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A arte de Maurício Silva em exposição casual

05-06-2008

Maurício Silva

 

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Promovendo uma exposição em sua própria casa para se desfazer de seu acervo pessoal antes de se mudar definitivamente para a França, o artista plástico Maurício Silva, conhecido pela intensa vivência no meio artístico, aproveita a ocasião para reunir fragmentos das várias fases de sua arte, permitindo uma avaliação dela em conjunto. O público que for à despedida, que acontece hoje, às 19h, em seu ateliê no Poço da Panela (Rua Luiz Guimarães, 126), deve rever sua produção desenvolvendo uma espécie de arqueologia, ciência que, direta ou indiretamente, sempre cercou tematicamente sua obra.

   Apesar de a exposição não possuir curadoria ou critérios retrospectivos cronológicos, a partir das obras guardadas por Maurício ao longo dos anos é possível rever toda a sua trajetória artística, construída transversalmente à participação em grupos e movimentos artísticos, da Oficina Guaianases ao Corgo, passando pelo Carasparanambuco e pelo Carga e Descarga, sem falar em inúmeras exposições coletivas e salões. Hoje, em sua casa, pode ser vista de perto, por exemplo, sua primeira gravura, realizada na Guaianases no início de sua carreira. Ao mesmo tempo, na parede, o público vai encontrar um grande painel inacabado, que ele só vai concluir quando um dia voltar da França.

   Além da arqueologia, imagens de cabeças acompanham sua trajetória. Quando ainda era essencialmente um gravurista, com abertura para o desenho, ele fez uma exposição chamada Cabeças de Olinda, com rostos humanos contendo as mais diversas imagens que sua imaginação poderia criar a partir do peculiar habitat olindense.

   Quando se percebem traços em comum entre as obras de Maurício, no entanto, deve-se evitar cair no risco de entendê-los como voluntários ou deliberados. Desde sua fase gravurista no início da década de 1980 já pode ser percebida uma certa informalidade e deformidade libertária em tudo o que ele faz. As composições criadas pelo artista, seja com traços, pinceladas ou objetos materiais, se assemelham pela harmonia existente dentro de uma organização caótica. Nada é óbvio, porém tampouco aleatório. Existe sempre uma preocupação com a forma, mas elaborada sob uma lógica particular. A questão da arqueologia surge, inicialmente, na constante apresentação de tracejados primitivistas, presentes já em suas fases iniciais e persistentes até hoje.

   Quanto às técnicas, a exposição de hoje à noite, que fica montada (ou melhor, desmontando-se) até domingo, mostra um artista cuidadoso na experimentação de novas linguagens. Ele demorou para adotar a pintura, elegendo-a como prioridade apenas na segunda metade da década de 1980, na convivência com o grupo Carasparanambuco. Nesse trajeto, seus quadros eram uma colagem de imagens com elementos abstratos esporádicos e depois a abstração ganhou primeiro plano e o figurativismo passou a ser sugerido. Hoje, as duas formas oscilam e se confundem. Vídeos, instalações e performances só surgiram com o Carga e Descarga, grupo atuante a partir de 1994, em eventos como Temporal PE (intervenção em frente ao Bar Royal) e Sacrossantos Eróticos (videoarte e exposição). Com o projeto coletivo Corgo, iniciado em 2000, ele adota o barro como um novo caminho para reforçar as idéias de sua obra.  

Serviço

Exposição despedida de Maurício Silva, com preços promocionais
Quando: Abertura hoje, às 19h
Onde: Rua Luiz Guimarães, 126, Poço da
Panela, Casa Forte

(© Pernambuco.com)


Arte de Maurício vai à França

Maurício Silva, um dos nomes que se confunde com a produção plástica pernambucana dos últimos 15 anos, fixa residência em Paris e dá início a novo desafio

DIANA MOURA BARBOSA

   Quem acompanha a trajetória das artes plásticas pernambucanas sabe como o cenário mudou desde o início dos anos 90. Aos poucos, a pintura figurativa abriu espaço para artistas que valorizam aspectos mais abstratos e matéricos das obras. Num estágio seguinte, alguns artistas se renderam à beleza rústica e tribal da arte cerâmica. Depois, alguns ainda aderiram ao trabalho em grupo, criando assinaturas coletivas para vários trabalhos. O artista plástico Maurício Silva passou por todos esses estágios, sendo um dos nomes que se confunde com a produção plástica pernambucana dos últimos 15 anos. Sua trajetória ainda inclui outros marcos desse período, como a premiação no Salão de Arte do Museu do Estado e a passagem pela Oficina Guaianases.

