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Para escutar no ritmo das HQs

05-06-2008

O cartunista pernambucano Antônio Clériston

 

  Canções reunidas no CD E o Som Virou Quadrinhos ganham versão ilustrada, com o selo do Funcultura

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Desenvolver música para ser vista e imagens para serem escutadas são uma das intenções do projeto HQCD: E o Som Virou Quadrinhos, que o quadrinista pernambucano Clériston, ex-vocalista da extinta banda Delta do Capibaribe, acaba de aprovar no Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura. Trata-se de um disco com 16 canções de sua autoria acompanhado de uma revista contendo ilustrações para cada uma delas feitas por um grupo de desenhistas pernambucanos. Amanhã, ele começa a gravar o CD no estúdio Via Som. O lançamento, com um show possivelmente audiovisual, está previsto para setembro.

   Participam do projeto o baterista Ebel Perreli, o guitarrista Fred Andrade, o baixista Leopoldo Nunes e os quadrinistas Miguel, Cariello, Rinaldo, Felic, Jarbas, Greg, Flavão, Luciano Félix, Zizo, Arnaldo, Lailson, Mascaro e Samuca (os três do DIARIO), além do artista plástico Marcelo Coutinho, que também é acadêmico da UFPE e foi vencedor do último prêmio Vitae de Artes Plásticas. Entre os desenhistas, há premiados em salões brasileiros e estrangeiros, como Félix e Jarbas, destaques deste ano no Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco.

   Parte dos desenhos já foi produzida e entregue a Clériston, que diz estar atingido seus objetivos com o resultado. Ele não quis fazer todos os desenhos exatamente para permitir que os artistas criem suas próprias interpretações, sem seguir as letras literalmente. "Alguns foram de uma redundância absoluta, mas outros seguiram um caminho mais outsider", observa. Segundo ele, Marcelo Coutinho, por exemplo, criou imagens sem nenhuma conexão aparente com o texto da canção Morte!, enquanto Luciano Félix procurou dar uma cara para a história contada em Bebum no Carnaval, acrescentando uma narrativa com um casal de cachorros paralela à principal. Segundo o compositor, todas as músicas possuem uma essência narrativa que se adapta bem à linguagem das HQs.

   MERCADO - Clériston sabe que não é pioneiro na experiência e menciona Raul Seixas e os quadrinhos underground americanos como experiências precursoras. A idéia, inclusive, lembra filmes como Fantasia, da Disney, só que com quadrinhos no lugar de desenhos animados. Muitos discos, como Da Lama ao Caos, de Chico Science e Nação Zumbi, ou O Sagaz Homem Fumaça, do Planet Hemp, também já trouxeram quadrinhos no encarte. Miguel, que participa do projeto, já chegou a ilustrar a música Summertime, de George Gershwin, para uma edição da revista Ragú. A novidade do HQCD, para Clériston, é transformar isso em um produto, que será vendido por R$ 15,00, que ele espera que sirva de exemplo para outros artistas. "Já pensou se Chico Buarque libera suas canções para Ziraldo, Maurício de Souza ou Lourenço Mutarelli? Eles iriam criar coisas que nem os compositores e nem o público imaginou."

   A grande maioria das músicas do HQCD é inédita e só foi escutada por amigos próximos, familiares ou vizinhos de Clériston. "Minha filha já sabe cantar algumas", brinca, se referindo a sua primeira fã. As exceções são Zé da Silva, Noite Moleca e Sobre Ontem à Noite, queintegravam o repertório da Delta do Capibaribe. "Desisti de ter banda. Não tenho mais saco, porque sempre tem algum integrante brigado, viajando ou desestimulado", reclama, lembrando que também não tem mais saco para as disputas de ego entre músicos. "Prefiro ser autoritário, pagando pra tocarem comigo." Depois de quase 10 anos sem tocar, ele tem canções suficientes para gravar dois CDs.

   O desenhista não sabe definir o estilo musical que vai seguir, mas identifica referências de frevo, blues e rock, entre muitos outros. "Sou influenciado pelo que é feito de 1930 pra cá, mas assumo que gosto muito de Blur e sigo a fórmula dos Beatles", compara, mencionando o quarteto inglês por causa das melodias de fácil assimilação, com proposta assumidamente pop. "Toda música vai ter um refrão ou riff bem marcante", complementa. Na música Sobre Ontem à Noite, que vai ganhar desenhos de Mascaro, ele colocou uma bateria com cadência de frevo e guitarras mais próximas do blues, mas garante que a mistura surge de forma involuntária, sem a pretensão de juntar gêneros.

