disco, vocês já misturaram algo que ouviram no metrô...

Lirinha–
A mesma idéia de gravação que a gente teve do aboio, que abre o primeiro disco, que é um aboiador tangendo o gado. O nome da faixa é “A Chegada de Zé do Né na Lagoa de Dentro”. A Lagoa de Dentro é um sítio onde os meus avós nasceram e se criaram, e onde meu pai nasceu... Quando a gente foi para Berlim, estava no metrô gravando as portas abrindo e o som do metrô, quando entrou um cara pedindo esmola e dizendo que o pai e a mãe dele tinham morrido na guerra – em alemão –, ele já era coroa e estava pedindo esmola pelo amor de Deus. A gente gravou e colocou na abertura do segundo disco. As pessoas viram uma imagem de “Ah, o Cordel era sertanejo e abandonou e agora é universal e tal”. É até interessante pensarem assim, mas não era. Era um som, era mais um som! Do mesmo jeito que era o som do “Zé do Né”, era mais um som bonito e instigante.

Emerson Calado–
Isso vem desde Arcoverde: registrar, tentar traduzir da nossa forma o que a gente acha interessante. Então pode ser qualquer região. Pode ser o metrô de Berlim ou pode ser a Lagoa de Dentro.


Fernanda Gurgel– Então vocês não têm preocupação nenhuma de como os fãs vão receber isso, o que eles vão achar, se vão gostar ou não?

Emerson Calado–
Todas as nossas experiências, graças a Deus, têm dado certo. Tem quem curte mais o primeiro disco e menos o segundo, tem quem curte mais o segundo que o primeiro e diz: “o primeiro não tem nada a ver com o show, cara. O primeiro é muito pianinho, vocês largam a mão no show ”. Então cada um tem as suas vantagens.


Lirinha–
Lá em Arcoverde, as pessoas têm um medo terrível da gente colocar guitarra, as pessoas passam pela gente e dizem: “pelo amor de Deus, não botem guitarra!”. Como se isso fosse uma grande traição. Eu compreendo.


Fernanda Gurgel– O público de vocês é muito fiel. Fiquei impressionada quando vi no carnaval de Recife, todos cantavam e sabiam tudo de cor. Acho que é a junção de tudo – o show, o espetáculo, a iluminação, a performance. Isso conquista muito.

Clayton Barros– No primeiro disco, a última faixa foi gravada em Porto Alegre. Foi a nossa primeira aparição em Porto Alegre; não tinha nem a propaganda do nosso nome no show, e mesmo assim, houve uma identificação imediata, quer dizer, não queremos falar apenas para as pessoas de Pernambuco e do Nordeste, temos a intenção de falar para os seres humanos e atingir a emoção e a atenção das pessoas, sejam elas do Brasil, do Nordeste ou de fora.

Emerson Calado–
Essa apresentação em Porto Alegre foi muito interessante, porque a gente se apresentou com o Otto e o Mundo Livre S.A., e aí o Otto com aquele projeto eletrônico, aquele superbalanço de sampler, de baixos, de guitarras, aquela coisa cheia de efeitos, tudo o que existe de mais próximo da música universal feita no Brasil. O Mundo Livre também. Daí sobe a gente com um monte de instrumento enferrujado, fazendo batuque e foi o show mais quente da noite. A gente sentiu mesmo as pessoas se arrepiarem. Até hoje a gente marca agenda na mesma casa, que é uma das melhores casas que tem lá, por causa desse show que a gente fez. Chegamos cheios de trapo e panos, tinha muita estopa de figurino. Hoje em dia, até pelo conforto, a gente deixou isso um pouco de lado.

Lirinha–
Mas o show dos caras foi do caralho. E outra coisa, não é ajeitando, mas a gente só foi porque os caras liberaram a nossa ida no ônibus deles. Super camaradagem. Eles disseram: “vamos todo mundo junto!” A gente foi no ônibus com os caras e também trabalhamos com os técnicos deles.


Rodolfo Torres– Vocês se sentem prisioneiros de um rótulo, defensores de uma cultura arraigada?

