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Hugo Carvana,
Danuza Leão, Zelito Viana e Luiz Carlos Barreto, no Parque Lage |
Eduardo Simões e Jaime Biaggio
Glauber Rocha era uma criatura exasperante, capaz de deixar qualquer um
doido. Quem diz? Acima de tudo, sua obra. Pegue por exemplo “Terra em
transe”, de 1967, que o Grupo Novo de Cinema vai lançar em DVD e relançar em
cinemas em breve. A câmera e a edição são nervosas, até caóticas. Caprichos
como foco e continuidade podem ser eventualmente dispensados. E os atores
parecem possuídos pelo demo. Estavam.
— A técnica dele era te levar ao paroxismo. Quando você estava com os nervos
estraçalhados, com lágrimas querendo sair dos olhos, aí ele te considerava
pronto — define Hugo Carvana.
Num elenco com tantas peças-chave que já morreram (Jardel Filho, Paulo
Gracindo, José Lewgoy, Glauce Rocha...), Carvana é um dos sobreviventes
convidados pelo GLOBO a dividir suas lembranças da produção no Parque Lage,
uma das principais locações do filme. Ele conta que certa vez levou um
tabefe de Glauber na cara, meio segundo antes de entrar em cena. A idéia do
diretor era justamente desestabilizá-lo. Deu certo: ele precisou se
controlar muito para não revidar.
Já Lewgoy, em telefonemas diários ao produtor Zelito Viana na pós-produção,
não se controlava. Berrava.
— Tá pensando o quê?! Ele não é Bresson, não é Dreyer! É um baiano
safado!!
Aí, depois de uma pausa, num fio de voz, arrematava:
— A que horas eu dublo amanhã?
Foi um caos. Hoje é um marco do cinema brasileiro. A versão restaurada que
vai para o circuito foi aclamada no Festival de Brasília, ano passado, e
exibida este ano no de Berlim e em Paris. Na capital francesa, abriu um
festival de 15 dias totalmente dedicado a Glauber.
— Foi bom... — resume Carvana. — Eu aprendi uma outra técnica de
representação. Depois fiz mais três filmes com ele (“O dragão da maldade
contra o santo guerreiro”, “O leão de sete cabeças”, ambos de 1969, e
“Câncer”, de 1972).
Paulo Autran — no filme, o ditador Porfírio Díaz — só fez esse mesmo. E foi
por pouco.
— Demite esse cara! Ele é um chato, não dá para trabalhar com ele! — disse
Glauber a Zelito, no primeiro (primeiro!) dia de filmagem.
O crime: Autran tinha sugerido duas vezes (duas vezes!) ao diretor que
colocasse a câmera em determinado lugar. Na terceira sugestão, recebeu o
bilhete azul. Mas não levou.
— Eu fui, todo sem jeito, explicar a situação ao Paulo, “sabe como é gênio,
né?” — conta Zelito. — Ele me disse: “Não, imagina, não falo mais nada!”
Cachê zero, mas lautos almoços
Para chegar a Paulo Autran, o diretor foi a algumas apresentações do ator na
peça “Liberdade, liberdade”, na época em cartaz no Rio. Glauber esteve
várias vezes no teatro antes de abordá-lo:
— Quando foi a primeira vez e saiu sem falar, achei que não tinha gostado —
lembra o ator. — Ele voltou outro dia, ficou pulando de um lugar para o
outro, incomodando as pessoas, e mais uma vez não falou. No terceiro,
deitou-se no chão e olhava para a minha cara. Achei que tinha enlouquecido
de vez. Mas foi aí que ele veio com o convite.
Francisco Milani, que vive o Revolucionário, e até então só fizera um filme,
diz que muitas vezes ficou confuso com a direção de Glauber. Apelou para a
intuição nas filmagens, como quando coletou quase 30 canetas da equipe e se
fez passar por um camelô numa feira em Caxias, para reunir gente para uma
cena de multidão. Ou quando, numa filmagem no apartamento de Rubem Braga, em
Ipanema, com Jardel Filho, teve como orientação de Glauber só gestos com os
braços, sem muito sentido.