(© Pernambuco.com)


Entrevista com Antônio Clériston

por Felipe Pequeno e Walmar Andrade

   Uma música punk de Green Day, uma pincelada rápida de Vah Gogh. Antônio Clériston, um dos cartunistas pernambucanos mais antigos em atividade, admira o estilo rápido e até certo ponto desajeitado. Professor de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, Clériston afirma preferir uma transparência feita a mão com hidrocor a uma trabalhada no computador, toda certinha.
 
   "Chega a dar sono". É através deste estilo que Clériston transmite suas opiniões diariamente nas charges da Folha de Pernambuco.
 
Como você começou nas charges e quais seus primeiros contatos com as artes gráficas? Tem formação acadêmica?

Olha, como quase todos os desenhistas do país, eu sou mais um autodidata. Significa dizer que eu não tive nenhum curso formal, né? Apenas nunca parei de desenhar. Aprendi errando, com as críticas das pessoas – ta feio, ta bom, gostei, não gostei – observando muito o desenho de outros artistas e fazendo e sendo criticado. Até que com 23 anos eu comecei a tentar publicar na imprensa, levava o desenho... “ah, deixa aqui”... botavam na gaveta. “Depois você me procura...” Até que com tanta insistência terminei entrando do Diário de Pernambuco pra fazer charges.

E quais foram os jornais em que você trabalhou?

Aqui, por todos... já fui doze anos do Diário de Pernambuco... já fui dois anos, quase, do Jornal do Commercio... e estou na Folha de Pernambuco desde o número zero até agora. Já fazem cinco anos, né?

Premiações em mostras e salões... quais foram as mais importantes?

Eu não me lembro tudo... fui premiado no 3° salão... Internacional, acho, de humor em Pernambuco e no 2° salão de humor de Maceió, Alagoas.

Em quantos jornais você publica hoje?

Charges, só na Folha de Pernambuco, né? Eu também mando pro charge online, um site nacional... todo dia tem de 40 a 60 chargistas, todo dia, de vários jornais do país, do Amazonas a te Porto Alegre e ... alguns mandam só pro charge online mesmo, não saem no jornal. Publico eventualmente no Papa – Figo ... enfim, todo canto que surgir uma publicação alternativa, a gente sempre colabora. Aqui em Pernambuco, em todo jornal que apareceu charge eu participei.

Você é pernambucano?

Sou.

Diariamente você publica?

Diariamente na Folha. Todo dia sai uma charge na primeira página da Folha de Pernambuco. Veja bem, eu fiz 50 anos ontem (06/02/2003), então...com pequenas interrupções , desde os 23 anos eu publico uma charge todo dia.

E como você lida com o fato da charge ser efêmera? Uma charge de hoje, amanhã já é vista de uma maneira diferente...

Essa é justamente uma característica da charge e que é aí que está a diferença dela para o Cartum, que é um tipo de humor – humor gráfico – mas que não é a charge. O Cartum, ele é pra vida toda. Se eu faço uma piada sobre casamento, uma piada sobre a arca de Noé, uma piada sobre... futebol... tranqüilo, é pra vida toda. Sobre Super Man, né? Charge não; a charge é intrinsecamente jornalística e ta em cima da notícia que ta acontecendo. E a notícia muda, ela é dinâmica, e a charge também perde sentido com a mudança das coisas. Passa a ser uma coisa histórica. Ela está sempre ligada àquela notícia. Por exemplo... Lula demite Palocci (Ministro da Fazenda do Governo Lula – 2003/2006) aí eu faço uma charge: Lula jogando uma torta na cara de Palocci... e pode ser que na hora que eu estou mandando pro jornal, Lula volte atrás e Palocci ta firme e forte... minha charge vai pro lixo, na mesma hora. Nem vai ser publicada. Tenho que mandar outra correndo. Ou então, no outro dia, o cara pode não achar a charge tão engraçada que ela perde o sentido.

E qual é a rotina de um chargista dentro de um jornal?

