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SCHNEIDER CARPEGGIANI De “sobrenome” novo, Aparelhagem, o DJ Dolores (Helder Aragão), lança agora o seu segundo CD homônimo, DJ Dolores: Aparelhagem. No Brasil, ele sai como primeiro rebento do selo do produtor, Azougue (em parceria com a Nave Produções), e no exterior, sob as asas do Ziriguiboom, o mesmo de Bebel Gilberto. Sem amarras corporativas, o artista fixado em Pernambuco com maior visibilidade nesta década diz que estes são tempos de usar a criatividade na hora de se negociar com música. “A criatividade que um artista precisa exercer na hora de fazer negócio com seu trabalho tem de ser a mesma que ele usa na hora da criação. Estes são tempos de MP3, em que os caminhos para se ganhar dinheiro com a arte estão mudando”, declarou o artista. Distribuído pela Trama, o disquinho chega às lojas a partir de segunda-feira. Quando questionado de quanto o cara terá de desembolsar para levar o seu CD para casa, Helder deu uma risada amarela e disse não ter a menor idéia – “Eu queria que ele fosse vendido por R$ 10 ou por R$ 5 (risos).” Ao falar em R$ 5, o DJ Dolores fala do valor cobrado pela corporação de lojas de discos mais “recheada” do Recife - os camelôs, que vendem CDs piratas tanto pelo tumulto da Boa Vista quanto pelo chope e camarão com vista para o mar de Boa Viagem. Com R$ 2 a mais, no Pará, você pode comprar toda a obra de um artista em ambulantes - esses ainda mais “sofisticados” que os nossos - que se anteciparam à indústria ao descobrir a força do MP3. “Os músicos de brega do Pará ganham dinheiro ao vender seus discos para os camelôs. É uma indústria que sobrevive dela mesma. Se a classe média consumir, tudo bem, mas ela é independente. A mesma coisa ocorre com o funk carioca. O Brasil precisou de mais de 20 anos para descobrir o DJ Marlboro, que nunca precisou assinar com nenhuma grande gravadora para ter uma carreira estável”, realçou Helder. O DJ Marlboro, inclusive, é hoje residente da boate paulistana Lov.e, dentro do circuitão de casas noturnas classe A da Vila Olímpia. Ele foi aceito pelos ricaços, mas o funk continua sendo feio, forte indicador de subúrbio. Assim como o brega do Norte do Brasil, que é uma das referências da Aparelhagem. “O Brasil tem essa coisa de frisar o bom gosto, de dizer que as coisas que nascem do subúrbio não prestam. Quando na verdade a troca entre centro e periferia é fundamental e não deixa de acontecer”, frisa. Mesmo sendo um dos artistas mais importantes da nova música brasileira, Helder não está lá muito interessado na conexão Brasil-França, que este ano anda atiçando o desejo de tudo o que é cantor/grupo brasileiro. “Fizemos algumas apresentações na França este ano. Mas não estou tão interessado assim nisso, não. Em geral, o povo que vai para esse tipo de evento é careta, quer bossa nova, o clichê de ser brasileiro”, completa. (© JC Online) Para a Aparelhagem, identidade é puro combate Agora acompanhado da Aparelhagem, o DJ Dolores chega combativo ao seu segundo CD. O disco fala de cantadores de ônibus sem nada na vida, de “cigarros proibidos”, da dança acústica dos caboclos nos arredores imundos da RMR, de hotéis baratos, cata frases do Raul Seixas e até reapropria o brega do Pará, em um mix que nas palavras do próprio produtor lembra house music - quando essa música era a trilha sonora da diversão e do protesto da juventude pobre, gay e latina das grandes cidades dos Estados Unidos do começo dos anos 80.Ao fixar todas essas influências em seu disco, o DJ Dolores faz uma espécie de manifesto contra a tirania do bom gosto e do previsível, que costuma pairar na cabeça do pop brasileiro, e promove um CD que, claro, vai ser ouvido e apreciado por gente que de forma alguma iria ouvir a fonte de onde ele bebeu. Mais ou menos o que o grupo cult paulistano Tetine fez ao reapropriar o funk carioca canalha e explícito em seu novo trabalho, Bonde do Tetão - elogiado até por quem nunca se importou em saber o que danado a funkeira Tati queria tanto dizer com quebrar barraco. Identidade é combate, identidade de subúrbio mais ainda - parece querer dizer o DJ Dolores, que bateu nessa mesma tecla quando ainda tinha o sobrenome de Orchestra Santa Massa. E por falar no projeto anterior do produtor, quem gostava dele antes, vai ter agora a reconfortante sensação de reencontro marcado e esperado. A Aparelhagem não larga de vez a sombra do seu antecessor, mas agora vem com um repertório mais calcado na melodia das canções. Bom para ser ouvido em casa, bom para dançar e até meio melancólico aqui e ali, com a voz de Isaar falando de angústias sociais e amorosas, em faixas que grudam fácil na memória, como De dar nó, Trancelim de Marfim e na acelerada Azougue - que só não são canções radiofônicas, porque as rádios brasileiras ainda não acordaram que o padrão “acústico MTV” não é eterno. Mas quem disse que um artista independente hoje, como é o caso do DJ Dolores, precisa de FM? Nem de grandes gravadoras eles precisam mais. O momento agora é outro: disco, música, loja de CDs, isso tudo em breve evapora no ar, nesses tempos de tecnologia “líquida”. Seriam necessárias páginas e páginas de texto para explicar tudo o que há por trás das intenções das canções de DJ Dolores: Aparelhagem (algo que o próprio Helder faz ao relatar/disfarçar a historinha por trás de cada canção no encarte), mas ainda bem que a sua música fala e diverte o ouvinte por si só, sem grandes dificuldades. (S.C.) (© JC Online) |
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