— Ator de teatro precisa conversar, trocar idéias. No cinema isso não existe
e, para Glauber, muito menos. Os mais tarimbados tiraram de letra, mas eu
estava começando.
E Danuza Leão, então, que nem atriz era?
— Eu, tímida, não conseguia dizer minhas falas! Glauber virou e disse “Então
vai mudo mesmo!”. E é por isso que eu não falo uma palavra no filme!
Quase nenhum deles foi pago. Zelito diz que só o operador de câmera Dib
Lutfi, o homem- steadicam , recebeu pelo seu trabalho no filme.
Carvana e Danuza dizem ter recebido também. Ou mais ou menos.
— Eu fui paga — corrige Danuza. — Com cheque sem fundo. Paguei uma plástica
no Pitanguy com esse cheque, e o cheque voltou.
Foi lucro. Clóvis Bornay, que só fez o filme mediante a promessa de um valor
dez vezes maior que o pago aos outros, está esperando até hoje. Mas uma
coisa é certa: todo mundo almoçou e jantou muito bem no set.
— Foi o filme em que melhor se comeu na história do cinema brasileiro —
lembra o produtor e diretor de fotografia Luiz Carlos Barreto. — A gente não
tinha dinheiro para contratar uma empresa de alimentação. Por isso, eu e
Zelito, que tínhamos cartão de crédito Diner’s (na época, um luxo de
poucos), levávamos a equipe para jantar nos restaurantes mais
sofisticados. O Diner’s bancava.
Depois do almoço, ao menos duas vezes por semana, filmagens só até as três
da tarde. Depois disso, lá iam Barreto, Zelito e o próprio Glauber para o
banco negociar o dinheiro para as filmagens da semana seguinte. Volta e
meia, o trio trabalhava de terno e gravata por conta disso. Havia ainda o
problema do negativo. Cada hora vinha de procedência diferente,
freqüentemente duvidosa. E para Glauber não fazia diferença.
— Chegou uma hora em que comecei a regular o filme. Vi que a grana que eu
arranjava, ele torrava imediatamente — diz Zelito.
(©
O Globo)
O segundo início de uma série
Restauração e disponibilização em DVD de toda a obra do pai é o projeto
ambicioso de Paloma Rocha, filha de Glauber. A Petrobras e o Grupo Novo de
Cinema já estão comprometidos a encampar parte dele: além de “Terra em
transe”, o patrocínio da estatal e o trabalho do Grupo Novo devem garantir a
entrega até 2006 de DVDs e cópias restauradas em 35 mm de “Barravento”, “O
dragão da maldade...” e “A idade da Terra”, o último filme de Glauber, de
1980. Para garantir, os três filmes estão sendo restaurados simultaneamente,
por estúdios diferentes.
“Deus e o Diabo...”, por sua vez, já existe em DVD, com imagem
esplendidamente restaurada, há dois anos. Na época, o projeto era encampado
pela Riofilme, em parceria com a distribuidora Versátil, a mesma que tem
lançado em DVD clássicos do cinema europeu (em especial, o italiano) da
segunda metade do século 20. Arnaldo Carrilho, então presidente da Riofilme,
capitaneou a produção daquele DVD. Planejava-se que fosse o primeiro disco
de uma série.
Nem Carrilho está mais na Riofilme nem a Riofilme está mais no projeto. A
Versátil também não. Os DVDs de “Terra em transe” e dos outros filmes
deverão inaugurar o selo próprio do Grupo Novo, a ser distribuído pela
Europa Filmes. E “Câncer”, “Cabeças cortadas” e “O leão de sete cabeças” em
formato digital, por enquanto, permanecem apenas na condição de sonhos de
Paloma.
(©
O Globo)
A nova obra de um artista consagrado
Em 1967, o ano em que “Terra em transe” foi lançado, Glauber Rocha já era um
nome consagrado no cinema brasileiro. E isso com somente dois longas
anteriores, “Barravento”, de 1962, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de
1964. Com o primeiro, ele se tornou uma revelação; com o segundo, assumiu o
posto de maior cineasta do país na percepção da crítica e de seus pares.