Lirinha–
O rótulo é para diferenciar o produto na prateleira do grande mercado do sistema capitalista que vivemos, onde a música assume um sentido de produto. O rótulo surge naturalmente. Acho que as pessoas nutrem uma esperança de que o Cordel seja sempre um guerreiro pronto para brigar pela cultura nordestina, e acho que a gente termina fazendo isso. Mas, sinceramente, não acredito nesse rótulo. Não acredito numa cultura nordestina fechada, sem interação. Não acredito numa cultura que não seja uma cultura universal. Não acredito e não consigo entender. Onde existe ser humano, existe uma comunicação através da música. Lembro de que no início das nossas entrevistas, Luis Gonzaga fazia sempre parte porque ele é de Exu, bem pertinho de Arcoverde. E Jackson do Pandeiro também, que nasceu próximo a Arcoverde, só que na Paraíba. Tinha muito essa coisa de Jackson e Luis Gonzaga. Eu era muito fã do Luis, mas comecei a questionar essa idéia de dizer que o meu hino é: “que braseiro, que fornalha, nem um pé de plantação?”. Imagina toda vez que você for ao campo ouvir: “que braseiro, que fornalha, nem um pé de plantação!” se a gente quer mudar isso, cara? Se a gente quer destruir isso? Se a gente quer que tenha muitos pés de plantação? Se a gente quer que seja irrigado? De repente, se congelou o Nordeste nessa imagem exótica! O que mais magoa de ver é essa coisa do nordestino. Você vê o Lula em vários momentos falar que é retirante, que sofreu. Lula é quase conterrâneo nosso, Garanhuns fica a 80 quilômetros de Arcoverde. Então dizer que é retirante, que sofreu, que batalhou pra caralho, chegar à Presidência da República e ficar submisso, cara. Eu acredito que seja uma institucionalização dessa condição de retirante. Ele ter saído, lutado e através de méritos próprios chegar a Presidente da República e ficar de quatro. Isso é o mais grave.


Rodolfo Torres– Qual a opinião de vocês sobre o Ministério da Cultura, assumido por um músico? E se vocês, por serem pernambucanos e terem essa característica de exaltar a própria cultura, diferentemente de outros Estados, como aqui no Rio Grande do Norte, totalmente apático em termos de apreciação da própria cultura pelo povo – já trabalharam com a possibilidade de depender de grana de um ministro que é também artista e músico?

Lirinha–
Desconfio, pelos lugares que eu passei, que esse seja um discurso universal. As pessoas quando estão num lugar dizem que ninguém se ajuda. Acredito que rolou uma coisa específica em Pernambuco e que Pernambuco desenvolveu uma estrutura para esse movimento. Essa estrutura ultrapassa a parte musical, e entra na produção. Para você ver, Guti é um cara que chegou de Bariri/SP em Recife, foi trabalhar com o Mundo Livre S.A. Hoje faz um festival: o Rec Beat, um dos maiores festivais ao ar livre do Brasil. Paulo André, trabalhava com Chico Science e Nação Zumbi e faz atualmente um dos maiores festivais do país que é o Abril pro Rock. Quer dizer, Recife começou a movimentar uma estrutura de festival, de técnico de som, técnico de luz e bandas. Acredito que teve uma grande influência de Chico Science pela sua força. Agora, eu te falo: é bem perigoso você querer que o Rio Grande do Norte se torne, de repente, um lugar onde valorize a sua cultura em demasia, porque se for coordenada por pessoas mal intencionadas, é muito perigoso. Isso beira o fascismo! Falo isso porque em Pernambuco começou essa coisa de “Viva Pernambuco, viva Pernambuco”, e hoje a política de lá é feita em cima das cores da bandeira, inclusive a força do governador está nesse ponto: “Pernambuco Alto Astral, Pernambuco é o país da música e do som.” Ao mesmo tempo, ele ganha o prêmio de melhor governador do país e nesse final de semana, os grupos de extermínio fizeram mais “festa” do que no Rio de Janeiro. É um Estado que tem problemas seriíssimos e às vezes são maquiados por uma auto–estima que eu não sei até que ponto é positiva. Também digo que todo movimento que se fecha, e que se acha auto–suficiente, começa o fim dele. É o começo do fim. Me preocupo bastante com os pernambucanos se acharem auto–suficientes e realizarem festivais que se fecham só em atrações locais. E sobre Gil, cara, eu sinto muitas dificuldades para falar sobre o Ministério da Cultura porque eu não entendo para que é que serve. Tenho um pequeno conhecimento do que seja o Ministério da Cultura, entendo que é um gerenciamento do dinheiro, não é? Boto muita fé em Gil! E também acredito que vai ter uma hora em que ele se sentirá incapacitado.


