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Festival Cine PE é uma oportunidade para o público conferir a evolução
do trabalho de profissionais do audiovisual pernambucano Mesmo sem ter um pólo de audiovisual, Pernambuco demonstra sua vocação natural para esse tipo de produção. Uma prova é a expressiva quantidade de projetos que concorrem nas categorias de curta-metragem (16mm e 35mm) do 9º Cine PE: Festival do Audiovisual, além da participação de profissionais pernambucanos em produções de outros Estados, como é caso do ator Tuca Andrada, que atua no curta paulista Amigo Secreto, do roteirista Hilton Lacerda, co-roteirista do baiano Esses Moços, e dos músicos Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) e Naná Vasconcelos, que participam da trilha sonora do mineiro Aboio. A continuidade da produção local tem revelado não apenas diretores, como se costumava destacar no passado, mas também técnicos para áreas específicas que, à medida em que se especializam – não raramente tendo que apelar para recursos alternativos a fim de superar as dificuldades de produção –, tornam-se referências e são disputados pelos autores que conseguem viabilizar seus projetos. Isso parece se tornar uma faca de dois gumes, pois chega um momento em que muitos acabam deixam o Estado para buscar maiores desafios. Entre os profissionais que ainda trabalham no Estado está João Maria Araújo, editor dos curtas O Mundo É uma Cabeça, de Cláudio Barroso & Bidu Queiroz, e Véio, de Adelina Pontual. Finalizados em 35mm, os filmes tiveram sua imagens capturadas em 16mm e em vídeo digital, respectivamente. O documentário O Mundo É uma Cabeça é quase uma lenda urbana recifense. O material filmado, que registra anos importantes do chamado movimento mangue (1996 a 1998), passou nove anos guardado na Escola de Comunicação & Artes da Universidade de São Paulo. Durante esse período, houve um incêndio e a película escapou ilesa. “Foi um grande privilégio montar esse trabalho. E uma grande responsabilidade”, afirma João Maria. A primeira dificuldade para o montador foi o fato de haver mais de um autor. “Dois diretores nem sempre pensam igualmente”, esclarece. Depois, o filme não tem uma estrutura específica. “Ele é mais uma visão de bastidores do que um documentário.” Assim, a edição passa a ser um dos principais O Mundo É uma Cabeça elementos responsáveis por dar sentido à produção. No caso de, João Maria levou cinco semanas em modo off-line, aqui no Recife, utilizando o software Final Cut. Em seguida, o espelho do filme foi levado para a Bahia onde, em um dia, foi feita a chamada ‘lista de cortes’ – espécie de mapa que possibilita a montagem final no negativo –, processo que durou mais uma semana. No caso de Véio, João Maria conta que foi mais tranqüilo por se tratar de um documentário com roteiro pré-definido. As gravações, em uma câmera de vídeo digital de 24 quadros progressivos (ideal para quem quer transpor o material para película), renderam cerca de dez horas de material bruto. A edição ocorreu inteiramente na Rec Produtores, no Recife, e, depois, o trabalho foi transferido para 35mm, em São Paulo. Enquanto montava O Mundo e Véio, João Maria recusou propostas para editar os curtas Entre Paredes e Fuloresta do Samba, que também estão no festival. “Hoje eu vivo disso. Franciscanamente, mas gosto, porque vivo de cinema”, orgulha-se João Maria, já contratado para trabalhar em dois outros curtas. (© JC Online) Trilhas sonoras têm assinatura de Lirinha, Naná e Armando Lobo Naná Vasconcelos é um dos vários músicos pernambucanos que assinam trilha sonora original de filmes em competição no 9º Cine PE, inclusive de longa-metragem. Além da ficção Entre Paredes, o percussionista divide com Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) e Elomar a música do documentário mineiro Aboio.No curta e no longa, Naná tem participações diferentes, mas que lhe são bastante familiares. “Em Aboio, utilizaram parte do meu trabalho na trilha. Em Entre