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Dois pernambucanos em Cannes

Cena de Cinema, Aspirinas e Urubus
 

Longa-metragem Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes (acima), e o curta Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho (ao lado com a equipe) representam o Brasil no festival francês, em maio

   Cinema, Aspirinas e Urubus, longa-metragem do pernambucano Marcelo Gomes, e Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, crítico de cinema do Jornal do Commercio, representam o cinema brasileiro no Festival de Cannes 2005, que será realizado de 11 a 22 de maio. O longa integra a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar), o curta entrou na mostra Quinzaine des Realisateurs (Quinzena dos Realizadores), que trazem para Cannes o cinema de todo o mundo.

   É a primeira vez na história que o cinema pernambucano participa de Cannes dentro das quatro principais mostras que compõem o festival, e logo com dois filmes. Um outro longa de realizador nordestino também está no Un Certain Regard – Cidade Baixa, do baiano Sérgio Machado, que dirigiu há três anos o documentário Onde a Terra Acaba.

   Cidade Baixa narra um triângulo amoroso entre uma prostituta e dois amigos. Aos 36 anos de idade, Sérgio Machado se anima com possíveis portas abertas. “A coisa que mais gosto de fazer é filmar, e imagino que Cannes possa contribuir para meu próximo filme”, diz.

   O filme de Marcelo Gomes é uma história sobre a amizade que surge entre dois homens de culturas completamente diferentes. O diretor conta que o argumento do longa surgiu de uma conversa entre ele e seu tio Ranulpho Gomes, um paraibano que, nos anos de 1940, depois de enfrentar secas contínuas, decidiu migrar para o Sudeste brasileiro, onde esperava encontrar uma perspectiva de vida melhor.

   No filme, em sua jornada, Ranulpho conhece o alemão Johann, que também havia migrado, fugindo de seu país antes mesmo que este fosse consumido pela Segunda Guerra Mundial. Johann viaja pelo Brasil como caixeiro viajante, vendendo “a cura para todos os males”: a Aspirina. Em uma de suas viagens pelo sertão nordestino, seu caminho cruza com o de Ranulpho. É desse encontro, dessa viagem compartilhada por esses dois personagens, que nasce Cinema, Aspirinas e Urubus, um filme que retrata o cotidiano dessa experiência, os encontros com outros viajantes, as conversas, os perigos, as ameaças e, finalmente, a construção de uma amizade entre pessoas de culturas tão diferentes.

   Rodado no sertão nordestino, o filme pode ser definido como um trabalho em que todos os recursos empregados estão em função dos personagens, da fotografia aos diálogos, passando pela direção de arte e trilha sonora. “É um filme de personagens, em que a câmera está o tempo todo à disposição deles”, explica Gomes.

   Cinema, Aspirinas e Urubus é uma co-produção da pernambucana REC Produtores e Dezenove Som e Imagens. O filme marca a estréia de Marcelo Gomes na direção de longa-metragens, sendo também o primeiro longa do fotógrafo Mauro Pinheiro Júnior e do ator João Miguel, que vive o sertanejo Ranulpho. A direção de Arte é de Marcos Pedroso (Bicho de Sete Cabeças, Madame Satã), a montagem da pernambucana Karen Harley (Janela da Alma) e a produção de João Vieira Júnior, Sara Silveira e Maria Ionescu.

   O filme está orçado em R$ 2,5 milhões, dos quais 60% foram arrecadados por meio de patrocínio do BNDES, Petrobras, Brasil Telecom e Companhia Energética de Pernambuco (Celpe). O filme tem o apoio do Governo de Pernambuco e da Prefeitura Municipal de Recife, por meio dos sistemas de incentivo à cultura locais. A Huberts Bals Fund, da Holanda, e a Global Foundation participaram dos processos de criação do roteiro e finalização do filme que no Brasil será distribuído pela Imovision.