Luciana Cabral– Tanto é que ele fez agora no início do mês uma reunião com parlamentares para mudar essa questão da lei Roaunet que centraliza os recursos no Sudeste
.

Lirinha–
E o cinema? O bolo do cinema vai para o Rio e São Paulo enquanto que Pernambuco, com grandes cineastas como Cláudio Assis com Amarelo Manga e Lírio Ferreira com um novo filme, Árido Movie, ficam com uma fatiazinha. Então sinceramente, eu não entendo.

Emerson Calado– A gente está passando por um período muito difícil para o artista com essa coisa da pirataria, da falência das gravadoras e da diminuição de arrecadação. Fica cada vez mais difícil para as bandas que estão iniciando um projeto, fazer um registro e entrar num veículo de informação. Aí quando tem a crise, você poderia recorrer a esse tipo de órgão que lhe ajudaria, daria a grana para você gravar. Nós não temos segurança. Por exemplo: o Côco Raiz de Arcoverde é um grupo que tem risco de existência e se eles derem entrada na lei Rouanet para lançar um disco, provavelmente teriam dificuldades em ser aprovados porque vai um grupo folclórico do Rio Grande do Sul, talvez mais colorido e bonito, com pessoas de pele branca, e sairá esse disco. Acaba funcionando como a escola e a saúde são no Brasil, como várias coisas que poderiam ser nossas. Para mim é mais um órgão como esses. Você paga seu imposto, e você está doente e precisa de médico, vai encarar uma fila enorme para poder ser atendido. É praticamente a mesma coisa. A gente sabe também que não é apenas pelo ministro. A gente sabe que é um processo que o Brasil vem vivendo desde os primeiros tempos. É uma coisa difícil. Fizemos um projeto chamado “Os sertões”, que era para circular o sertão de Pernambuco com apresentações. A mesma quantidade de shows que a gente levou para a Europa e apresenta em São Paulo e no Rio de Janeiro, queríamos tocar em São José do Egito, Petrolina, Salgueiro, nessas cidades. O projeto não foi aprovado. Não é pelo conteúdo, é, talvez, por um direcionamento comercial desse dinheiro. Ou seja, uma coisa que vai trazer retorno de mídia e marketing. Porque ninguém liga para o sertão. O sertão não está na rota turística do Estado. O pessoal acha que não tem o que ver por lá.

Clayton Barros–
Os sítios arqueológicos do sertão estão se esculhambando. A informação antiga da humanidade, do homem de lá está se perdendo. Você vê em Santana do Cariri, no Ceará, no Crato, estão tirando as pedras da Serra do Araripe para fazer piso e parede de casa. Pedras recheadas de fósseis! Existe um descaso muito grande, isso não é novidade para ninguém, é uma coisa que todo mundo sabe.

Lirinha–
Está rolando um fenômeno. Hoje uma das figuras mais importantes num grupo artístico é o captador, cara. Isso é muito louco! Já tem captadores famosos. Captadores que chegam em uma roda de bar, um lugar que só vai músico, só vai artista e ele é ídolo. Respeitadíssimo. De pedir autógrafo mesmo. É o cara que consegue o dinheiro do Ministério da Cultura.

Emerson Calado–
Eu já vi produtor ser mais conhecido do que o próprio artista. Acho que é só em Recife que eu vejo isso! O cara fala o nome da banda e muitas vezes o nome do produtor, porque o produtor trabalha com várias bandas. Por exemplo, produtores que fazem festivais ou produtores que levam o artista para a gravadora. A impressão que tenho é que é uma grande classe operária e aquele cara é o patrão. É a mesma coisa de uma grande empresa. As pessoas trabalham e quando vêem o cara que os contratou, têm uma certa gratidão por ele. Isso é um absurdo! O artista não quer viver nessa situação. Mas acaba tendo que viver porque é aquela situação de apelo: você tem que ficar gravando sua fita demo, mostrando, insistindo para provar sua qualidade sempre. A gente tem uma experiência de distribuição com uma gravadora. Muita gente falava que se a gente lançasse um trabalho, iríamos vender. E vendemos consideravelmente bem porque somos um grupo independente vindo do sertão de Pernambuco e com uma música alternativa. Vender vinte e cinco mil cópias não é uma coisa comum.

