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A vitória da emoção

Mocarzel e dois dos sete troféus de seu filme: o preferido do júri e do público

Documentário sobre Síndrome de Down vence o 9º Cine PE

Carlos Helí de Almeida

   O filme paulista Do luto à luta, de Evaldo Mocarzel, foi o grande vencedor da 9ª edição do Cine PE, encerrada na noite de anteontem em Recife. Recebida com entusiasmo pela platéia pernambucana quinta-feira passada, a comunicativa fita de Mocarzel sobre pais de crianças com Síndrome de Down e vítimas da doença levou os troféus Calunga de melhor filme, documentário, direção, montagem (Marcelo Moraes) e fotografia (Carlos Ebert), além dos prêmios da crítica e do júri popular.

   A premiação de Do luto à luta confirmou a superioridade dos documentários sobre os filmes de ficção na seleção de longas. Os outros dois concorrentes na categoria, Aboio, de Marília Rocha, sobre o canto dos vaqueiros do sertão, e Soy Cuba - O mamute siberiano, de Vicente Ferraz, sobre a realização do clássico do cineasta russo Mikheil Kalatozishvili, ganharam os troféus de melhor trilha sonora e som, e de melhor roteiro, respectivamente.

   Apesar de inferior, o gaúcho Cerro do Jarau, de Beto Souza, ainda conseguiu ganhar os prêmios de atriz (Lu Adams), ator coadjuvante (Miguel Ramos) e direção de arte (Eduardo Antunes.) No meio da rua (RJ), de Antonio Carlos Fontoura, ficou com os troféus de melhor ator (Guilherme Vieira e Cleslay Delfino, e atriz coadjuvante (Maria Mariana Momenrat). Bens confiscados (SP), de Carlos Reichenbach, foi eleito o melhor filme de ficção.

   Pernambuco gaba-se da fase de efervescência cinematográfica, como celeiro de curtas-metragistas, mas a quantidade ainda não se converteu em qualidade. Diante da proliferação de vídeos e curtas em várias bitolas, as comissões julgadoras parecem ter optado pela pulverização de prêmios. Dentro da competição de curtas em 35mm, venceram Fuloresta do samba (melhor curta, PE), de Marcelo Pinheiro; Entre paredes (filme de ficção, PE), de Eric Laurence; Visita íntima (documentário, PR), de Joana Nin; O mundo é uma cabeça (júri popular, PE), de Cláudio Barroso e Bidu Queiroz; Vinil verde (prêmio especial da crítica, PE), de Kleber Mendonça Filho; e Da janela do meu quarto (prêmio especial do júri, MG), de Cao Guimarães. Os dois últimos foram selecionados para a Quinzena dos Realizadores, mostra dissidente do Festival de Cannes.

(© JB Online)


Documentário "Do Luto à Luta", sobre síndrome de Down, ganha 7 prêmios no Festival do Recife

Neusa Barbosa
do Cineweb

   RECIFE (Reuters) - O filme "Do Luto à Luta", de Evaldo Mocarzel, foi o grande vencedor do 9o. Cine PE - Festival do Audiovisual, encerrado na noite desta terça-feira no Recife. O filme, de cunho autobiográfico, que aborda questões relativas aos portadores da síndrome de Down, foi aclamado pela platéia. "Do Luto à Luta" recebeu os troféus de melhor longa, documentário, júri popular, direção, fotografia, montagem e crítica.

   A premiação de Mocarzel era dada como certa, mas foi surpreendente o grande número de troféus recebidos.

   O segundo colocado da noite foi o filme gaúcho "Cerro do Jarau", de Beto Souza, que recebeu três prêmios: atriz (para Júlia Barth), ator coadjuvante (Miguel Ramos) e direção de arte. A premiação de Júlia Barth foi outra surpresa, pois a grande favorita era Beth Faria por seu desempenho em "Bens Confiscados", de Carlos Reichenbach. O filme de Carlão ficou com o troféu de melhor longa de ficção.

   Nova surpresa foi a premiação do elenco mirim do filme "No Meio da Rua", do carioca Antonio Carlos da Fontoura: melhor ator (dividido entre os garotos Guilherme Vieira e Clesley Delfino) e atriz coadjuvante (a menina Maria Mariana). O filme também ganhou o importante troféu especial Gilberto Freire, pelo reconhecimento à cultura negra. O longa conta a amizade entre um garoto branco de classe média e um menino negro da favela.