Paredes, vi o copião, conversei com Eric (Laurence, diretor), pensei, fui lá e gravei”, diz o músico, por telefone, de São Paulo, recém-chegado da França. Naná também é autor da trilha do longa Espelho d’Água e já teve seus temas incluídos em produções internacionais como Orquídea Selvagem, Procura-se Susan Desesperadamente e Down by Law. Em turnê com o Cordel pelo interior de São Paulo, Lirinha conta que, ao participar da trilha de Aboio, reviveu a época em que cantava na casa de seu avô. O que ele gravou, na verdade, foram conversas e lembranças de cantigas. “Não sei como isso está trabalhado no filme”, diz o cantor. “Mas os aboiadores é que são os principais nomes da trilha”, considera. Além dos nomes locais relacionados a trabalhos bem pessoais – como Siba em Fuloresta do Samba, de Marcelo Pinheiro, e Chico Science, Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Mestre Ambrósio, Otto e Ortinho em O Mundo É uma Cabeça –, vale o destaque para a trilha de O Homem da Mata, único curta em 16mm pernambucano, de autoria de Antonio Luiz Carrilho. A música, de Armando Lobo (ex-Santa Bohêmia), foi basicamente elaborada a partir de um ponto de umbanda do personagem principal. “Ficou muito bacana”, assegura Antonio. Armando, que mora no Rio de Janeiro, falou por telefone que não quis que seu estilo se chocasse com o do personagem. “Eu quis criar em cima do estilo dele”, diz o músico, que compôs quatro temas diferentes. ROTEIRISTA – Mas não é só na música que o audiovisual utiliza artistas pernambucanos ‘modelo exportação’. Fazendo jus à tradição de bons roteiristas – que revelou nomes como João Falcão, Guel Arraes e George Moura para a dramaturgia nacional –, o Estado está bem representado por Hilton Lacerda, co-roteirista do longa Esses Moços, de José Araripe. Hilton, que escreveu roteiros de filmes como O Baile Perfumado, Amarelo Manga, Árido Movie e Koster, e vive na ponte-aérea Rio-São Paulo, acredita que o cinema pernambucano tem se estabelecido como referência devido a sua criatividade e credibilidade. “É fruto do desenvolvimento que temos feito”, afirma. (© JC Online) Jane Malaquias fotografa idéias alheias Profissional bastante requisitada no mercado de audiovisual pernambucano, a cineasta Jane Malaquias assina a direção de fotografia dos curtas-metragens Êxito de Rua, de Cecília Araújo, e Véio, de Adelina Pontual, no 9º Cine PE. Apesar de cearense, Jane trabalha no Recife há vários anos, desde que voltou da Escuela Internacional de Cine y TV (Cuba), onde conheceu Adelina e assinou a direção de arte do curta El Monstruo, da pernambucana.Mesmo cultivando uma parceria de vários anos com Cecília e Adelina (da primeira, fez a direção de fotografia do curta Vitrais, da segunda, a fotografia de Cachaça e O Pedido), com Êxito de Rua e Véio Jane Malaquias viveu as primeiras experiências rodando trabalhos em vídeo digital utilizando imagem desentrelaçada em 24 quadros progressivos. Com cada diretora, por um motivo diferente. “Desde o início, Adelina queria fazer em vídeo”, revela a fotógrafa. “Já Cecília fez um orçamento e, no fim, viu que não dava para fazer em película. Essa sua desilusão, inclusive, está no filme”, conta, gerando um certo suspense. “Ao mesmo tempo, é a abertura para uma nova tecnologia e para recursos que, em cinema, sairiam muito caros.” A exemplo do processo de edição explicado pelo montador João Maria Araújo, Jane conta que as gravações de Véio foram bem tranqüilas, por trabalhar um único personagem e poucas locações. “Em Êxito, a gente estava correndo sempre atrás dos acontecimentos”, lembra a cineasta, que no primeiro dia de gravação enfrentou o imprevisto da prisão de três personagens. Neste aspecto da imprevisibilidade, Jane ressalta que o vídeo dá mais agilidade. Depois de Êxito e Véio, Jane teve a experiência de rodar um filme em bitola Super 16 para ampliar para 35mm – o curta de ficção Koster, de Carla Francine & Germana Pereira, que está em fase de finalização. “Cada filme é um