Clayton Barros–
Distribuído independente e vendendo em show, cara.

Emerson Calado–
É uma fase que o Brasil está vivendo, de parar um pouco e buscar recursos próprios. Você não tem que apelar para o Estado, para as gravadoras, para nada. Aquela grande parceria, aquela coisa de comunidade. Você faz um show em São Paulo e vão aquelas pessoas que são próximas e aquelas pessoas que chama outras, aquela divulgação do boca-a-boca. Não é divulgação de outdoor. A gente acaba sobrevivendo.


Luciana Cabral– Vocês não experimentam usar a lei Roaunet?

Lirinha–
A gente fez um disco por essas leis de incentivo do Ministério da Cultura. A gente é independente, não tem gravadora desde a origem. O primeiro disco a gente fez do próprio bolso. Não é que a gente tinha o dinheiro, é que a gente fez para pagar depois que vendesse. E vendeu e pagou–se tudo. E o segundo, a gente conseguiu uma lei, um dinheiro da lei de incentivo.
Kênia Castro– Deve ter havido muitos convites de gravadoras depois do primeiro CD, porque foi muito comentado...

Emerson Calado–
Não houve nenhum convite!

Clayton Barros–
As gravadoras têm os mesmos contratos há não sei quantos anos. E os contratos prejudicam o artista nitidamente. Os caras ficam com a obra, é um absurdo. Um trabalho que você leva meses de ensaio, de maturação para compor.


Diogo Guanabara– E vocês se vinculando a uma gravadora, iriam cair no que estávamos falando no início do papo: o rótulo. As gravadoras têm um protótipo de querer adaptar vocês a um estilo...

Lirinha–
Acho que não, cara. As pessoas têm uma ilusão a respeito disso. Tem gravadoras que não mexem no trabalho do artista, que já contratam o artista conscientes disso. O que acontece é que às vezes o artista começa a fazer concessões para atingir um determinado nível de venda nessa gravadora. Porque hoje a gravadora é uma empresa no capitalismo selvagem e o que a empresa mais precisa? Lucro alto e imediato. Tudo o que o Cordel não está atrás! É quase o oposto que queremos. O que a gente quer é estruturar uma carreira. Não vou nem dizer “carreira”, essa palavra é chata. Estruturar um nome, fazer um alicerce firme para a construção de algo duradouro, uma coisa em que a gente consiga desenvolver experiências musicais e poéticas.


Diogo Guanabara– É a diferença entre o conhecido e o reconhecido. O que vocês querem é ser um grupo reconhecido e respeitado.

Lirinha–
A gravadora talvez não trouxesse esse reconhecimento. O que eu estou falando é que fazer música hoje, com as novas mídias e a internet, acaba com o espaço da gravadora.

Clayton Barros–
Mesmo porque você vai a um bom estúdio, tem aquelas caixas, eles botam um som mais límpido e belo possível, um som do caralho! Mas ninguém tem equipamento para ouvir esse disco. Quando você grava um disco em casa, é praticamente a mesma coisa. Ninguém vai ter um equipamento para ouvir o disco, para ouvir todos os detalhes técnicos que você colocou lá, toda a tecnologia que você empenhou no estúdio. Ninguém tem um som de qualidade para ouvir essas coisas. Daí vai se perdendo todo esse caráter tecnológico, essa necessidade de fazer um disco no estúdio tal. O Planet Hemp mesmo já gravou disco em casa, música com um só microfone, todo mundo gritando e é ótimo isso! Todo mundo escuta.


João Mauro– Gostaria que vocês contassem como rolou o convite para participar do comercial da Brahma. Por que o departamento de marketing da Brahma identificou o Cordel com o produto deles? Houve alguma represália dentro da cena pernambucana ou por parte dos fãs em relação à participação na propaganda da TV?

