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Família Casé retorna às origens

05-06-2008

Ademar Casé

 

Atriz Regina Casé e seu pai, Geraldo, filmam em Caruaru um documentário sobre o patriarca Ademar, radialista e pioneiro da TV brasileira

MARCOS TOLEDO

   Por uma mera coincidência, no momento em que uma novela entra no ar tratando da saga de uma família pernambucana que faz a vida no Rio de Janeiro, uma outra família, carioca, faz o percurso inverso em busca de suas raízes: o diretor de TV Geraldo Casé, sua filha atriz Regina Casé e outros parentes menos famosos vieram a Pernambuco para gravar algumas seqüências do documentário Programa Casé. O filme contará a história do pai de Geraldo, o radialista e pioneiro da TV Ademar Casé.

   Se no Rio de Janeiro existe uma família Casé de artistas, o responsável é Ademar da Silva Casé (1902-1993). Nascido em Belo Jardim, aos cinco anos de idade deixou o município com a família, ameaçada por questões políticas. Quando adolescente, voltou com seus familiares para Pernambuco, mais precisamente para Caruaru. Em busca de melhores oportunidades, o já irrequieto Ademar veio duas vezes ao Recife e, daqui, foi para o Rio de Janeiro, onde passou a viver difinitivamente.

   A história do Ademar Casé que começou a carreira como vendedor e se tornou radialista, publicitário e profissional de televisão se passa quase toda inteiramente na antiga capital federal. Contudo, para o filho Geraldo, a neta Regina e o marido desta, o cineasta Estevão Ciavatta, a origem humilde de Ademar em Pernambuco tem grande importância porque foi naquele momento que ele desenvolveu sua capacidade de ‘vender (bem) o peixe’ que o ajudou em sua ascensão profissional.

   “O (lado) artístico dele vem do comercial, e o comercial dele é daqui”, afirma Estevão Ciavatta, autor do curta Nelson Sargento (1997, exibido no antigo Festival de Cinema do Recife), que também assina a direção de Programa Casé. “Eu tinha que explicar que Ademar foi daqui para o Rio num pau-de-arara e não tinha imagem”, explicou o cineasta em um intervalo para o almoço em Caruaru, hora após captar imagens em Belo Jardim, na última segunda-feira.

   O RETORNO – Estevão, que pretende começar e encerrar o documentário em Pernambuco, compara a viagem que fez com os familiares de seu protagonista com um momento marcante na vida de Ademar, em 1948, quando, já bem de vida no Rio de Janeiro, adquiriu o melhor carro que pôde na época, juntou esposa e os três filhos e voltou – de navio – para sua Belo Jardim. “Estamos meio que refazendo essa viagem”, fala.

   Geraldo Casé, que naquele período tinha por volta de sete anos de idade, lembra que, munido de câmera de cinema portátil, o pai Ademar registrou alguns momentos da viagem. Estas imagens e outros documentos deixados pelo radialista servem como objeto de pesquisa para Estevão. Cinco décadas depois, a família voltou a Belo Jardim e mostrou o material para seus parentes pernambucanos.

   Para Estevão, que teve a idéia de fazer o filme após ouvir as histórias que Regina contava sobre o avô e começou a desenvolver projeto há cinco anos, a visita que Ademar fez nos anos de 1940 com a família a Pernambuco foi uma viagem de de afirmação de que ele havia se dado bem no Sudeste do País. “A gente está refazendo uma viagem de afirmação dele”, acredita.

   “Parece que é a biografia de uma pessoa, mas é o retrato da Brasil numa época em que todo mundo estava procurando o que era ser brasileiro”, define Regina Casé que, durante toda a vida teve uma vida muito próxima do avô, que também era seu padrinho. “É uma época em que a gente inventou o que é hoje.”

   LOCAÇÕES – Além de Belo Jardim, a equipe Pindorama Filmes foi a Caruaru, onde Ademar Casé viveu por vários anos. Geraldo, o filho mais velho, visitou locais emblemáticos da cidade como a feira de artesanato e o Alto do Moura, onde era facilmente reconhecido pelos transeuntes.

