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Tom Zé tenta redimir pagode romântico

Tom Zé
 
Áudio
» Ave Dor Maria
» Estúpido Rapaz
» Canção de Nora
As relações homem versus mulher são o tema principal das letras de Estudando o Pagode, trabalho feito em cima do ritmo popular, mas de estrutura complexa

JOSÉ TELES

   Há 30 anos, Tom Zé gravou Estudando o Samba, disco no qual dissecava as várias nuances do gênero. Agora ousou repetir a dose, desta vez com o pagode romântico, execrado pela crítica, mas com público cativo nas diversas classes sociais, como ele descobriu por acaso: “Aqui atrás de onde moro tem um prédio de classe média alta. Tudo que é festa que acontece ali tocam pagode, já vi até cantor de pagode por lá. Então eu dormia toda noite com o pagode na cabeça, e pensava neste gênero tão humilhado, que é do povo, que vem da raiz mais digna da música brasileira, que foi transformada numa coisa facilitada, numa diluição. Se botassem Netinho, Belo, que são bons compositores, numa civilização que não fosse essa da cultura de massa, esse saco de gatos, veriam como eles fariam uma coisa completamente diferente. É esta a tese pela qual o disco foi feito”.

   O CD está chegando às lojas e chama-se Estudando o Pagode, com o subtítulo de Tom Zé na Opereta Segregamulher e Amor (Trama). São 16 tipos diferentes de pagodes, que têm como leitmotiv a relação homem versus mulher: “Mas não é feminista. É um disco masculinista”, apressa-se Tom Zé em explicar.

   A inspiração veio também de uma pesquisa comportamental sobre a sexualidade dos jovens, feita pela USP e publicada pela Folha de S. Paulo, no ano passado. Embora as canções sejam relativamente simples (no site de Tom Zé as letras estão disponíveis com cifras), os arranjos são complexos, flertando com a dodecafonia, e sonoridades inusitadas.

   Os sons agudos na abertura são extraídos de uma espécie de orquestra de pífanos feitos de folha de ficus, trabalhados pelo técnico de estúdio Gilberto Assis e depois por Jair Oliveira, ao qual Tom Zé atribui a responsabilidade por mais de metade do disco: “Conversamos muito, durante uns dois anos, mas só nos aproximamos recentemente. Eu sou um ótimo arranjador, mas Jairzinho, o filho da mãe, já chegou com os arranjos na cabeça, e fez o que eu não estava conseguindo. Foi ele que botou todo esse molho no disco”.

   O pagode de Tom Zé não teve parto fácil. Como ele não queria eco, delay, ou outros artifícios nas vozes, o técnico precisou fotografar os microfones para poder repetir a mesma colocação deles no estúdio, caso fosse preciso refazer alguma voz.

   CONSULTEENS – Preocupado em não tornar o disco hermético, com a intenção de que os seus pagodes fossem tocados nas mesmas festinhas onde pontificam os pagodeiros, o baiano convidou dois adolescentes da vizinhança para saber se sua música estava conseguindo atingir o universo deles: “Tinha problemas nos discos anteriores. Tentava fazer um disco popular, mas minhas elucubrações me levavam para um lado que todo mundo achava experimental”, confessa.

   Embora tenha chegado a refazer uma das canções cinco vezes, até agradar os consultores adolescentes (que chama de “consulteens”), ainda não foi neste disco que ele driblou as elucubrações, como chega a admitir: “Queria lidar com uma música simples, mas não tenho capacidade de lidar com isso. Tem gente que diz que um ié ié ié é fácil de fazer. Manda fazer para ver!”, desafia.

   Na faixa Estúpido rapaz há um erro induzido de acorde a fim de incitar o ouvinte. O encarte, assinado por Elifas Andreato, tem o formato de um libreto de ópera, o repertório, por sua vez, é divido em três atos, Mulheres de Apenas, Latifundiário do Prazer, e Amor Ampliado para O Teatro e para o País. As canções, compostas para duas vozes, se interligam. Personagens foram criados a partir de artistas que já viajaram pela obra de Tom Zé. Por exemplo, A cantora Mônica Salmaso é Mônica Sol-Musa, Jussara Silveira virou Mãe Jussara Saveira, e Rebeca Mata é Rebeca do Mato, que são encarnados no disco por Susana Salles, Jair Oliveira, Luciana Mello e Zélia Duncan.