   “Estou feliz por ser meu primeiro filme e por ser o primeiro filme de 70% das pessoas envolvidas com esse projeto”, disse Gomes, falando por telefone, ontem, de São Paulo. “De João Júnior, produtor, ao fotografo Mauro Pinheiro e os atores. Ter o filme numa mostra tão seleta significa ter excelente exposição, pois é a melhor vitrine do mundo para se ter um filme, e isso será importante para divulgar um longa que terá pouco dinheiro de divulgação.”

   EXPOSIÇÃO – Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, um dos destaques do Cine PE: Festival do Audiovisual (encerrado ontem), é um filme experimental, rodado por meio de cerca de 500 fotografias e montado no computador. A edição – assinada por Daniel Bandeira e Mendonça Filho –, por sinal, é um dos trunfos do curta-metragem, cujo roteiro, escrito a quatro mãos pelo diretor e pela ucraniana Bohdana Smyrnova, é inspirado no conto russo As Luvas Verdes.

   Mendonça Filho acredita que a participação em Cannes se deu após a repercussão no festival de Tamtere, na Finlândia, considerado o terceiro maior da Europa. “Acordei ontem (segunda-feira) e tinha um e-mail solicitando agilizar o envio da cópia para exibição na Quinzena dos Realizadores”, afirma Mendonça Filho.

   “É muito importante. Toda fauna de cinema freqüenta essas mostras. A exposição é muito grande.”

   MAIS BRASILEIROS – Além dos longas-metragens Cinema, Aspirinas e Urubus e Cidade Baixa, e do curta Vinil Verde, outros dois curtas marcam presença na Riviera Francesa: O Lençol Branco, de Juliana Rojas & Marco Dutra, será exibido na Cinéfondation, competição da seleção oficial dedicada a filmes de estudantes, e Da Janela do Meu Quarto, de Cao Guimarães, que também participa da mostra paralela Quinzaine des Realisateurs ao lado do filme de Kleber Mendonça Filho.

   Serão, portanto, pelo menos cinco brasileiros em Cannes, representação que ainda pode aumentar com os anúncios completos das sessões especiais da mostra oficial e das seleções da Quinzaine e da Semana da Crítica, a serem feitos nos próximos dias.

   Nenhum filme brasileiro disputará a Palma de Ouro. A única produção latino-americana em competição é a mexicano Batalla en el Cielo, de Carlos Reygadas – que há dois anos participou da Quinzena dos Realizadores com Japão, seu filme de estréia.

   Cinco cineastas que já ganharam a Palma participam da competição: Lars von Trier (Manderlay), Wim Wenders (Don’t Come Knockin’), Gus van Sant (Last Days, recriação ficcional dos últimos dias de Kurt Cobain) e os irmãos Jean-Pierre & Luc Dardenne (L’Enfant).

   Outros habituées tentando a Palma são Jim Jarmusch, David Cronenberg, Hou Hsiao Hsien, Atom Egoyan, Michael Haneke e Amos Gitai (foram polêmicas as filmagens de Free Zone, de Gitai, no Muro das Lamentações, em Jerusalém).

   Na disputa, as maiores surpresas foram a escolha do primeiro filme do ator Tommy Lee Jones como diretor (The Three Burials of Melquiades Estrada) e uma produção iraquiana (Kilometro Zero, de Hiner Saleem).

   O filme de abertura será Lemming, de Dominik Moll (Harry Veio para Ajudar). Fora de competição estão Star Wars 3: A Vingança dos Sith e Match Point, primeira comédia de Woody Allen na Inglaterra.

   Chromophobia, de Martha Fiennes, encerra o festival, compensando por nenhum filme dirigido por uma mulher e nenhum inglês estarem competindo.