Lirinha– Houve sim. Na verdade, a gente era só acostumado aos elogios e foi até um momento histórico pra gente, pros componentes, porque muitas críticas foram feitas relacionadas a que nós tínhamos nos vendido e tal. A Brahma entrou em contato com a gente, eles sempre falam em nome de uma campanha e a campanha era “A cerveja de todos os carnavais” para ser veiculada no carnaval. E a produção entrou em contato conosco, que nós tínhamos sidos indicados para representar o carnaval de Pernambuco. Daniela Mercury representaria o de Salvador e Dominguinhos da Viradouro, o do Rio de Janeiro. No momento em que eles falaram isso, a gente se sentiu até meio feliz porque o Carnaval de Pernambuco é muito complexo: frevo, caboclinho, maracatu etc. Então a gente ser escolhido para representar esse carnaval é uma grande responsabilidade. Até colocamos no site dizendo que daríamos nossa pequena e modesta contribuição na representação de um dos carnavais mais complexos do mundo. E a gente foi gravar. Tinha dinheiro para fazer isso e era um dinheiro que pra gente era importante na compra de aparelhos técnicos. Então, o que a gente fez? Todo o dinheiro do comercial da Brahma, absolutamente todo, a gente investiu em equipamento. Devolveu, ao meu ver, para o público esse dinheiro porque são equipamentos que melhorarão o espetáculo. Foi uma propaganda extremamente honesta. Honesta no ponto de que foi o Cordel tocando o Cordel, não fomos dublados, não estávamos fazendo um personagem, era o Cordel no palco tocando no nosso cenário. Honesta também porque não se estava fazendo propaganda de um produto, dizendo que esse produto é ótimo”, “experimenta”, essas coisas caramba. Não foi dessa forma. E é uma cerveja gostosa, inclusive umas dezessete dão uma “ lombra” maravilhosa... A gente não fez uma coisa desonesta. Vou te dizer uma coisa extremamente íntima, que acho que talvez não tenha dito nem para os meninos dessa forma: hoje repensaria em fazer outra propaganda, porque entendo que às vezes a cultura de empresas grandiosas como essa trazem uma idéia de “rolo compressor”, de que “não tem jeito”etc. Eu não queria passar essa sensação porque o Cordel foi muito bem tratado, extremamente respeitado e a gente não fez nenhum personagem.

Emerson Calado–
Quando recebemos o convite, fiquei muito impressionado porque a gente teve tanta dificuldade para convencer os pequenos patrocinadores que nós representávamos uma contribuição em venda para uma empresa. Tínhamos grife de roupa que não trabalha mais conosco, tínhamos grife de equipamento de percussão que também nos abandonou. E através de uma pesquisa da Brahma sobre grupos que estavam em evidência, escolheram o Cordel. Quando a gente recebeu a notícia, ficamos: “pô, a Ambev apostando no Cordel do Fogo Encantado.” Eu recebi muito bem a notícia, não acho que foi uma coisa negativa de forma alguma. Tomara que eles façam isso com outras pessoas, que eles peguem mais grupos como nós, alternativos, e apostem que essas pessoas vão representar uma linguagem para um determinado grupo de jovens que consomem cerveja, porque o nosso consome pra caramba.

Clayton Barros–
O Marcelo D2 deve estar recebendo críticas por causa da Coca-Cola. A gente esperava também, lógico, pois cada atitude tem no mínimo dois lados, duas reações, principalmente porque nossa banda tem um público diversificado. A gente já esperava que algumas pessoas não gostassem da nossa participação no comercial. Mas não estávamos caçando níquel! O rádio, o jornal, a TV, são necessários para nós, artistas, para que a gente consiga aparecer. Eu vi alguns e–mails que diziam “tomara que vocês não apareçam no Faustão!”.
Tentam nos colocar numa redoma, intocados, sem evolução.

Emerson Calado–
E se nós fossemos ao Faustão, mostrar o trabalho da forma que ele é para que outras pessoas achassem interessante? Eu acharia ótimo ligar a televisão num dia de domingo e ver uma banda de hardcore que eu gosto, acharia maravilhoso!