   No Rio, os realizadores rodam a parte glamourosa da trajetória de Ademar Casé, destacando sua maneira inovadora de fazer rádio e televisão, sempre associando a busca por uma boa qualidade artística à viabilidade comercial de cada projeto até os anos de 1960, quando se afastou dos meios de comunicação para se dedicar apenas à publicidade. Na década seguinte, ele se aposentou definitivamente. “Nós nos emocionamos por estarmos tirando isso da memória”, declara o primogênito.

(© JC Online)


Um filme sintonizado na Era do Rádio

   Programa Casé ou Programa Casé: O Pioneiro da História, como rebatizou em Caruaru o diretor Estevão Ciavatta, aproveitando um dos depoimentos que devem constar no documentário e empolgado com o resultado da viagem a Pernambuco, enfoca principalmente a vida de Ademar Casé dos anos de 1920 a 1940. Rodado em vídeo digital e filmes de 16mm e 35mm, e finalizado em película até o início de 2005.

   Parte da história de Ademar será contada em ficção com o protagonista vivido pelo ator pernambucano Tuca Andrada, já familiarizado com o tema (Tuca viveu o cantor Orlando Silva, um dos ícones da Era do Rádio, no cinema, e repete o feito agora no teatro).

   Na maior parte da produção, entretanto, predomina o documentário, que conta com depoimentos de Braguinha e Dorival Caymmi, além de falas de arquivo de Orlando Silva, Silvio Caldas e, claro, do próprio Ademar. “As pessoas vão ficar impressionadas”, garante o cineasta. Mas sempre salientando o lado empreendedor desse nordestino que foi para então capital do País e se tornou uma dos personagens mais importantes da mídia nacional, até agora sem o merecido reconhecimento.

   “O que quero mostrar é que hoje em dia está cheio de Ademar Casé por aí, com o mesmo jeito de falar, a mesma fibra e vontade de vencer”, afirma Estevão. Outro ponto que o diretor quer trazer à memória do público mais antigo e revelar para os mais jovens é a forma como Ademar lidou com artistas já famosos em sua época, como Silvio Caldas, Orlando Silva e Noel Rosa. “Ele acabou sendo um pilar dessa formação da cultura brasileira durante uns vinte anos, tempo que durou seu programa (no rádio)”, estima o cineasta.

   Para Regina Casé, o avô teve uma obra menos vista – da qual ficaram poucos registros por uma mera questão tecnológica – mas, ainda assim, sólida. A atriz critica ainda o preconceito que existe em dar o crédito de importância a um profissional oriundo do Nordeste. “Há um tratamento diferente tanto da sociedade brasileira quanto do próprio pernambucano para si mesmo”, acredita. Daí, o interesse da família Casé em transformar o projeto como parte da terra de seu patriarca.

(© JC Online)


Pioneiro do rádio saiu de Belo Jardim

Família ilustre de Ademar Casé resgata sua história para o cinema

Tatiana Meira
Da equipe do DIARIO

   Ademar Casé é daquelas figuras que muita gente gostaria de ter conhecido. Nascido numa família de poucas posses, em Belo Jardim, no interior de Pernambuco, se tornou conhecido nacionalmente pelo programa de rádio que levava seu nome e ficou no ar durante 20 anos, a partir de 1932. Casé se firmou mais como produtor do que como artista e a família agora busca resgatar sua memória. Um dos responsáveis por dinamizar a programação do rádio, criando espaço para os músicos e cantores e valorizando o teatro e a música clássica nos estúdios, ele é tema do documentário Programa Casé - O Pioneiro da História, que está sendo preparado pela Pindorama Filmes, produtora da atriz Regina Casé e seu marido, o fotógrafo e diretor de cinema e TV, Estevão Ciavatta.

   Com apoio do Governo de Pernambuco e da Prefeitura de Belo Jardim, Estevão esteve com a família e a equipe de filmagens no interior do Estado no fim de semana passado. Eles gravaram na Feira de Caruaru e no Alto do Moura, onde Geraldo Casé, pai da atriz e primogênitode Ademar Casé, visitou a Casa de Mestre Vitalino. "Estamos refazendo a viagem que meu pai fez com a família em 1948. Ele voltou a Belo Jardim quando melhorou de vida, veio de navio, trazendo o carro importado. Papai chegou a vender laranjas no porto, vendeu rádios Philips e estar aqui de novo é uma experiência inusitada", garante Geraldo Casé.