Glauber tinha ainda no currículo alguns curtas e médias-metragens, sendo o
mais recente deles “Maranhão 66”, que faz parte do disco de extras do DVD de
“Terra em transe”, e documenta a posse do jovem José Sarney no governo do
Maranhão em 1966.
— Nós conseguimos um financiamento do Banco do Estado do Maranhão para
“Terra em transe”, e o Sarney disse que queria fazer um doc sobre a
posse dele, e me perguntou se Glauber toparia fazer — diz Luiz Carlos
Barreto. — Ele fez e, no fim das contas, há até duas cenas de multidão, em
“Terra em transe”, que foram tiradas deste documentário.
A passagem por Cannes não rendeu ao filme prêmios oficiais (só ganhou o da
crítica internacional, mesmo assim dividido com um filme iugoslavo).
Contudo, a boa receptividade preparou o terreno para o reconhecimento, que
viria dois anos depois com “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”.
Nesta ocasião, sim, Glauber levaria a Palma de melhor diretor (novamente
dividida, desta vez com o tcheco Vojtech Jasny, por “All my good
countrymen”). “Terra em transe”, porém, teve diversos outros prêmios em
festivais nacionais e internacionais (Havana e Locarno).
Depois de “O dragão da maldade...”, o diretor entraria na fase internacional
de sua carreira, com “Cabeças cortadas” e “O leão de sete cabeças”.
(©
O Globo)
Filme chegou a Cannes como contrabando
E, no entanto, Glauber podia ser extremamente econômico em dados momentos.
Quando estava com a energia a mil e não queria interromper o trabalho, não
havia filigrana de produção que o interrompesse. Numa seqüência, o roteiro,
megalomaníaco, mencionava o encontro de três escolas de samba. Bem, no
filme, se você vir juntos um negro, um índio e um português, são as três
escolas de samba, ou sua representação glauberiana.
— Houve uma cena que ficou inutilizada por problemas no negativo. Glauber a
refez noutra locação, com outros atores — conta Zelito Viana. — O mais
engraçado é o (Paulo César) Pereio, que ele escalou para aparecer
entre os seguidores do Porfírio Diaz. E a gente dizendo para ele “mas,
Glauber, não pode, ele já aparece em outra cena como um dos revolucionários,
contrários ao Porfírio Diaz”. Glauber não quis nem saber. Tá lá no
filme o Pereio dos dois lados, contra e a favor do Porfírio.
O filme foi lançado em 15 cinemas do Rio
Após a estréia, em 8 de maio de 1967, lá estavam dois lados, a esquerda
moderada e os partidários da luta armada, atacando o filme. Para os que
combatiam a ditadura dentro da ordem constitucional, “Terra em transe”
estimulava a pegar em armas; para os que efetivamente planejavam pegar em
armas, era um filme alienado, não didático o suficiente. E a maioria do
público alheio à discussão política entendia o filme menos ainda. O que não
o impediu de ter uma estréia forte, badalada. E o que é melhor, de
sustentá-la, já que o impacto sensorial do filme dispensava maiores
explicações formais.
— O público universitário tinha uma leitura política do filme. E o grande
público era conquistado pelo senso de espetáculo, pelo tom épico — diz Luiz
Carlos Barreto.
— Lívio Bruni ( exibidor que tinha uma cadeia de cinemas na época )
lançou o filme em 15 salas só no Rio de Janeiro. — complementa Zelito. —
Lembro-me de um papo com o Chris Marker (diretor francês) em que eu
contava isso e ele não acreditava. “Não, você quer dizer 15 salas no Brasil,
certo?”. “Não, 15 salas no Rio.” “Mas este filme?? Como é possível??”
E como foi possível?
— Antes do lançamento, “Terra em transe” era primeira página de jornal todo
dia — diz Zelito. — Por causa da história da Censura.