   O filme "Aboio", de Marília Rocha, ganhou os prêmios de trilha sonora e edição de som. "Soy Cuba, el Mamute Siberiano", de Vicente Ferraz, ganhou o troféu de melhor roteiro.

   O curta-metragem em 35 mm "Vinil Verde", de Kleber Mendonça Filho, ganhou os troféus de melhor curta-metragem em 35 mm, edição de som e prêmio da crítica. O filme foi selecionado anteriormente para participar da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes deste ano.

   A produtora Sara Silveira foi muito aplaudida ao puxar um coro de "viva Pernambuco". O motivo da comemoração é que o filme "Cinema, Aspirina e Urubus", do pernambucano Marcelo Gomes, foi selecionado para participar da seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes.

(© UOL Cinema)


‘Do luto à luta’ é o grande vencedor de Recife

Eduardo Souza Lima
Enviado especial RECIFE


   Com todos os méritos, o filme “Do luto à luta”, de Evaldo Mocarzel, foi o grande vencedor do 9º Cine PE, com oito prêmios Calunga. Mas, lamentavelmente, as outras decisões dos júris oficiais do evento, como já está se tornando uma tradição nos festivais de cinema brasileiros, foram decepcionantes.

   Fora o quesito animação, o público do Cine PE merece mais um prêmio: o de bom senso. Deu o prêmio de melhor longa-metragem para “Do luto à luta”. O filme também ganhou o prêmio da crítica e do júri oficial. Além da tríplice coroa, o terceiro longa-metragem do diretor de “À margem da imagem” e “Mensageiras da luz” levou os Calungas de direção, fotografia, montagem e documentário. Mocarzel fez questão de dividir seus prêmios com os outros dois documentários da competição: “Aboio” e “Soy Cuba — O mamute siberiano”. A boa qualidade dos filmes do gênero era consenso. Mas o primeiro mereceu apenas o de melhor som; e o segundo, o de roteiro. Documentários e filmes de ficção concorriam em pé de igualdade. Ninguém entendeu o motivo, mas tinha prêmio para melhor documentário, melhor ficção e melhor filme. O melhor de ficção foi “Bens confiscados”, de Carlos Reichenbach. E era mesmo o melhor longa-metragem da categoria na competição. Mas o júri (o produtor Emanuel Freitas, o ator Giulio Lopes, o cineasta Jorge Bodanzky e as pesquisadoras Myrna Brandão e Silvie Debbs) preferiu consagrar o equivocado “O Cerro do Jarau”, de Beto Souza, que ganhou os Calungas de atriz (Lu Adams), ator coadjuvante (Miguel Ramos) e direção de arte (Eduardo Antunes).

   O prêmio do público de melhor curta em 16mm foi para “O homem da mata”, de Antonio Souza Leão, que foi completamente ignorado pelo júri formado por Carlos Brandão (pesquisador), César Cavalcanti (cineasta), Ítalo Cajueiro (cineasta), Soia Lira (atriz) e Torquato Joel (cineasta). O júri considerou que o desenho animado “Quando Jorge vai à guerra”, de Tadao Miaqui, era melhor. Os mesmos jurados consideraram o documentário “Fluoresta do Samba”, de Marcelo Pinheiro, o melhor curta em 35mm. O melhor documentário, segundo o mesmo júri, foi “Visita íntima”, de Joana Nin. O favorito, “O mundo é uma cabeça”, levou somente os prêmios do júri popular e o de aquisição do Canal Brasil. “Vinil verde”, de Kleber Mendonça Filho, bisou o prêmio da crítica (havia ganhado em Brasília), mas foi igualmente ignorado pelo júri oficial.

   A cerimônia de premiação foi tranqüila e teve momentos de emoção. O primeiro deles aconteceu na premiação de vídeos pernambucanos. “Tropeiros”, de Arthur Gomes dos Santos, ganhou menção honrosa e a simpatia do público, com a simplicidade do diretor ao agradecer a honraria:

   — Eu queria agradecer a todos vocês por essa coisa maravilhosa que está acontecendo com a gente.