Veja bem, varia de jornal pra jornal, né? Por exemplo, o Miguel (Falcão) e o Ronaldo (Câmara) eles dão expediente no jornal e fazem além das charges outras ilustrações. É... eu , Laílson, e um monte no país todo fazem as charges normalmente em casa ou em seu estúdio e manda, pela internet, pro jornal, com a vantagem de que você pode assistir jornais da noite na TV... dependendo do horário do jornal, até umas oito horas, oito e meia, dá pra fazer a charge e mandar pro jornal, fechando praticamente junto com a primeira página. Agora, por exemplo, no jornal onde o cara publica na página de opinião, que é fechada às sete da noite, tem que mandar até sete da noite; ou pela internet ou leva lá.

Então, quanto a computadores: como é que você vê as charges de Chico Caruso no Jornal Nacional e de Maurício Ricardo no charges.com.br?

Olha, eu lembro das de Chico, né... as que eu já vi... eu acho até que ela ficou melhor na TV do que na revista. A maioria que eu vi, o efeito não era muito bom, porque, como no jornal, ela ficaria melhor estática, parada. Ele colocou um braço em movimento, um texto saindo da boca do cara, dublando, a boca mexendo de uma forma muito tosca... então ficou um resultado muito ruim. E pra Globo, que tem um padrão de qualidade no país... enfim, a própria qualidade da animação hoje, a capacidade de fazer animação é muito grande, e a nossa obrigação é trazer, tipo assim, alguma coisa que estiver nas estrelas, mas não fazer aquela coisa feito década de 50. fica muito ruim, eu não gosto. Eu preferiria que ele colocasse a charge parada mesmo na TV: congelaria ale, 10 segundos...

Qual foi a interferência do computador quando ele virou uma ferramenta doméstica; como você trabalhava antes e depois?... Você usa computador pra fazer charges?

Uso...

Faz direto?

É... quando eu voltei de Portugal, e mesmo estando ali na Europa, acredito que a maioria lá não usa. Eu diria a maioria por que os que vieram pra cá são pessoas oriundas da imprensa e muitos não usavam. Aqui, há muito tempo que todo mundo usa e... as vantagens são inúmeras: primeiro a questão que você... a questão física, de você não ter que levar um desenho de ônibus ou de carro, ira na redação, subir no elevador, entregar lá pra alguém fotografar... enfim, você em casa scaneia, copia, faz um desenho no papel, a maioria faz um desenho no papel, scaneia, copia... normalmente usa o PhotoShop... até Corel Draw dá pra pintar... você pinta na tela, dá pra rediagramar no computador, você clica, não deu, muda a cor, suaviza a cor... antigamente você pegava a tinta e pintava o desenho; se borrasse, usava um corretivo e às vezes não prestava o efeito. O computador veio como uma fantástica ferramenta no fazer, na qualidade, no tempo...

Você mudou seu estilo de desenhar? Por que Laílson mesmo tinha o traço mais aberto e agora ele faz todo o desenho fechado para pintar no computador...

Não, Laílson sempre teve o desenho bem fechadinho. Todo mundo que pinta no computador teve que fechar o traço para pintar, senão pintava o fundo, aquela coisa toda. Isso é uma desvantagem, a única coisa que aborrece, uma das únicas coisas que aborrecem o artista é você ter que fechar pra desenhar... eu só to brincando aqui, dizendo a coisa de Laílson, porque eu acho que o Lailson – é uma coisa que eu não gosto – sempre teve o cuidado, desenhou de uma forma mais lenta, o traço dele mais bem acabado e tem menos dificuldade... em quê: eu desenho muito rápido, muito aberto, e eu tive que me adaptar a isso, perdendo em agilidade e qualidade. Eu tenho alguma dificuldade, porque desenho muito rápido e fico observando e tentando fechar uma cantinho aqui, outro ali... mas em relação à vantagem, isso é uma perda muito pequena.

Quais são os temas mais presentes em sua produção?

Olha, eu diria a você que seria o tema, digamos assim, que você sente que ta na ordem do dia, no cotidiano das pessoas. É como se o público lhe pautasse... por exemplo, copa do mundo, carnaval, eleições, olimpíadas, alguma tragédia – como o navio que derramou petróleo no oceano, a eminência de uma guerra... são assuntos que você... eles lhe pautam: a dificuldade tem quando não tem nenhum assunto que você sente que afeta a vida de todo mundo; por exemplo, você liga pro jornal às vezes e o cara diz: “vai sair isso, isso, isso e isso” e nada lhe chama atenção. É... você não sai do jornal e não tem uma notícia. De uma forma, o dólar volta a subir ou volta a cair, Lula se reúne com ministros, não tem um fato que modifique as vidas das pessoas. Aí fica mais difícil: tem que escolher outra saída. Aí sobra pra inflação, que é a saída do cartunista: dá um pau na inflação, aumento do custo de vida, o popular dragão... quando aparece o dragão, o cabra tava com pressa pra ir pro futebol, pra ir namorar, alguma coisa assim.

