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Os embalos da Manguetown

05-06-2008

O projeto reúne músicos da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A

 

   Los Sebosos Postizos estréiam no Rio tocando versões de Benjor no Rival BR

João Bernardo Caldeira

   Apesar da intensa agenda de compromissos da banda Nação Zumbi, Jorge Du Peixe, Lúcio Maia e companhia encontram tempo para, nas horas vagas, se transformarem em Los Sebosos Postizos, grupo dedicado à recriação de músicas de Jorge Benjor e clássicos do ska, soul e do reggae jamaicano, de nomes como Horace Andy, Augustus Pablo e Dennis Brown. Pela primeira vez no Rio, a banda faz shows amanhã e quinta-feira, no Teatro Rival BR.

   – Queríamos levar para o palco coisas que costumamos ouvir em casa. É mais do que um prazer cantar soul music e o Jorge Ben dos anos 60. Não tocamos exatamente da maneira como as músicas estão dispostas nos discos dele, mas não é uma tentativa de atualizar nada, porque aqueles arranjos ainda vão surpreender pela qualidade daqui há 20 anos – avalia o pernambucano Du Peixe, 37 anos, vocalista da Nação e dos Los Sebosos.

   O grupo é formado por Jorge Du Peixe, Lúcio (guitarra), Pupilo (bateria), Djengue (baixo), Gustavo da Lua (percussão), que fazem parte da Nação, e ainda Bactéria, tecladista do Mundo Livre S/A. Gilmar Bola 8 e Toca Ogan, também integrantes da Nação, não participam do projeto, que existe desde 2000.

   No começo, a intenção era juntar amigos de Recife para curtir um som. Logo as festas fizeram sucesso e a banda ganhou projeção, conta Lúcio Maia, de 33 anos:

   – A idéia era fazer uma espécie de festinha em Recife. Mas aí o grupo Mamelo Sound System nos convidou pra registrar uma faixa do primeiro CD deles. Depois, gravamos uma outra no CD do Instituto e começamos a levar as coisas mais a sério sempre que a Nação não estivesse nos ocupando.

   Hoje, os Los Sebosos Postizos pensam até em produzir um disco autoral, ainda que pareça um sonho impossível conciliar as gravações com a efervescente carreira da Nação, que lança DVD em agosto e novo clipe em breve. Caso saia do papel, a idéia não é registrar os covers cantados nos shows, mas compor canções inéditas.

   Enquanto isso não acontece, os Los Sebosos mostram seu apreço pela música de Jorge Benjor, grande influência para várias gerações da música brasileira. A banda se dedica principalmente às composições das décadas de 60 e 70, como Toda colorida, Quero esquecer você e Comanche. Os hits lembrados são poucos, mas engana-se quem pensa que o público reclama:

   – O pessoal sempre começa a cantarolar a maioria das músicas. Quem ama Jorge Ben acaba comprando todos os discos – afirma Du Peixe.

   Para reproduzir a sonoridade do violão ultra pessoal do autor de Fio maravilha e País tropical, Lúcio Maia recorreu a uma guitarra semi-acústica Gibson 135. Ele tenta conjugar a sutileza do violão que Benjor imortalizou em seus discos com a guitarra que o cantor passou a utilizar nos palcos.

   – O violão é muito versátil para compor, mas não é legal na hora do show, pois sofre uma perda enorme junto com outros instrumentos elétricos. Essa guitarra semi-acústica, oca como um violão, dá uma sonoridade e um clima de leveza e sofisticação, algo bem distante da Nação, que tem uma cara mais rock'n roll – analisa Lúcio.

   O descompromisso e a informalidade do projeto ajudam a extravasar, diz Du Peixe:

   – É uma maneira de liberar as idéias que surgem.

   Para Lúcio, é através da banda paralela que eles podem realmente se expressar.

   – Eu diria que, nos Los Sebosos, temos um compromisso mais forte com nós mesmos. Porque na Nação temos que atender à mídia, fãs, agenda, há toda uma carga por trás. Já os Sebosos têm uma leveza bem maior. É mais livre – resume.