   FORMAS DE AMAR – Um disco cujas letras pretendem descobrir uma forma de o homem, que Tom Zé considera um mendigo afetivo, reconquistar a confiança da mulher para conquistar todas as nudezes que a mulher oferece. Mas trata também de outras formas de amor: “Não se pode falar de amor sem falar das diversas maneiras que ele se manifesta na humanidade”, diz Tom Zé, que convidou Edson Cordeiro para cantar em Elaeu, um dueto entre dois homossexuais.

   Decididamente, as elucubrações não deram folga ao baiano. Uma das músicas tem um dueto entre Dom Quixote (Jair Oliveira), e Sancho Pança (Tom Zé), enquanto outra homenageia Adoniram Barbosa (A volta dos trem das onze). Há ainda citações a Maria Rita Kehl, à poesia concreta, à Semana de 22, e até alfinetadas em versos de Vinicius de Moraes: “Eu quis esculhambar Vinicius que era o maior machão da República de Ipanema. ‘Que seja eterna enquanto dure’! Veja que coisa machista, que malandrão. Aqueles heróis da República de Ipanema namoravam com as moças, que se enganavam com a poesia bonita dos machões”.

   O pagode de Tom Zé é muito bom, mas decidamente não é fácil. Analisando suas próprias qualidade, ele se vale do futebol, dizendo que jamais seria um Ronaldo, mas um Romualdo, hipotético e esforçado beque do interior. Por um disco instigante como este Estudando o Pagode, Tom Zé está muito mais para o irrequieto e imprevísivel Mané Garrincha.

Preço: R$ 28

(© JC Online)


Manifesto pela paz

Em novo disco, Tom Zé canta a 'Ave Maria', faz sofisticada ode ao pagode, porque ''esta é a música dos oprimidos'', e conclama os homens a viver em harmonia com as mulheres

João Bernardo Caldeira

   Afeito a experimentações, Tom Zé é testemunha assídua do dia-a-dia da história, memorizando as notícias e relatando-as impressionado. Estudando o pagode - na opereta segregamulher e amor (Trama), primeiro disco de carreira do músico em quatro anos, concilia sua verve criativa com o discurso poético engajado num tema fincado na atualidade. No disco-manifesto, o músico constata a existência de uma sociedade de dominação que marginaliza a condição feminina.

   A ode ao pagode, apresentada no título do CD, serve de ponte para que defenda as classes sociais oprimidas sem direito a estudo musical ou primário. Lutando contra o preconceito de gênero e classe social, ele se mostra tão sensibilizado com a violência do mundo quanto há dois anos, quando lançou a canção anti-guerra Companheiro Bush. Logo na primeira faixa de Estudando o pagode, aquele que foi um dos fundadores do tropicalismo abre o disco com uma Ave Maria. Com mais de 40 anos de carreira nas costas, Tom Zé agora reza pela paz.

   - Este Hitler chamado Bush representa o grande machão protestante que vilipendia toda alteridade: mulheres, pobres e religiões. Por que não sonharmos com um mundo onde homem e mulher possam conviver harmoniosamente? E também o negro, o rastafari, o oriental. Uma pesquisa da USP provou que 60% das brasileiras não gozam e sentem dor ou incômodo na hora do sexo, e os homens não estão nem aí. Se a gente reconquistar a mulher, em vez de torná-la inimiga, esse grande vale de lágrimas que inunda o planeta perderá 60% delas - prega o baiano de 68 anos, casado há 34 anos com Neusa, que será o entrevistado de hoje do programa Roda Viva, da TV Cultura, às 22h30.

   O título do CD foi pensado como uma alusão a Estudando o samba, disco de 1976 do compositor. Ele afirma que nessa época todos diziam não agüentar mais o samba, por isso decidiu defendê-lo. Agora, o músico flerta com outro gênero musical popular, mas sem deixar de colocar a sua marca dissonante:

   - Não se trata de um rompimento com o bom gosto, fiz a música mais sofisticada que podia fazer. Mas o pagode é a música das classes pobres que não têm escola nem formação estética e são submetidas a uma cultura de massa terrível e insossa. Resolvi olhar com otimismo para esse gênero e para essa população. Tenho o HIV dessa coisa ridícula chamada esperança.