A gente sabe que o jornalista às vezes é obrigado a mudar o texto quanto a linha editorial do jornal. Isso acontece também com o chargista? Segue alguma linha editorial?

Olha, sim e não. Primeiro eu digo sim porque cada jornal tem uma linha editorial ou tem uma forma de digamos assim, de ser, de sua personalidade. Você vai trabalhar no Jornal do Commercio: o Jornal do Commercio há pouco tempo pertencia ao João Carlos Paes Mendonça, dono de uma rede de supermercados. Então, enfim, você ata vai colocar uma charge sobre aumento de preço, alguma coisa assim, mas você não vai dar um pau no supermercado, porque é constrangedor, porque até não se publica, mas assim você estará se arriscando a levar uma reprimenda, ou coisa assim. Mas é uma coisa que tem outra forma, que você não diretamente dá um pau no Bompreço: você pode falar da remarcação de preço no Brasil e aí ninguém vai censurar não. Você evita mais um pouco, sabe como é que é? Porque você entra num confronto que não vai levar a muita coisa. Veja bem, se abre um parêntese na época da ditadura, no governa militar até após o governo militar , quando os jornais, os editores, tinham medo de muita coisa, mesmo depois da ditadura sabe? Ou seja, você lutava pela liberdade de expressão em sentido geral, então vinha a própria censura e você tentava realmente fazer a charge e caso não publicassem você fazia outra... mas hoje em dia, bicho, é como assim: você vai fazer uma charge sobre o aniversário de sua vó, você sabe o que pode dizer e o que não pode: você não pode botar sua vó com os peitos de fora e de calcinha, porque vai criar um constrangimento e ninguém até nem vai imprimir. Então é aquela coisa de acordo com o público também: com o aniversário, com o personagem... mas eu não to preocupado com o que eu vou dizer, não, porque o problema mais pesado é no fator político; hoje em dia seria o fator econômico, mas aí dá pra levar. Mas assim: você não vai atingir pessoas ou entidades diretamente, aí você, por exemplo, a conta do telefone ta prejudicando as pessoas, ta muito sério isso, ta no noticiário, né? Uma empresa de avião ta passando calote nas pessoas, você vai viajar e o avião atrasou... aí você pode realmente fazer uma charge sobre isso. Tem “n” charges sobre aviação, conta de telefone, sem atingir diretamente a pessoa.

O caráter ofensivo de suas charges já lhe trouxe problemas?

Rapaz, problemas, creio que os problemas esperados, né? Na época da ditadura, por exemplo, eu fui uma vez na Polícia Federal e uma vez na Polícia Militar, porque lá pensavam que os chargistas de Pernambuco estavam fazendo uma campanha orquestrada pra denegrir as forças armadas, mas na verdade foi uma... uma... atendendo a solicitação de um coronel que comandava o DETRAN na época. Foi um fato, assim, isolado. Eu tive mais problemas realmente com a edição do jornal no sentido de querer publicar uma charge ou de uma charge não sair. Isso praticamente acabou, já não fazem mais isso há algum tempo, já. Desde a época, digamos assim, do Sarney pra cá, tem diminuído, quase que acabou.

Quais são suas influência? Assim, tem algum chargista que você admira nacionalmente ou em Pernambuco, especificamente?

Olha, eu gostaria de ter alguém pra dizer, porque sempre fazem essa pergunta e é legal até pra elogiar um conterrâneo que lhe inspirou... mas, assim, eu me inspirei, eu diria até, em muita gente; primeiro que quando criança eu lia muito quadrinho: Disney, gibi de terror, de cowboy, e outros de humor, homem-borracha, que não existe hoje... e nunca parei de ler, de observar o traço das pessoas. Se parasse pra observar todos os diferentes, eu nunca,... na verdade, assim... por exemplo, eu peguei de Ziraldo a solução que ele tem pra fazer as mãos, né? De repente peguei do cara que faz o Recruta Zero alguma coisa do rosto, mas enfim, não tenho nada muito parecido. A influência grande, eu diria, é do famoso underground americano, né? Nove entre dez cartunistas da minha geração dizem isso. Esse desenho influenciou muita gente... o desenho do movimento hippie... agora, eu acho que tenho soluções inteligentes de vários e vários cartunistas... ainda hoje – não é que eu tenha influência só do passado não – hoje, hoje, até pode ter um cartunista de 18 anos que ta começando e vê a cor de um jeito, o cabelo de um jeito, e “pó, que legal essa solução”e passo a modificar, equilibrar... eu tomo de muita gente, na verdade.