Lirinha–
Na mesma semana da nossa apresentação no Jô Soares, a gente tinha feito o “Ensaio” da TV Cultura. E eu, que em Arcoverde acompanhava o Ensaio da TV Cultura, considero que foi o maior programa que fiz na minha vida! Até estava nervoso no dia e tal... já no Jô Soares foi mais uma entrevista, extremamente superficial e o mais impressionante foi como as pessoas na rua só falavam do programa do Jô Soares. Ninguém tinha visto o Ensaio da TV Cultura! Então, de repente, a gente é vítima do poder dessa mídia. Para mim não foi uma coisa tão importante fazer um comercial da Brahma, foi normal fazer, mas para as pessoas foi algo grandioso.  


Luciana Cabral– Superestimando...

Lirinha–
Pois é! E acho que é mérito da propaganda. Queria muito fazer propaganda da Seda Colomy. Talvez se fizesse essa propaganda, não tivesse essa repercussão da Brahma.


Diogo Guanabara– O que vocês estão ouvindo? Não sei se vocês já começaram o trabalho para o terceiro disco, mas queria saber quais são as principais influências para esse trabalho? Porque o primeiro foi mais “regional”, o segundo foi uma coisa mais cosmopolita e para o terceiro, vocês vão continuar nessa linha?

Lirinha–
Esse terceiro disco será uma nova história. O primeiro foi “Cordel do Fogo Encantado”, o segundo foi “O palhaço do circo sem futuro” e o terceiro já tem uma nova história, só que a gente não vai falar agora porque a gente só fala sobre um próximo espetáculo quando “O palhaço do circo sem futuro” fechar o ciclo. Porque o palhaço ainda vive, ele está aqui presente. Mas ele já está sendo feito, uma história menos tempestuosa, menos aflitiva do que foi esse segundo disco. Aflitiva no sentido conceitual. O segundo disco é trágico, tem essa idéia de tragédia, o encarte é escuro, tudo é escuro.

Clayton Barros–
Eu estava numa fase terrível. Tinha perdido minha mãe, então tudo isso foi embutido nas músicas e no jeito de tocar. Como todos os nossos atritos de ter saído de casa, de ter viajado, o contato com novas culturas, a questão climática, comida, condição financeira, sair do hotel para morar em uma casa e começar outra vida. A gente sempre coloca essa realidade dentro da obra.

Lirinha–
O que cada um escuta muda muito. Agora estou descobrindo o blues, porque sempre fui muito preso ao cantador de viola. Era meio proibido escutar música estrangeira. Agora estou escutando muito Robert Jonhson, que realmente não conhecia. E já estão entrando coisas, assim, porque lembra muito os cantadores.

Clayton Barros–
Meu disco de cabeceira, de forma atrasada, é “Aboiando da Vaca Mecânica”, de Lula Queiroga. E um amigo me mostrou um puta compositor, de Cachoeiro do Itapemirim, terra de Roberto Carlos, chamado Sérgio Sampaio que tô viajando, cara! É da mesma levada de Raul Seixas, é da grande sociedade cavernística. Um dito maldito.

Emerson Calado–
O que aconteceu comigo é que quando entrei no grupo, já tinha uma concepção mais ou menos pronta. No segundo disco tive a oportunidade de trabalhar uma música que eu já ouvia e gosto muito: new metal. Tive a oportunidade de ouvir aquela música e chamar um cara que tocava comigo numa banda de new metal para participar do disco e também de explorar muito daquilo que eu ouvia, tentando reproduzir isso dentro do grupo. Nesse terceiro disco, estou desligado disso e ouvindo muita música brasileira antiga, outros gêneros de rock. Busco mais uma sensibilidade com a música, ou seja, não estou mais com aquela idéia de fazer uma música percussiva, estou com a idéia de fazer música sem compromisso com a percussão.

Clayton Barros–
Estou mexendo em outros instrumentos de corda, violão de doze cordas, viola, banjo, guitarra, teclado, uns pedais, modulações de efeito, sintetizadores, que já venho trazendo desde o segundo disco, mas não tinham tanta utilidade. As coisas estão indo naturalmente, com competência e domínio. E são coisas do dia–a–dia que vão sendo assimiladas, que a gente vai se identificando, e que vamos utilizar no futuro.

(© Revista Caros Amigos)

 

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