filme. É sempre um aprendizado”, diz a fotógrafa, que já havia feito processo semelhante na França e está ansiosa para ver o resultado aqui no Brasil. Para os pernambucanos, resta apenas uma triste notícia: a diretora está preparando as malas para ir morar em Brasília. Contudo, afirma que isso não a impedirá de trabalhar em projetos daqui. Apesar da saída de Jane Malaquias do Estado, o número de mulheres atuando na produção de audiovisual só tem crescido. No supracitado Koster, por exemplo, a fotógrafa trabalhou com a produção executiva de Isabela Cribari que, no próximo Cine PE, produz a ficção Entre Paredes, de outro cearense radicado em pernambuco, Eric Laurence, e Vinil Verde, Kleber Mendonça Filho. Em Entre Paredes, Isabela e Eric conseguiram convencer o percussionista Naná Vasconcelos a elaborar uma trilha sonora original para um curta-metragem pernambucano. Um desafio, dado o prestígio e a ocupação que o músico tem hoje. (© JC Online) Mostra itinerante prossegue hoje no Morro da Conceição A exibição de curtas e longas ao ar livre, sem cobrar ingresso, faz parte da programação do Cine PE Festival do Audiovisual, que terá início quarta-feiraSe a comunidade não pode ir ao cinema, o cinema vai à comunidade. E de graça. Essa é a proposta da Mostra Itinerante do Cine PE Festival do Audiovisual, que prossegue hoje, às 19h, no Morro da Conceição, em Casa Amarela. A população carente de um dos bairros mais populosos da cidade e arredores, logo mais, vai poder acompanhar a exibição de Véio, um curta no qual a diretora pernambucana Adelina Pontual registra uma galeria de arte a céu aberto, no interior do Sertão sergipano, fruto do trabalho de Cícero Alves dos Santos, o Véio, um artesão interessado em mitologia, animais e extraterrestres. Em seguida é a vez de Visita Íntima, documentário de Joana Nin que mostra o amor em condições especiais: mulheres livres que mantêm relacionamentos estáveis com presidiários e que se conheceram por cartas, anúncios de jornais etc. O longa-metragem programado para hoje é Pelé Eterno, no qual o diretor Aníbal Massaini mostra, através de documentário, os melhores momentos já vistos, e muitos outros inéditos, sobre o maior jogador de futebol de todos os tempos: o rei Pelé. No elenco: Celeste Arantes, Assíria Nascimento, Gordon Banks, Franz Beckebauer, Belini, Paulo César Caju, Roberto Carlos e Clodoado. Viva São João, documentário de Andrucha Waddington, fecha a programação. O filme é conduzido pelo cantor e ministro Gilberto Gil, mostrando o resultado de 15 dias de filmagens, viajando num avião Bandeirantes pelo interior do Nordeste em busca do que há de mais tradicional e moderno nas festas juninas. Os curtas-metragens exibidos hoje estão na grade da mostra competitiva do Cine PE Festival do Audiovisual, que ocorrerá de 13 a 19 próximo, no Teatro Guararapes, no Centro de Convenções, em Olinda. Já os longas-metragens escolhidos são produções recentes que participaram de edições anteriores do Cine PE e/ou passaram pelas salas comerciais de cinema. Nesta edição, o tema do festival será “Música e Cinema – Magia e Paixão”, evidenciando duas das mais fortes vocações culturais da capital pernambucana. A grande novidade deste ano ficará por conta da Mostra Competitiva de Vídeos Digitais Pernambucanos, uma forma que a organização encontrou para estimular a produção deste tipo de trabalho no Estado. Com uma grade formada por cerca de 60 filmes, sendo a cartela de longas-metragens quase 100% inédita, a expectativa dos organizadores é manter a marca de evento com maior número de público do circuito de festivais de cinema. Estão sendo aguardadas diariamente 2,5 mil pessoas, em média, no Teatro Guararapes, o que deverá totalizar 18 mil pessoas só nas mostras competitivas, exibidas à noite. Somando os públicos da Mostrinha, Mostra Itinerante e dos Seminários, o total deverá chegar a 30 mil pessoas. (© JC Online)
Confira a programação geral do Cine PE
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