Embora o arrocho pós-AI5 ainda estivesse por vir, nem por isso “Terra em
transe” deixou de ser integralmente proibido pela Censura. E as negociações
que levaram à sua liberação são mais herméticas do que qualquer coisa que
Glauber tenha posto na tela.
— Fomos eu e Glauber na Censura conversar com o coronel Moletalle, oficial
de Cavalaria — lembra Barreto. — No que apresentei o Glauber, o coronel
imediatamente disse: “Estou lhe enquadrando na Lei de Segurança Nacional,
porque o senhor declarou aos jornais que eu sou nazista”.
Militar confundiu Glauber com Glauce Rocha
A atriz Glauce Rocha tinha feito a tal declaração. E foram necessários
alguns minutos para o coronel entender que 1) Glauce não era Glauber e 2)
também não era esposa, irmã, nem nada dele. No fim das contas, nem um nem
outro foi enquadrado. “Desta vez”, o coronel deixou passar.
“Vocês não sabem que estamos numa ditadura?” — foram as palavras do coronel,
de acordo com as lembranças de Barreto.
— “Ditadura? Não, senhor, imagine”, dissemos. Aí ele começou a nos perguntar
se considerávamos a Rússia uma ditadura, ou Portugal, e nós dois
respondíamos “sim, sim” — continua o produtor. — “E o Brasil, não?”. “Não...
É um regime forte! Mas é democrático, taí o Congresso
funcionando!”, respondeu Glauber.
Findo o preâmbulo, entrou-se no assunto. Os dois pediram a liberação do
filme. Explicaram se tratar de um filme de arte, de uma obra importante etc
e tal. O coronel, que não tinha visto o filme, disse que não pretendia
assisti-lo.
— Ele disse que detestava esse negócio de arte. Disse que iria nomear uma
comissão para rever o caso e que a gente mostrasse o filme para eles e
“explicasse bem, porque eles são meio burros”.
O filme foi liberado sem cortes. Resolvido?
Não. De volta para a mesa do coronel Moletalle.
— “Temos um problema agora”, ele me disse — continua Barreto. — “Pedi
pra explicarem o filme, vocês explicaram bem demais. Agora como é que
eu vou explicar que um filme é interditado e depois é liberado sem cortes?”
O problema, portanto, era encontrar um problema. A solução, ou melhor, o
problema, foi o personagem do padre Gil, vivido por Jofre Soares. Até então,
era apenas o Padre (como Mário Lago era o Capitão, Modesto de Souza, o
Senador, Flávio Migliaccio, o Homem do Povo etc).
— A Censura exigiu que o padre tivesse um nome, para que não fosse visto
como a representação da instituição Igreja — diz Zelito. — Se ele fosse
caracterizado como um padre específico, ok . Virou Padre Gil, em
homenagem ao Paulo Gil Soares, que era o diretor de arte.
Lewgoy chegou em Cannes com as latas na bagagem
Enquanto a novela da liberação transcorria, Cannes esperava. O festival, que
naquele ano ocorreu entre 27 de abril e 12 de maio, tinha convidado o filme
para participar. Só que, como a Censura não o havia liberado, ele não podia
sair do país. Saiu do mesmo jeito, latas escondidas na bagagem de José
Lewgoy, feito muamba. O clima era de conspiração internacional.
— Tinha gente do festival na plataforma de desembarque esperando, para
garantir que o Zé Lewgoy passasse pela Alfândega — diz Barreto.
A liberação saiu no dia da sessão oficial (a de imprensa, no dia anterior,
portanto, foi a rigor uma sessão clandestina, irregular). Havia, no entanto,
a possibilidade de uma autorização específica para a exibição no festival,
para o caso de a liberação geral não ocorrer a tempo. Para isso, a produção
tinha um telegrama de um alto funcionário do Itamaraty, autorizando a
sessão, em nome das boas relações diplomáticas entre Brasil e França.
Desde que o tal funcionário não ficasse sabendo, funcionaria. Porque ele
nunca ditou o tal telegrama.
— Eu gelei quando vi o texto — lembra Zelito. — Percebi na hora que aquilo
era coisa do Glauber. (Jaime Biaggio)
(©
O Globo)
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