Você colocaria a charge no mesmo patamar de um texto quanto o seu caráter informativo?

Olha, eu diria informativo não, mas opinativo sim. Porque eu acho que o texto, ele normalmente tem uma carga de informação maior, ele é mais detalhado, ele tem muito mais quê, quando, quem, como, onde, que hora, a que preço, por que razões... em consequência ele vai ter. De repente a charge é um assunto que a gente ta opinando quase como... às vezes até uma palavra sobre uma coisa, por exemplo, eu fiz uma charge, há muitos anos, na época que grave era , assim, uma coisa proibitiva, de contestação, nem o Governo gostava nem empregava esse nome, “greve”. E teve uma greve forte dos funcionários públicos e o pessoal fez um blecaute, algumas coisas assim, e a charge que eu fiz no Diário, que eu me lembro, a charge foi num fundo preto assinado, não tinha nenhum texto, nenhum desenho: era só um fundo preto assinado, é um ícone... ela era a minha opinião, ou seja, eu tava a favor da greve, de.. de não trabalhar embora assinasse a charge, solidariedade, enfim, tem um monte de informação mas não vou comparar com o texto contando todos os detalhes daquela greve, mas como opinião eu posso dizer que a coisa é mais forte do que na maioria dos textos opinativos. Então, assim, por ser sintética também, ela é mais uma porrada, um coice, né? Onda boa mesmo, né?

Qual seria então a importância das charges aqui em Pernambuco?

Olha, eu diria que a importância das charges aqui em Pernambuco e em qualquer lugar do mundo, primeiro que ela é um elemento do jornalismo que ta incorporado nesses últimos 100 anos mas que nasceu com o jornal. A charge é uma coisa do jornal, até mesmo na revista semanal ela corre o risco de ficar velha muito mais rápido... então a charge é uma coisa muito do jornal e até para internet, pela velocidade de mudança, então eu acho que ela ajuda as pessoas a fazer parte de algum assunto; pode ser sobre futebol, sobre a virada de mesa na CBF, em cada estado isso muda. Aqui em Pernambuco, de repente as charges são de acordo, mas em São Paulo um chargista que torce pelo Palmeiras pode agir diferente, ou não!se pode opinar diferente, depende. Mas eu acho que a charge traz essa colaboração dela ser icônica, dela ser vista com muita rapidez – você abriu, olhou, já viu – e assim, quando você não tem tempo de ler alguma coisa pode se solidarizar ou não com aquela opinião. Ela ajuda a democracia, ela serve para você não ter medo de criticar o governo ou o poder, de certa forma, porque você ta li cutucando o poder... sempre... pô, o cara publicou o negócio, assinou, ta no jornal e não ter medo de criticar...

Quanto ao local: na Folha sai na primeira página, no JC e Diário sai já no fim. Qual o melhor local pra publicar a charge?

Eu diria pra você que 100 entre 100 cartunistas preferem ficar na primeira página... todos que conheço... mesmo os que não estão gostariam de estar. Eu tenho dúvida se seria melhor aquela coisa de você abrir, ir lá na página de opinião pra ver a charge... mas ao mesmo tempo, ela estar na capa de um jornal já opinando sobre alguma coisa tipo uma carta sintética... fica bom ali na capa. Acho que... eu... quando minha charge não sai – a internet não funcionou e não dá mais tempo – e sai uma foto de cinema e eu vejo o jornal sem a charge, não é porque é minha não, mas eu acho que ta faltando alguma coisa, espero que quando eu sair da Folha, por alguma razão, coloquem outro.

Quanto ao seu traço... é um estio ou tem alguma intenção? Seu traço aberto, rápido...