(© JB Online)


Bom som além do mangue

Rádio de Outono e Mellotrons são bandas promissoras que lançam EPs e trilham nova vertente

RAFAEL GUERRA

   Quem já viu ao vivo, escutou pela Internet ou tem o disco sabe que as bandas Rádio de Outono e Mellotrons não se assemelham muito pelas suas propostas musicais. No entanto, há muito em comum entre estes dois grupos, que recentemente registraram suas composições e lançaram seus primeiros EPs. No caso da Rádio de Outono, o EP tem objetivo de divulgação, apenas, já que eles estão na fase de pré-produção do primeiro álbum, que será produzido pela dupla Mad Mud (Léo e William), que também assina Vamoz! e Mombojó, e Zé Guilherme, responsável por A Roda e Superoutro. Já os Mellotrons deram um acabamento mais caprichado, tanto nas gravações quanto no material gráfico, e pretendem comercializar a bolachinha. Os dois discos foram gravados no estúdio Boca 48 e produzido por Márcio 48.

   O Mellotrons é uma banda relativamente antiga, existe desde 1997, canta em inglês, sabe muito bem o caminho que escolheu e construiu no ‘underground’ recifense (será que existe isso?), com um pequeno, mas fiel, público. Guitar band das boas, o grupo já teve algumas formações e atualmente se apresenta com Haymone e Ênio dividindo os vocais e também responsáveis pela densa parede de guitarras, e uma ‘cozinha’ precisa e agressiva com Marcos Muller (baixo) e Augusto Cézar (bateria). O som dos rapazes tem marcas que vão de Radiohead (Pablo Honey e The Bends) e Wilco, para citar dois grupos dos anos 90, a Television e Big Star, da já longínqua década de 70.

   O EP tem quatro músicas, todas ótimas. Abre com Evening, petardo garageiro que mostra como será o resto do disco, distorções aliadas a melodias extremamente pops. You and I e The Line mantém o alto nível. Hear/Listen encerra o EP com uma barulheira instigante, que empolgaria qualquer fã do Sonic Youth. As letras, todas a cargo de Haymone, falam sobre as opções notívagas dos rapazes e das angústias comuns aos jovens.

   A Rádio de Outono deixa claro neste disquinho qual o seu objetivo: procurar o batida pop perfeita, parafraseando D2. E é provável que eles encontrem a fórmula. As cinco músicas do EP descem fácil e ocupariam o top 10 de rádios e televisões sem a necessida de ‘jabá’ nenhum. A Rádio de Outono não tem uma formação das mais tradicionais, não há guitarras. O casal Bárbara e Gleisson Jones cantam, ele toca uma bateria minimalista e ela comanda os efeitos (uma espécie de Rita Lee na época dos Mutantes), Dídimo toca com muita autoridade seu teclado, quase sempre dando um clima retrô às músicas, e Fernando demonstra habilidade com seu baixo ‘fretless’. O destaque vai para a última canção do disco, Nem o Pó, uma pérola pop. Seguindo os passos de Ludov e Pato Fu, o Rádio de Outono pode, muito em breve, invadir os rádios de todo o Brasil.

   A partir das duas análises, a afirmação de que há muito em comum entre as bandas, feita no início da matéria, parece injustificada. Uma banda é ultra-pop e não tem guitarras, a outra é uma banda de guitarras com um potencial mais alternativo. Apesar de tudo isto, Rádio de Outono e Mellotrons rezam pela mesma cartilha. Fazem parte de um grupo de bandas que pretendem fazer um som independente de regionalismos. Bárbara Jones define bem, “Recife é mangue, mas também tem asfalto”. E o diálogo entre estas bandas (além de Parafusa, Superoutro, Vamoz!, Mombojó) começa a funcionar. Pode-se dizer que, atualmente, já existe uma cena de bandas novas, relativamente unida e que aos poucos vai conquistando seu espaço.

(© JC Online)

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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