(© JC Online)


CINEMA

Mostra Um Certo Olhar exibe "Cinema, Aspirina e Urubus" e "Cidade Baixa"

Cannes escolhe 2 estreantes do Brasil

PEDRO BUTCHER
CRÍTICO DA FOLHA

   Dois brasileiros foram confirmados ontem na seleção oficial do Festival de Cannes, que começa no dia 11 de maio, na França. "Cidade Baixa", do baiano Sérgio Machado, e "Cinema, Aspirina e Urubus", do pernambucano Marcelo Gomes, serão exibidos na mostra paralela Um Certo Olhar.

   Também haverá três curtas: "O Lençol Branco", de Juliana Rojas e Marco Dutra, será exibido na Cinéfondation, competição da seleção oficial dedicada a filmes de estudantes, e a mostra paralela Quinzena dos Realizadores exibirá "Da Janela do Meu Quarto", de Cao Guimarães, e "Vinil Verde", de Kleber Mendonça Filho.

   Serão, portanto, pelo menos cinco brasileiros em Cannes, representação que ainda pode aumentar com os anúncios completos das sessões especiais da mostra oficial e das seleções da Quinzena e da Semana da Crítica, a serem feitos nos próximos dias.

   "A composição de Cannes é muito seleta e dá visibilidade mundial, o que é fundamental para um filme de baixo orçamento com atores desconhecidos como o meu", diz Gomes, 42. Machado, 36, anima-se com possíveis portas abertas. "A coisa que mais gosto de fazer é filmar, e imagino que Cannes possa contribuir para meu próximo filme", diz.

   Rodado no sertão, "Cinema, Aspirina e Urubus" fala da amizade entre um alemão e um pernambucano. Já "Cidade Baixa" narra um triângulo amoroso entre uma prostituta e dois amigos.

   Nenhum filme brasileiro disputará a Palma de Ouro. A única produção latino-americana em competição é o mexicano "Batalla en el Cielo", de Carlos Reygadas, que há dois anos participou da Quinzena dos Realizadores com "Japão", seu filme de estréia.

   Cinco cineastas que já ganharam a Palma participam da competição: Lars von Trier ("Manderlay"), Wim Wenders ("Don't Come Knockin'"), Gus van Sant ("Last Days", recriação ficcional dos últimos dias de Kurt Cobain) e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne ("L'Enfant").

   Outros habitués tentando a Palma são Jim Jarmusch, David Cronenberg, Hou Hsiao Hsien, Atom Egoyan, Michael Haneke e Amos Gitai (foram polêmicas as filmagens de "Free Zone" no Muro das Lamentações, em Jerusalém).

   Na disputa, as maiores surpresas foram a escolha do primeiro filme do ator Tommy Lee Jones como diretor ("The Three Burials of Melquiades Estrada") e uma produção iraquiana ("Kilometro Zero", de Hiner Saleem).

   O filme de abertura será "Lemming", de Dominik Moll (de "Harry Veio para Ajudar"). Fora de competição estão "Star Wars 3: A Vingança dos Sith" e "Match Point", primeira comédia de Woody Allen na Inglaterra.

   "Chromophobia", de Martha Fiennes, encerra o festival, compensando por nenhum filme dirigido por uma mulher e nenhum inglês estarem competindo.

(© Folha de S. Paulo)


Nordeste à francesa

Brasil fica de fora da seleção oficial de Cannes, mas participa de mostra paralela com dois longas regionais e um curta

Carlos Helí de Almeida

   O Brasil ficou fora da competição pela Palma de Ouro de melhor filme deste ano, mas o país estará representado no Festival de Cannes por trabalhos de três jovens cineastas. Os longas-metragens Cinema, aspirinas e urubus, do pernambucano Marcelo Gomes, e Cidade Baixa, do baiano Sérgio Machado, foram selecionados para o Un Certain Regard, a principal mostra paralela do evento, que acontece entre os dias 11 e 22 de maio. O curta O lençol branco, dos paulistanos Juliana Rojas e Marco Dutra, disputará o prêmio da categoria na seção da Cinefundation.