(© JB Online)


'A mulher sou eu mesmo'

   O novo trabalho de Tom Zé, Estudando o pagode, começou a ser preparado há quatro anos e ainda não tem data prevista para ser apresentado nos palcos do Rio. Em 2003, ele chegou a lançar o CD Imprensa cantada, mas não se tratava de um disco de carreira, pois reunia canções lançadas separadamente. Por sugestão de João Marcello Bôscoli, presidente da gravadora Trama, o músico trocou idéias com o cantor Jair Oliveira - que acabou produzindo o disco - e a química entre os dois deu liga. Juntos criaram os variados matizes musicais do CD, enquanto Tom Zé ia imaginando as idéias conceituais:

   - Já em 2001 se decidiu que o disco seria sobre o problema da mulher, então Neusa começou de imediato a procurar leituras e textos, só para embasar um pouco a coisa - diz Tom Zé, cujo CD traz citações de livros de Maria Rita Kehl, Riane Eisler, Mary Wollstonecraft e Mírian Goldenberg.

   Como de costume, Tom Zé tenta conciliar o gosto por uma música elaborada com o ideal de que ela possa ser consumida em grande escala. Para realizar a tarefa, ele convocou os jovens de 16 anos Fernanda Dellomo e Pedro Luiz, encarregados de julgar se as composições estavam confusas:

   - Fiz em volta de mim uma cerca de arame farpado para não me permitir elucubrações. Quando a música era feita, eu mostrava pra Neusa e, se ela aprovava, eu chamava Pedro e Fernanda. Às vezes os meninos se queixavam do ritmo ou da melodia e eu jogava tudo fora. Teve música que refiz cinco vezes.

   Por trás da musicalidade supostamente simples, Tom Zé explica ter criado múltiplas possibilidades sonoras. A maior parte das faixas tem duas vozes, com duas melodias diferentes sendo cantadas ao mesmo tempo. Além disso, o músico utilizou como instrumento folhas de fícus que não obedecem à escala musical ocidental e por isso soam estranhas. Para completar, Tom Zé criou o que chama de harmonia induzida.

   - Os músicos do estúdio quando foram gravar disseram que estava muito complicado, mas depois se acostumaram - conta.

   Sua nada modesta intenção é sofisticar a música dos pagodeiros e dos jovens do país, explica ele:

   - Quero jogar esse anzol tanto nas águas mais baixas dos praticantes do pagode como nas águas mais rasas da juventude. Meu sonho é que os jovens possam cantar juntos e comecem a compor dessa maneira. E não seria surpresa que isso acontecesse no Brasil, que tem o gosto pela invenção, o país da bossa nova, do tropicalismo e do mangue bit, onde toda hora um mulato aparece no noticiário da Globo descobrindo alguma coisa sobre engenharia genética.

   Na faixa Pagode-enredo dos tempos do medo, ao se perfilar do lado do pagode, Tom Zé aponta o dedo para a bossa nova dizendo: ''A gente, além de não ter escola/ essa cultura de massa é um saco-de-gato''. Ao explicar a intenção da letra, Tom Zé faz dura crítica à realidade social brasileira:

   - Quero dizer que todo mundo anda falando mal de nós, pagodeiros, mas vocês, quando criaram o momento mais brilhante de todos os tempos da música popular brasileira, a bossa nova, tiveram direito a escola. Hoje, a classe média começa a odiar os pobres. Isso é um braço dos nazistas implantado em nossa sociedade, cada vez mais reacionária.

   Assim como os pagodeiros, a mulher é defendida por meio de uma história contada ao longo das músicas (daí a palavra ''opereta'' como subtítulo do CD). Tom Zé acredita que a relação entre os sexos opostos hoje é de inimizade e rivalidade. Apesar do avanço na área dos direitos da mulher, o homem continua um machista convicto.