   No início de julho próximo, Maurício Silva despede-se desse lado de seu trabalho – tão arraigado a Pernambuco – e parte para morar em Paris, com a mulher, a francesa Anne, e os três filhos mais novos. Apesar da mudança, o artista afirma que sua arte vai continuar extremamente ligada às referências locais. “É como diz Naná Vasconcelos, sobre a época que viveu em Nova Iorque: ‘Eu nunca saí daqui, só estava morando fora’. Será o meu caso”, declara Maurício. “Minha idéia, a princípio, é ministrar aulas sobre a arte brasileira com referências rupestres e indígenas. Esse é um campo que pode ser bastante explorado. 2005 é o ano do Brasil na França. Acho que terei espaço para trabalhar nesse período.”

   Antes de partir, Maurício promove uma grande farra de despedida, com direito a jam session musical e ‘queima’ total de obras de arte. “Estou partindo sem nada. Só levo os meus discos, alguns trabalhos sobre papel e pouca telas não-emolduradas. Fora isso, não dá para levar mais nada,” lamenta o artista. Por isso, todas as peças em cerâmica e os quadros assinados por ele estarão à venda por precinhos módicos, de 30 de junho a 3 de julho.

   Até lá, Maurício também está fazendo um balanço artístico e afetivo de sua produção plástica. “Agora, que vou começar tudo do zero de novo, tenho pensado muito no caminho que percorri até aqui.” A trajetória de Maurício inclui todas as fases pelas quais passaram os artistas de sua geração. Ele começou com Ipiranga Filho e em seguida fez um curso com Paulo Bruscky. “Ipiranga era mais metódico, mas Bruscky tinha a mente mais aberta para uma série de expressões contemporâneas. Foi ele que inseriu Pernambuco no circuito internacional de arte postal. Paulo quebrou uma visão limitada que se tinha da arte aqui no Estado, ele é muito importante para a formação artística de minha geração, mesmo para quem não trabalha com a mesma proposta que ele.” Maurício ainda foi um dos alunos do ateliê livre de José de Barros, na Universidade Federal de Pernambuco, antes de trabalhar na Guaianases.

   Foi na Guaianases, aliás, que Maurício começou de fato seu trabalho profissional, chegando a dirigir a oficina na sua fase mais difícil, pouco antes de fechar. “Na Guaianases, eu pude conhecer um maior número de artistas. Foi nesse período que fiz a minha primeira individual, uma exposição de gravuras chamada Cabeças de Olinda. O resultado, na época, foi muito positivo, tanto no aspecto plástico como no financeiro. Na época, consegui comprar um apartamento,” recorda.

   Foi neste momento, também, que Maurício sentiu necessidade de deixar Olinda e levar suas arte a ganhar outras referências. Foi então que vieram os ateliês do Bairro do Recife e os grupos de arte: Ateliê do Cais, Carasparanambuco, Carga e Descarga, ateliê coletivo Submarino e o Corgo. Nesta fase, ele elaborou suas duas exposições individuais de pintura, uma na Fundaj outra no Instituto Cultural Bandepe. Também participou da elaboração de performances, instalações, coletivas e vídeos com o grupo Carga e Descarga, que teve um tempo de atuação intensa no Estado. Agora, sua cabeça está voltada para os contatos que tem em Paris. “Às vezes eu fico angustiado com essa mudança toda. Mas, para o artista brasileiro, produzir não é problema. Vou chegar na França a fim de trabalhar,” resume Maurício, ciente de que agora tem a responsabilidade de começar tudo de novo, de refazer o tempo.

(© JC Online)

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