   A seleção oficial de filmes foi anunciada ontem, em Paris, e revela uma presença marcante de autores consagrados (e até já premiados pelo festival) na competição principal, como Wim Wenders, Jim Jarmusch, Gus Van Sant, David Cronenberg e Lars von Trier. Este ano, as apostas em novos nomes ficaram concentradas no Un Certain Regard - 9 dos 15 títulos da mostra são de autoria de estreantes, como o brasileiro Marcelo Gomes.

   - Assistiremos ao retorno à competição de alguns dos grandes realizadores de nosso tempo. O Un Certain Regard está aí precisamente para abrir as portas de Cannes aos jovens cineastas - declarou Thierry Fremaux, diretor artístico do festival francês.

   Eu, tu, eles (2000), de Andrucha Waddington, e Madame Satã (2002), de Karim Ainouz, foram as duas últimas produções nacionais que participaram da prestigiosa mostra informativa. Curiosamente, Ainouz é co-roteirista de Cinema, aspirinas e urubus e de Cidade Baixa. Gomes e Machado foram co-roteiristas de Ainouz em Madame Satã.

   - Formamos uma espécie de triângulo amoroso do cinema - brinca Machado, que estreou no longa-metragem com o documentário Onde a terra acaba (2001), sobre Mário Peixoto.

   - Nós compartilhamos as mesmas idéias sobre cinema, o que eu acho muito saudável. Assim como Madame Satã, Cinema, aspirinas e urubus é um filme de personagens - compara Gomes que, por sua condição de estreante, é também candidato ao prêmio Câmera D'Or.

   Cinema, aspirinas e urubus se passa no sertão paraibano, nos anos 40, e descreve o encontro entre um sertanejo (João Miguel) que foge da seca e de um caixeiro viajante alemão (Peter Ketnath) que fugiu do clima opressor em seu país natal. O argumento nasceu de um relato do tio-avô do cineasta que, depois de enfrentar seguidas secas, decidiu migrar para o Sudeste. É um filme sobre amizade que tem nostalgia do sertão.

   - Eu nasci e cresci em Recife, mas sempre viajei pelo interior do Nordeste. Quando decidi fazer um filme ambientado nessa região, lancei mão dessa memória afetiva pelo sertão, que é uma visão muito pessoal - explica Gomes, que ganhou cancha dirigindo curtas como Maracatu, maracatus e Clandestina felicidade.

   O Nordeste de Cidade Baixa é urbano. O filme de Machado descreve a formação de um triângulo amoroso envolvendo dois golpistas e uma prostituta da Cidade Baixa, o subúrbio decadente de Salvador.

(© JB Online)


Festival volta a celebrar cinema autoral

   O filme de Sérgio Machado é protagonizado por Wagner Moura (Deus é brasileiro), Lázaro Ramos (Madame Satã) e Alice Braga (Cidade de Deus). Nadinho (Moura) e Deco (Ramos) se conhecem desde pequenos e ganham a vida aplicando golpes a bordo de um barco a motor. Fogem para Salvador depois de uma briga durante uma rinha de galos e lá reencontram Karinna (Alice), uma stripper a quem haviam dado carona. Aí começa um relacionamento doentio que os leva a um cenário de violência e morte.

   - Acho que Cidade Baixa é um parente de Madame Satã. É uma história visceral, ousada, que fala sobre gente, não tem nenhuma pretensão social. É feito de planos fechados, centrado nos personagens - descreve o diretor, que pretende lançá-lo em circuito comercial em agosto.

   Os brasileiros disputaram as atenções com poucos diretores estabelecidos, como o francês François Ozon (de Swimming pool), que exibirá Le temps qui reste, e o coreano Kim Ki-duk, que mostrará Hwal.