   - Legal não era só quando a moça tirava a roupa na sua frente, mas quando ela tirava a roupa e entregava a alma. Hoje, a moça não entrega mais isso, ela vende pelo casamento, pelo encanto, para revista. Outra grande bobagem do século 20 é dar grande valor à beleza. Muitas vezes a mulher feia, por ter menos preconceito, está mais habilitada para conduzir o homem pelo caminho do divino - ensina.

   O músico revela que, por trás da defesa da condição feminina, Tom Zé defende ele mesmo:

   - Na verdade, a mulher sou eu mesmo. Porque sou o que menos tenho força de opinião dentro de casa. No meu primeiro dia de escola voltei com um menino me dando cascudo, foi duro o convívio social. Quando garoto, tinha outros filhos homens e até as moças eram mais opinativas e assertivas do que eu. Eu sempre fui mulher e isso criou uma solidariedade com a espécie feminina.

   Já no terceiro e último ato da opereta, a faixa Teatro (Dom Quixote) traça, em linhas gerais, os desejos e anseios de Tom Zé. Otimista inveterado, o músico analisa cruamente a dura realidade, sem jamais abandonar o tom de esperança:

   - Dom Quixote é um pouco a mulher da sociedade, um pouco eu mesmo e essa gravidez cósmica e sonhadora de um mundo globalizado pela intuição feminina. Algumas críticas a Quixote falam de uma utopia destinada ao fracasso. De qualquer forma, é um esforço de fortalecer o respeito, a bondade e o lado sonhador do espírito humano.

(© JB Online)


Samba desconstruído a cada (com)passo

Tárik de Souza

   Utilizando a mesma solução gráfica das cordas envolvidas em arame farpado da capa de Estudando o samba, de 1976, o tropicalista Tom Zé lança o CD Estudando o pagode - na opereta segregamulher e amor, em três atos, com 16 inéditas e participações de Jair Oliveira, Suzana Salles, Zélia Duncan, Edson Codeiro e Patrícia Marx. O enredo deste samba pós-feminista agrega referências que vão da tragédia grega (Medéia, Electra) em O amor é um rock ao épico espanhol Dom Quixote (Teatro), com escalas em Adoniran Barbosa (A volta do trem das onze) e Beatles a granel (''espalhar no céu/ em sonhos de papel'').

   Entre caricato e sarcástico, mas sempre tropicalista, fiel à experimentação, ele propõe no encarte a ''harmonia induzida''. Ocorre quando ''o acompanhamento fica parado na tônica e o cantor com a cumplicidade do ouvinte canta o tempo todo 'corrigindo' a harmonia''. A idéia deste experimentador compulsivo é ''tentar um canto popular com mais de um centro de referência tonal, um jogo de simultaneidades como aquele que a gente já vê em histórias em quadrinhos, filmes e outros brinquedos''. Embora tudo isso pouco tenha a ver com o pagode do fundo de quintal. E, obviamente, ainda menos com a contrafação sambrega.

   Mas o resultado é um disco que surpreende o tempo todo. Mesmo o fio condutor - o samba, familiar a qualquer brasileiro - tem o ritmo desconstruído a cada (com)passo. Entre os instrumentos, há desde os convencionais (violão, guitarra, baixo, teclados, bateria) até pente, garrafas, apitos e folha de fícus. ''As crianças dobram e amassam uma das pontas do canudo, que fica igual a uma biqueira de oboé'', ensina Tom Zé.

   Bocato reveza-se no trombone convencional e no de brinquedo e assim por diante, numa festa de timbres inusitados para ouvidos menos preguiçosos. Um tanto inspirado na militância propagada por John Lennon em parceira com Yoko Ono em Woman is the nigger of the world (72), Tom Zé fustiga em sua peça a Mulher navio negreiro. ''O macho pela vida/ se valida/ a molestar a mulher/ se diverte''. E dispara em Estúpido rapaz: ''Da mulher/ deixa de pegar no pé''.

   Aberto com citações das Ave Maria de Gounod e Bach na litania de Ave dor Maria (''mulher é o mal/ que Lúcifer bota fé''), Estudando o pagode propositalmente mistura estações, destila farpas e transfigura conceitos. ''Se você tá procurando amor/ deixe a gratidão de lado'', provoca entre lágrimas debulhadas O amor é um rock, perpassado pela guarânia brega Meu primeiro amor, sucesso de Cascatinha e Inhana.