   Gomes dos Santos é da pequena Carnaubeiras da Penha, cidade de apenas 12 mil habitantes. Ele conseguiu fazer o seu vídeo graças ao programa Descobrindo os Brasis, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura.

Produtora dedica prêmios à filha

   Também foi comovente o agradecimento de Letícia Santos, produtora do documentário “Do luto à luta”:

   — Gostaria de dedicar estes prêmios à minha amada filha Joana por mais essa alegria.

   Letícia é mulher do diretor, Mocarzel. Joana, a filha deles, é portadora da Síndrome de Down.

   E Antonio Souza Leão, do injustiçado “O homem da mata”, foi ovacionado por seu discurso incisivo:

   — É muito difícil realizar um filme de ficção em Pernambuco, que está sofrendo um cruel processo de aculturação.

(© O Globo)


Os premiados

FILME: “Do luto à luta”

FILME/ DOCUMENTÁRIO: “Do luto à luta”

FILME/ FICÇÃO: “Bens confiscados”

DIREÇÃO: Evaldo Mocarzel (“Do luto à luta”)

ROTEIRO: Vicente Ferraz e Luciano Castilho (“Soy Cuba — O mamute siberiano”)

ATOR: Guilherme Vieira e Cleslay Delfino (“No meio da rua”)

ATRIZ: Lub Adams (“O Cerro do Jarau”)

ATOR COADJUVANTE: Miguel Ramos (“O Cerro do Jarau”)

ATRIZ COADJUVANTE: Maria Mariana Momenrat (“No meio da rua”)

FOTOGRAFIA: Carlos Ebert (“Do luto à luta”)

DIREÇÃO DE ARTE: Eduardo Antunes (“O Cerro do Jarau”)

MONTAGEM: Marcelo Moraes (“Do luto à luta”)

TRILHA SONORA: Cordel do Fogo Encantado e outros (“Aboio”)

(© O Globo)


CINEMA

Documentário sobre síndrome de Down bate concorrentes de peso e conquista o maior número de prêmios do festival

"Do Luto à Luta" se consagra no Cine-PE

JOSÉ GERALDO COUTO
ENVIADO ESPECIAL A RECIFE

   "Do Luto à Luta", documentário sobre portadores da síndrome de Down realizado por Evaldo Mocarzel, foi o grande vencedor do Cine-PE 2005 - Festival do Audiovisual.

   Além dos troféus Calunga de melhor longa-metragem pelos júris oficial, popular e da crítica, "Do Luto à Luta" conquistou também os prêmios de melhor documentário, direção, fotografia e montagem. Um triunfo arrasador, em suma.

   O prêmio do público era considerado uma barbada desde a consagradora exibição do filme de Mocarzel na noite da última quinta. A platéia de quase 3.000 pessoas que superlotou o teatro Guararapes aplaudiu o documentário em cena aberta inúmeras vezes.

   O que foi um tanto surpreendente foi a concentração avassaladora de prêmios num único documentário, num festival em que o gênero esteve bem representado também pelos concorrentes "Aboio", de Marília Rocha, e "Soy Cuba - O Mamute Siberiano", de Vicente Ferraz.

   "Aboio", vencedor do último festival de documentários "É Tudo Verdade", busca uma imersão estética no universo dos vaqueiros do sertão de Minas, Bahia e Pernambuco, e em sua comunicação peculiar com o gado. É um lindo filme, mas pouco indicado para uma platéia tão agitada e carente de emoções fortes.

   "Soy Cuba - O Mamute Siberiano" é uma experiência singular de investigação histórico-cultural em torno de um filme "maldito", a co-produção cubano-soviética "Soy Cuba", realizada em 1963 pelo russo Mikhail Kalatazov.

   Projetado para ser um épico de propaganda da revolução de Fidel Castro, "Soy Cuba" acabou, por motivos políticos, desagradando cubanos e soviéticos. "O Mamute Siberiano" rastreia a história desse esplendoroso mal-entendido (o filme original, verdadeira obra-prima, está disponível em DVD) por meio de depoimentos de cubanos e russos que participaram da aventura.