   Por outro lado, a competição principal será decidida entre 20 produções, entre as quais apenas uma é de autoria de um estreante, The three burials of Melquiades Estrada, dirigida pelo ator Tommy Lee Jones. Ao contrário do que se especulava, o filme de abertura não será mais Guerra nas estrelas: episódio III - A vingança dos Sith. O privilégio foi passado a Lemming, do francês Dominik Moll, que concorreu em 2000 com o thriller Harry, o amigo que veio para ajudar. Talvez em função da ameaça da pirataria, o episódio final da saga criada por George Lucas, com estréia mundial marcada para a semana do dia 20, ganhará uma projeção especial em Cannes em data a ser anunciada.

   No ano em que Cannes volta a celebrar o cinema autoral, serão revelados os novos trabalhos de veteranos como David Cronenberg (A history of violence), Wim Wenders (Don't come knockin), Michael Haneke (Cache), Gus van Sant (Last days, Jim Jarmusch (Brokien flowers), Amos Gitai (Free zone), Atom Egoyan (Where truth lies), Hou Hsiao-Hsien (The best of our times), e Lars von Trier (Manderley, a segunda parte da trilogia americana iniciada com Dogville). Batalla en el cielo, do mexicano Carlos Reygadas, é o único latino-americano que concorre à Palma de Ouro.

   - Percebemos o retorno de um certo classicismo, dos grandes autores - disse Thierry Fremeaux, ao anunciar a seleção de filmes.

   Apesar da ligeira inclinação do festival para os lados do circuito de arte, não faltarão grandes estrelas em Cannes. Bruce Willis, Clive Owen e Elijah Wood estão no elenco de Sin City, de Robert Rodriguez e Frank Miller, um dos filmes mais aguardados do ano, selecionado para a competição oficial. A jovem Scarlet Johansson, estrelinha que brilhou em Encontros e desencontros, de Sofia Coppola, e Moça com brinco de pérolas, de Peter Webber, está em Match point, de Woody Allen, que será exibido hors concours.

(© JB Online)


"Filme fala da compreensão do outro", diz brasileiro selecionado para Cannes

THIAGO STIVALETTI
Da Redação

Divulgação
Cena de 'Cinema, Aspirinas...'


   O diretor pernambucano Marcelo Gomes, 42, já sabia há algumas semanas que seu longa de estréia, "Cinema, Aspirinas e Urubus", seria selecionado para a mostra paralela Um Certo Olhar do 58º Festival de Cannes, que acontece de 11 a 22 de maio. "É um filme que fala sobre as diferentes relações que cultivamos na vida e da possibilidade de se compreender o outro", disse Gomes em entrevista por telefone.

   "Cinema, Aspirinas e Urubus" conta a história de Johann, um alemão que decide vir para o Brasil fugindo da guerra em 1942. No sertão nordestino, trabalha como caixeiro viajante vendendo aspirina, "a cura de todos os males". Para convencer os compradores, começa a exibir filminhos produzidos pela companhia para a qual trabalha. Em suas andanças, conhece Ranulpho, um paraibano de 40 anos que também está migrando - da pobreza do sertão, ele quer chegar ao rico sudeste do país. Toda a história é baseada na experiência do verdadeiro Ranulpho, tio de Gomes.

   O longa, que custou R$ 2,5 milhões, foi filmado entre setembro e outubro de 2003. Gomes o rodou em Super-16 e depois o ampliou para os tradicionais 35 mm. Os dois protagonistas, os atores Peter Ketnath e João Miguel, não são conhecidos da TV.

   A trajetória do filme em festivais internacionais começou em setembro do ano passado, quando foi selecionado para participar do Cine Construción no Festival de San Sebastian. O Construción é um departamento do festival que se encarrega de exibir filmes ainda não finalizados para compradores e distribuidores internacionais que possam injetar dinheiro no projeto.