   Já o Pagode-enredo dos tempos do medo, sudividido no libreto em alas (Coluna Prestes, Cinema Novo, Semana de 22, Poesia concreta) alista alguns bossanovistas (Vinicius de Moraes, Baden Powel, Antonio Carlos Jobim, Menescal, Ronaldo Bôscoli) e atira: ''o que te ilude/ é Roliúde''. O híbrido Elaeu, dueto entre o barítono e soprano Edson Cordeiro e o barítono Tom Zé, desfila andante na Parada Guei-LS.

   Em Vibração da carne, encordoada por violão 7 cordas, Tom Zé assume o contralto deixando o barítono a Jair Oliveira, enquanto ao fundo Luciana Paes de Barros esvai-se em ''orgasmos incontidos''. Nas síncopas pandeiradas de Para lá do Pará, a ironia chega ao sumo do verso: ''eu sei que você pensa/ que a mulher não pensa/ mas pensa''. Um pitaco de dialética para quem não é ruim da cabeça ou doente do pé.

JB Online)


CRÍTICA

Tom Zé derruba as barreiras da lógica musical em seu show

RONALDO EVANGELISTA
COLABORADOR PARA A FOLHA

   Classificado como uma "opereta" por seu autor, o novo disco de Tom Zé, "Estudando o Pagode", já nasceu com certa inclinação teatral. No texto do caprichado encarte do CD, inspirado em libretos de ópera, cada canção vem com sua letra acompanhada de especificações sobre personagens, cenas e atos. Muitas possibilidades abertas para a transposição do disco para o palco, portanto. E, realmente, com todo um "mise-en-scène" para a apresentação de cada música, o que temos são músicos/atores literalmente interpretando as canções. E Tom Zé, catalisador frenético de idéias, vestido de mendigo, sambando, rindo, dançando, derrubando o microfone, enfiando o dedo no nariz, se fazendo de bobo e conquistando o público.

   Tomando como ponto de partida e inspiração o tema da segregação da mulher, a força do feminino e o preconceito contra o pagode, o compositor vai além e mistura religião, história, filosofia, Platão, Sócrates, o preconceito, o rock, a bossa nova, "Roliúde", Adoniran Barbosa, os méritos das estradas de ferro e o que mais surgir, em um fluxo de consciência que derruba todas as barreiras da lógica tradicional, inclusive musicalmente. Com instrumentos como guitarra, baixo elétrico, violão de sete cordas, teclados com sons de folhas de fícus, bateria, pandeiro e vozes masculinas e femininas, Tom Zé se permite criar, deixando tudo fluir e achando o espaço, a hora e o lugar de cada coisa. Nada é estático e tudo é permitido.

   Intelectual e pop, Tom Zé seduz o público com facilidade. A cada gesto, todos se entregam, riem, admiram. É o ponto culminante de um momento em sua carreira em que consegue encher um teatro, de um público que o entende e se diverte com seu senso de humor, que o considera genial. Isso, depois de muitos anos sendo o incompreendido, o esquecido, o "incomercial". E, se o caminho da volta foi feito pelos gringos, que primeiro lembraram da sua genialidade e o resgataram, é no Brasil que Tom Zé pode ser ele mesmo, que pode se apresentar e cantar para um público que entende as suas referências e que fala a sua língua. Um público que não o vê como algo exótico e estrangeiro, mas simplesmente mais um típico brasileiro excêntrico.

   Tom Zé aprecia (e cultiva) uma beleza mais bela, porque mais feia. É o belo errado, sincero, humano, espontâneo, com senso de humor. Sua música é doce, ainda que esquisita. Sua sensibilidade é feminina e as mulheres são grande parte do seu público. E agora são grande parte de suas músicas, na sua opereta. Na música de Tom Zé, não há espaço para diferenças, limites, definições. Ele desconstrói o que conhece, recria novos conceitos e subverte tudo. No palco, fala de si e explica suas inspirações. O personagem se mistura com o autor. O público compartilha a experiência da apresentação e se torna cúmplice. Hoje, às 22h30, ele é entrevistado no Roda Viva, da TV Cultura.

(© Folha de S. Paulo)

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