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Recife se reflete em obra de João Câmara

05-06-2008

O artista plástico João Câmara Filho

 

  O artista plástico cria painel para o Aeroporto dos Guararapes no qual Recife surge refletido pela água

PAULO SÉRGIO SCARPA

   No início era apenas terra cercada por água por todos os lados. Depois vieram as choupanas, as casas, os casarões e os arranha-céus. Mas tudo continuou cercado de água. E o Recife refletido nas águas do Capibaribe e Beberibe, que se juntam ao mar, ou vice-versa. Foi com essa visão do ar, da terra e da água que o artista plástico João Câmara imaginou um painel com 85 metros quadrados no Novo Terminal de Passageiros do Aeroporto dos Guararapes. “É a cidade aquática. O Recife refletido na água, a inversão da realidade, o céu, a terra e a cidade submersa”, explica. A obra estará num saguão com 2.500 m² de área e 18 m de altura.

   O painel ainda não tem título, deverá ser inaugurado em setembro e João Câmara termina os esboços para começar a pintá-lo em seu ateliê em Olinda, na Ladeira de São Francisco, com a ajuda de dois amigos. “É preciso arranjar um nome de fantasia antes que ganhe um apelido, como fizeram com a obra de Francisco Brennand, no Marco Zero”, diz, bem-humorado. Popularmente, o monumento é conhecido como “pirocão” ou “chapeleta do Brennand”.

   A obra será paga pela Infraero, no valor de R$ 400 mil. A empresa explica, através de sua assessoria, que a aquisição se dá através de inexigibilidade de licitação, pois o Regulamento de Licitações e Contratos da empresa, bem como a Lei 8.666/93 e alterações, dispensam este tipo de seleção para a aquisição de obras de arte no Artigo 25. Que diz: “É inexigível a licitação quando houver inviabilidade de competição, em especial: para contratação de profissional de qualquer setor artístico, diretamente ou através de empresário exclusivo, desde que consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública”. Os 40 esboços e estudos de vários tamanhos da obra serão comprados por R$ 200 mil pelo Consórcio Odebrecht/Queiroz Galvão, que construiu o novo Aeroporto dos Guararapes, e doados ao Museu do Estado de Pernambuco.

   A idéia do painel nasceu com Fernando Dueire (secretário estadual de Infra-Estrutura), conta Câmara. O artista gostou da luminosidade e visibilidade do local, da sua volumetria e do piso de granito, que irá refletir o painel, “o que duplicará a temática do quadro”. Ele só espera que o piso continue a brilhar.

   A obra foi criada a partir de sua última exposição, Duas Cidades (1987-2001), uma reflexão memorialista sobre Olinda e Recife, que demorou 14 anos para ficar pronta. Serão ao todo seis grandes painéis e uma coluna (foto à direita), tudo pintado com tinta acrílica especial (italiana e inglesa) sobre tela na madeira para evitar danos e facilitar o transporte da obra.

   Os painéis terão 13,6 m por 3,6 m de altura e 20 m por 3,6 m de altura. E um sofisticado complexo de arestas em aço que dará à obra um peso de 3,5 toneladas. O artista já selecionou as cores que utilizará: matizes entre o azul e o gris para o fundo e tons mais fortes, como o amarelo e vermelho, para dar a sensação de que algumas figuras estão soltas na tela. Além do branco.

(© JC Online)


Figuras aladas falam de evolução

   Cinco dos seis painéis mostrarão uma figura alada de um grande Ícaro, que se soltará da tela através de um sofisticado sistema de aresta em aço criado por Abel Acioly e que dará pequena inclinação ao módulo. Os ícaros representam os cinco continentes.

   O primeiro painel mostra o Farol de Olinda, o céu azul e o único avião do painel: um teco-teco vermelho. “Não quero reproduzir a tecnologia da aviação porque os aviões estarão no pátio de manobra. Nem criar cenas de tragédia aérea, o que seria dramático demais para quem vai embarcar. E também não queria repetir o erro do afresco do artista acadêmico Cabo Freitas, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, onde os aviões ficaram antigos”. A aeronave mais moderna do afresco é um antigo DC-3. O Ícaro, lembra o artista, já está na série Duas Cidades, inspirado no monumento a Gago Coutinho na Praça Dezessete, no Bairo de Santo Antônio. Mas o imaginário do artista chegou ao ator Terence Stamp, o “Anjo” de Barbarella, filme de Roger Vadin, e no filme Voar é Com os Pássaros, de Robert Altman.

   Num outro painel, Câmara reproduz o Zepellin, presente também em Duas Cidades, mas desta vez, ao ser refletido na água, o dirigível se transforma em submarino. E traça um perfil do Recife, com seus sobrados e edifícios altos, “sem nostalgia para mostrar que a cidade, refletida, não parou no tempo”. A seleção das cenas ainda não foi encerrada. “Muitas vezes dispenso o cartão-postal do Recife para me concentrar em um detalhe”, diz. E adianta: haverá muitos pássaros, grandes e pequenos, além de sombras e rastros de vôos.

   Bem na frente do primeiro painel existe uma coluna em granito, parte da estrutura do aeroporto, que será revestida com três painéis verticais e coloridos. Ali serão pintados pássaros, balões e pipas (papagaios). E um sistema especial de iluminação, “uma leve aura azulada”, o que “soltará a coluna e criará uma unidade diferenciada” no painel. “Não será uma obra chapada, mas volumosa. E os objetos (coluna e ícaros) não estarão recortados, a pintura continuará fluindo normalmente atrás, na tela”, explica.

   O Aeroporto dos Guararapes terá outras obras de arte espalhadas pelo novo terminal: o painel em cerâmica de Francisco Brennand, Pastoral, de 1958, que estava no terminal antigo, já foi transportada com sucesso. Haverá obras de José Cláudio, Abelardo da Hora, Pedro Frederico e Gil Vicente. A escultura em bronze de corpo inteiro do sociólogo Gilberto Freyre, que dá novo nome ao aeroporto, será de Abelardo da Hora.

(© JC Online)

 

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