   Antes de "Cinema...", Gomes havia feito dois curtas-metragens: "Maracatu, Maracatus", premiado no Festival de Brasília em 1995, e "Clandestina Felicidade". O diretor não gosta de falar sobre a força do cinema pernambucano ou nordestino. "Não existe cinema pernambucano, o que existe são pernambucamos fazendo filmes", afirma. Ele trabalha no roteiro do próximo filme do diretor de "Baile Perfumado", Paulo Caldas, que deve se chamar "Deserto Feliz".

   O diretor faz a habitual comemoração do anúncio de Cannes ("estar no festival já é uma vitória", diz), mas não sabe como a participação no evento vai influir no lançamento e na distribuição do filme. "A versão final só ficou pronta hoje mesmo. Agora é que vou sentar com minha distribuidora, a Imovision, para discutir como e quando lançá-lo", disse Gomes.

UOL Cinema)


"'Cidade Baixa' aborda possibilidade do triângulo amoroso", diz diretor; leia entrevista

THIAGO STIVALETTI
da Redação  

Divulgação
Lázaro Ramos (à esq.) em 'Cidade Baixa', de Sérgio Ramos


   Foi aos 49 minutos do segundo tempo, como ele mesmo diz, que o cineasta baiano Sérgio Machado enviou seu filme, "Cidade Baixa", para as comissões de seleção do 58º Festival de Cannes.

   O filme, que tem Wagner Moura e Lázaro Ramos no elenco, conta a história de uma jovem que pega carona com dois malandros num barco para chegar até Salvador e lá ganhar a vida como dançarina.

   A correria não atrapalhou a visibilidade da obra: os selecionadores gostaram tanto que o filme foi convidado para integrar duas mostras paralelas do festival, Um Certo Olhar e Quinzena dos Realizadores. Machado optou pela primeira, a mesma que há três anos abrigou "Madame Satã", de Karim Ainouz.

   Autor de um documentário longa-metragem, "Onde a Terra Acaba" (2001), sobre o cineasta dos anos 30 Mario Peixoto, Machado trabalha há dez anos com Walter Salles. Foi assistente de direção de "Central do Brasil", "O Primeiro Dia" e "Abril Despedaçado" - deste último assinou também o roteiro.

   Nesta semana, Machado está ocupado em terminar a tempo um documentário curta-metragem de dez minutos que será exibido no "Fantástico" deste domingo, em comemoração dos 40 anos da Globo. Leia a seguir a entrevista dada pelo cineasta por telefone:

UOL - De onde surgiu a idéia de "Cidade Baixa"?

Sérgio Machado -
Comecei a pensar na história quando voltei da apresentação de "Abril Despedaçado" em Veneza, em 2001. Estava fascinado com a idéia de trabalhar com um triângulo amoroso longinquamente inspirado em "Tristão e Isolda". Minha primeira intenção era fazer um filme passado na década de 60 e inspirado nas fotografias de Pierre Verger. Mas em algumas leituras do roteiro com o Walter Salles e o Eduardo Coutinho, nas quais eles criticaram um certo romantismo excessivo da história, decidi mudá-la para os dias de hoje.

UOL - Foi necessário fazer muita pesquisa para o roteiro?

Machado -
Freqüentei muito a Cidade Baixa de Salvador, as ruas, as casas de strip-tease. Conhecia as pessoas e pedia para encontrá-las no dia seguinte, para conversarmos melhor. O filme não traça um retrato sociológico da vida das prostitutas, mas traz muito do clima em que elas vivem.

UOL - Na sua opinião, qual o diferencial do filme que pode ter atraído a atenção dos selecionadores de Cannes?

Machado -
Em geral, os filmes que abordam um triângulo amoroso falam da impossibilidade desse triângulo. O meu, ao contrário, fala justamente da possibilidade de três pessoas manterem um relacionamento.

UOL - Quando o filme vai ser lançado?

Machado -
Tudo vai depender da repercussão em Cannes e da agenda dos atores, mas nossa expectativa é lançá-lo em agosto. Vários contratos internacionais também já estão sendo fechados.

(© UOL Cinema)

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