Eu diria que, na verdade, é estilo sim. E é o estilo de vários artistas... por exemplo, eu me identifico também nas artes plásticas com os artistas que têm esse traço mais ágil, como Zé Cláudio, artista plástico daqui, Rinaldo, que também desenha muito rápido... enfim, todo artista que tem o traço muito bem acabado, como, vamos dizer os clássicos, como clássicos, como Rafael, Leonardo Da Vinci como outros que têm o traço muito acabado, eu acho bonito, admiro, mas não me falam tanto quanto o traço de ... de Picasso, de Caravaggio, de... impressionistas... o próprio Van Gogh... Van Gogh é demais, bicho! Aquele desenho... parace que cada traço dele parece uma porrada.eu gfosto muito disso, gosto de fazer. É como música: eu não gosto da música... Kenny G... aquela música horrível, bem organizada; em termos de punk, sou mais Green Day.

Miguel (Falcão) publicou um artigo recentemente sobre Al Hirshfeld dizendo que o traço mais simples consegue passar mais do que o traço complexo. Miguel fala, inclusive, que chargistas que têm o traço complexo são endeusados pela mídia mas ele prefere o outro trabalho... o que você acha disso?

Eu tenho essa opinião também... por exemplo, queria falar minha opinião como leitor, por exemplo, o desenho que eu menos gosto é assim: você vê , é bonito, muito bonito, mas eles não me passam aquela emoção... desenho do Aroeira, do Chico Caruso... Ziraldo poderia ser, mas Ziraldo tem o traço muito rápido também, embora seja muito sintético. Assim o traço que eu gosto mais é o traço Glauco, do Angeli, do... que eu gosto muito... Henfil, claro e de... Dáucio... enfim daquele desenho que lembra mais uma pichação de um prédio do que um desenho da academia, digamos assim. É porque, é uma coisa que eu já experimentei, é uma questão de semiótica, mesmo, porque... veja bem, há muitos anos, quando eu estava querendo firmar meu traço, ainda não tinha aquela segurança de qual era realmente o meu desenho, de me sentir sossegado no traço que eu gostasse, coisa que eu só consegui seis anos depois de entrar no jornal, por volta de 82, 1982, eu reconheci: esse é o meu desenho, eu gosto disso. Demorei muito e só cheguei a isso quando eu comecei a desenhar com aquela pena fina de molhar no nanquim e desenhar com ela, aí cheguei no um traço. Mas veja bem, antes eu desenhei com aquela caneta técnica, que tem o traço uniforme, 0.3. É muito ruim pra desenhar rápido, a não ser num papel muito liso... mas é... quando eu cobria aquele desenho com aquela caneta um pouco mais lento, eu sempre achava que o meu rascunho era sempre melhor que o meu desenho... sempre eu gostava muito do rascunho de lápis, mesmo que ele fosse menos elaborado, mal acabado, mas ele é sempre muito mais expressivo do que o traço final. Eu digo: que diabo é isso? Eu não quero isso, eu quero o melhor desenho, e o melhor desenho é o rascunho. Então eu tive um paliativo que foi desenhar com as canetas hidrográficas. Quebrava um galho porque dava pra fazer um traço rápido com essas canetas. E como era rápido começava a se aproximar do rascunho e comecei a gostar muito disso. E o que eu acho mais impressionante com esse traço rápido, não só pra mim que tava fazendo, como passa pras pessoas e a gente vê nos desenhos dos outros, essa... é como se fosse mais ainda essa espontaneidade. Exemplo, comparando com a música: há uma certa... como é que diria... opinião formada pelos críticos de que os discos ao vivo têm mais alma, mais emoção e são mais interessantes do que os de estúdio. No estúdio, o cara vai lá, erra, conserta, erra, emenda, aí bota guitarra, outro músico coloca só playback ou a sanfona, aí vem outro... é uma colagem mas que fica perfeita. O resultado, com certeza é uma perfeição, mas é gelado muitas vezes, na maioria das vezes. Ele é mais frio do que o mesmo grupo tocando ao vivo... tocando no palco, desafinando a voz um pouco, berrando um pouco, com a microfonia ali mas é muito... até no disco você sente que é mais instigante. É o mistério, bicho, da comunicação, eu acho. Como é que o fato de você desenhar... quer ver uma coisa, eu quando assisto alguma aula dada usando transparência, eu gostava muito menos, achava mais interessante as transparências feitas à mão e tinha horror a transparência feita com datilografia ou até hoje no computador com aquela letrinha Arial, Verdana, Times, bem certinhas... dá um sono, véio, tu acredita?! E às vezes a letra do cara, mal feita, feita à mão com a caneta apropriada pra retroprojetor achava muito mais interessante. É isso.

(© Página ABC)

 

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