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SCHNEIDER CARPEGGIANI Era escrevendo cartas que Mário Souto Maior resolvia tudo na vida. Nada prático, diga-se de passagem. “Papai ficava danado porque, pelos Correios, as respostas passavam de cinco a seis dias para chegar. Ele tinha pressa”, lembra Jan Souto Maior, filho e responsável por organizar o legado do “catador” das expressões, das idiossincrasias, dos palavrões (até), enfim, de boa parte de todo blablablá que cerca o cotidiano brasileiro. O problema foi resolvido quando o pesquisador descobriu o e-mail - “Ele usava a Internet para tudo, para pesquisar, para falar com as pessoas”, continua Jan. A paixão derradeira de Mário, claro, deu origem a outro trabalho de pesquisa - O Dicionário de Folclore da Internet, que o autor deixou pela metade quando faleceu em 2001, aos 81 anos. No entanto, o livrinho está nos planos de recuperação da sua obra, que ganha novo capítulo, ou verbete (para usarmos uma expressão cara ao folclorista), hoje com o lançamento coletivo dos livrinhos Dicionário de Folclore para Estudantes, Qual é a Sua Graça?, Comes e Bebes do Nordeste, Alimentação e Folclore e Dicionário Folclórico da Cachaça, no hall do Museu do Homem do Nordeste. Os títulos chegam em formato de bolso, com ilustrações de Miguel Falcão (da editoria de arte do JC), e ainda recuperam prefácios já clássicos, como os de Carlos Drummond de Andrade, Sebastião Vila Nova, além de textos inéditos, escritos pela pesquisadora Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti e a jornalista Flávia de Gusmão (do JC). Ler Mário Souto Maior é descobrir como as palavras que a gente solta fácil na correria do dia-a-dia, nos atalhos das frases ditas pela metade, têm um significado mais elástico do que se pode imaginar. Cachaça, por exemplo, não é só a bebida feita de cana, o seu significado também fala de vícios, manias, aqueles hábitos que são tão difíceis assim de se deixar para trás. Já cascabulho não é só a casca de milho depois de descascado, é também “tudo quanto não presta, não tem utilidade”, como bem completa Mário Souto Maior. O pesquisador sabia que, escondidos lá no dicionário, havia um conhecimento de mundo e (por que não?) uma poesia que não acabam mais. De acordo com Jan, este ano um outro livro, agora inédito, do seu pai chega ao público, pela Editora Massangana - é o Dicionário do Carnaval, escrito em parceria com Renato Phaelante. Já o tal Dicionário de Folclore da Internet só espera a professora Rúbia Lóssio (que foi parceira em Dicionário do Folclore para Estudantes) ter tempo de completar o que o pesquisador deixou pela metade. TEM PEIXE NA REDE – A Internet, daqui para frente, será o melhor canal para o público ter acesso à boa parte do que Mário Souto Maior produziu. De acordo com Jan, a partir de uma parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia, o endereço www.bvmsm.fgf.org.br vai receber, até o final do ano, 69 dos 76 livros publicados pelo pesquisador, além de toda sua correspondência passiva. “Os textos estão sendo digitalizados. Nós só não colocamos na Internet tudo o que ele escreveu porque alguns dos seus títulos ainda estão em poder de editoras. É só os contratos irem acabando, que iremos colocá-los na rede”, avisa Jan. Ao lado do lançamento dos livrinhos, ocorre também a exibição do vídeo Grande Maior, dirigido por Luiz Felipe Botelho, que em sete minutos procurou condensar o enorme universo de “achados” verbais de Mário Souto Maior. De acordo com Jan, esse vídeo, em breve, também estará disponível para download no site. “A Internet vai ser o melhor caminho para quem quiser mergulhar no trabalho do meu pai”, completa o filho do homem que, sabiamente, não tinha mais paciência para esperar cartas. (© JC Online) “Papai tinha que pagar para se publicar” Em 2001, quando Mário Souto Maior faleceu, Jan reclamou com a imprensa do pouco - ou mesmo nenhum - caso que o trabalho do seu pai recebeu. “Papai pagava para publicar. É só você dar uma olhada em boa parte dos seus livros para perceber que a maioria deles é edição do autor. Mesmo depois de morto, a situação continua a mesma”, ressalta.Jan lembra que, além de pagar as edições dos seus livros, o pesquisador pessoalmente enviava pelos Correios os títulos para escolas e bibliotecas públicas - “Ele pagava para publicar e até o envio do material era por conta do seu bolso. Papai ficava muito chateado porque, quando conseguia uma editora, não era bem distribuído. Ninguém achava os seus livros. Papai nunca ganhou um só centavo por aquilo que escreveu. Ele tinha paixão pelo que fazia, criou a família com o dinheiro de funcionário público e, todo extra que ganhava, investia no seu trabalho de pesquisador”, desabafa o filho. Mário Souto Maior começou o seu trabalho de pesquisador aos 50 anos. “Nunca vi ninguém em tão pouco tempo fazer uma obra tão vasta. Papai, só para escrever o livro de significado dos nomes, leu todas as listas telefônicas do Brasil.” A paixão de MSM pelo seu trabalho de pesquisador era tamanha que superava até as barreiras da saúde. “Papai só tinha uma visão, que ainda por cima sofria de uma miopia de seis graus e de uma catarata. Apesar disso tudo, ele não deixava de lado as suas pesquisas. Imagine um homem com tantas dificuldades fazer um trabalho tão expressivo.” Ignorado pelas grandes editoras, o legado de Mário Souto Maior é tão atual que tem na Internet - assim como o de um sem-fim de autores estreantes, deixados de lado pelas regras do mercado editorial - a chance de perpetuar e de ganhar novos leitores. Um bom cartão de visitas do que o pesquisador escreveu está no www.soutomaior.eti.br/mario, arquitetado pelo próprio Jan. (S.C.) (© JC Online) |
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