   O grupo, com 11 pessoas, sendo seis da equipe de filmagem, teve passagens aéreas e hospedagens pagas pelo Governo. Mas o documentário, orçado em R$ 800 mil, está inscrito nas Leis Rouanet e do ICMS do Rio de Janeiro, equivalente ao Sistema de Incentivo à Cultura Estadual e precisa de verba para ser finalizado. O projeto vem sendo tocado há cinco anos. "Estamos atrás de financiamento para terminar a produção. O que talvez aconteça no final deste ano", adianta Estevão Ciavatta, que também dirige o Um Pé De Quê?, programa da TV Futura, que mostra as árvores existentes em território brasileiro.

   Além dele, de Regina Casé e do pai da atriz, participaram da viagem, Benedita, filha de Regina, Virgínia, irmã da atriz, e outros bisnetos de Ademar. Em Belo Jardim, a pequena caravana de Regina Casé recebeu homenagens e ajudou a inaugurar o laboratório de informática da faculdade Fabeja (Autarquia Educacional de Belo Jardim). "Acho fantástico que tenha sido algo ligado à tecnologia, porque meu avô adorava a modernidade, sem perder os costumes nordestinos. Se a fita cassete enganchava no rádio, ele metia uma peixeira", conta Regina.

(© Pernambuco.com)


Site reúne biografia e curiosidades

   O primeiro contato da jornalista pernambucana Michele Wadja, de 23 anos, com a história de Ademar Casé se deu quando ela cursava o 2º período da Faculdade de Comunicação Social, na Universidade Estadual da Paraíba. Ela, que também é natural de Belo Jardim e na época trabalhava numa empresa digital, descobriu a importância do conterrâneo no livro Programa Casé - O Rádio Começou Aqui (editora Mauad), de Rafael Casé, neto de Ademar. Michele ficou encantada com a possibilidade de transformar sua vida num site para a Internet.

   A home page, que está no ar desde abril de 2003, quando Michele concluiu o curso, traz a biografia de Casé, os principais artistas que cantaram em seu programa de rádio e outras curiosidades. "Ele foi um grande exemplo e grande fonte de inspiração, por seu gosto pela música brasileira e por ter levado isso para o rádio", defende a jornalista, que hoje trabalha como repórter televisiva em Caruaru. Michele Wadja esteve com a família Casé, no Rio de Janeiro, em fevereiro do ano passado, e foi quando sugeriu procurar apoio do governo pernambucano para as filmagens.

   Na visita à capital carioca, Michele Wadja também visitou a Biblioteca Nacional e o Museu da Imagem e so Som, para garimpar material para o site. "Já recebi e-mails de jornalistas e pesquisadores dos EUA, de Portugal e da Espanha, interessados em saber mais sobre a trajetória do rádio e da TV ibero-americana", acrescenta a jornalista, que em breve acrescentará à página eletrônica um link com as fotos e informações da visita que a família Casé fez a Belo Jardim e Caruaru nesta semana. O endereço do site é www.ademarcase.com.br.

   IMAGENS - Para o documentário sobre Ademar Casé, que está sendo filmado em vídeo, em 16 e 35 milímetros e depois será transposto para película, já foram gravados depoimentos de artistas como Dorival Caymmi e João Joca, além de terem sido pesquisadas em arquivos sonoras com Orlando Silva e Sílvio Caldas. O ator Tuca Andrada viverá o papel do patriarca Casé em cenas de ficção que serão intercaladas ao filme.Artistas como Noel Rosa, Francisco Alves e Carmem Miranda também ganharam destaque no Programa Casé. "Dificilmente algum nordestino se torna conhecido por seu espírito empreendedor. Geralmente são artistas muito românticos ou caricatos. Sei que está cheio de Ademar Casé por aí, com vontade de vencer na vida com fibra e sabedoria", reforça Regina Casé, que foi recebida, em audiência, ontem, pelo governador Jarbas Vasconcelos.

(© Pernambuco.com)

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