   Em face dos concorrentes, "Do Luto à Luta" era, de certa forma, o documentário mais convencional, baseando-se em depoimentos de portadores da síndrome e de seus parentes. Mas esses depoimentos são fortíssimos, e o filme se enriquece com cenas de jovens Down fazendo de tudo: surfando, dirigindo automóvel, dançando e até dirigindo uma seqüência de cinema.

   O resultado é uma obra arrebatadora, que mescla informação e celebração. Em tempo: Mocarzel, que realizou anteriormente "À Margem da Imagem" e "Mensageiras da Luz", tem uma filha com síndrome de Down.

   Diante da força dos documentários, não admira que os longas de ficção tenham ficado em segundo plano. Entre eles, "Bens Confiscados" foi de fato o mais relevante, ao narrar, no melhor registro lírico-político de Carlos Reichenbach, o relacionamento entre uma enfermeira madura (Betty Faria) e um adolescente seqüestrado pelo próprio pai, um senador corrupto.

   Só o primeiro e magnífico plano -uma mulher no alto de um prédio, prestes a se jogar- bastaria para situar o filme de Reichenbach num patamar acima dos concorrentes.

O colunista José Geraldo Couto viajou a convite da organização do Cine-PE

(© Folha de S. Paulo)


A correção política predomina

Festival contempla com chuva de prêmios o documentário Do Luto à Luta que, apesar de não ser ruim, concorreu com obras superiores

KLEBER MENDONÇA FILHO

   O júri de longas-metragens (Erika Bauer, Jorge Bodansky, Myrna Brandão, Sylvie Debbs, Giulio Lopes) da edição 2005 do Cine PE: Festival do Audiovisual tomou rumo inesperado, promovendo chuva de prêmios no documentário Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel. Pareceram reconhecer que o melhor cinema hoje no Brasil é o de tom documental, mas parecem ter errado o alvo dessa celebração. Depois de uma sexta-feira especial que teve a projeção dos ótimos Aboio, de Marília Rocha, e Soy Cuba: O Mamute Siberiano, de Vicente Ferraz, premiaram o carinhoso Do Luto à Luta com clara marca da correção política (o filme aborda a síndrome de Down). Em festivais de cinema do mundo inteiro há esse problema, a premiação de temas, nem tanto de filmes, em especial na categoria documentário.

   Longe de ser um filme ruim, os sete prêmios de Do Luto à Luta, por outro lado, gritam perguntando quais seriam os problemas de duas obras claramente superiores no quesito cinema (linguagem, enfoque, imagens) como Aboio (dois prêmios), filme de beleza abstrata e fantástico trabalho de som, e Soy Cuba: O Mamute Siberiano (um prêmio), uma aula sobre cinema, tempo, política e identidade cultural. São dois filmes que demonstram enorme vitalidade do documentário brasileiro, enquanto o grande vencedor tem, de fato, um olhar delicado e pessoal, mas via cinema televisivo.

   Talvez mais sérias tenham sido as escolhas na área da ficção. O melhor filme da competição, Bens Confiscados, de Carlos Reichenbach, de fato levou Melhor Filme de Ficção, mas não ficou com mais nada. O gaúcho dark e lamentavelmente equivocado (começando pelo título) O Cerro do Jarau, de Beto Souza, ficou com três prêmios – atriz (Lu Adams), ator coadjuvante (Miguel Ramos) e direção de arte. Hmm...

   A ficção-científica social-brasileira sobre ricos e pobres, brancos e negros, No Meio da Rua, de Antônio Carlos da Fontoura, teve seus atores mirins premiados (Maria Mariana Momenrat e Guilherme Vieira) e ainda ganhou o prêmio Gilberto Freyre, que soa como uma piada de mau gosto. Esse longa, filmado como um anúncio de margarina, confirmou tendência nessa seleção 2005 de longas e curtas, a de filmes distraidamente preconceituosos, lá do alto de suas boas intenções.

   Curiosamente, o desigual Esses Moços, do baiano José Araripe, mas com visão social mais generosa, saiu do Cine PE sem prêmios.

(© JC Online)


Curtas têm ficado muito sisudos

MARCOS TOLEDO

   Os espectadores do Cine PE que acompanharam a maioria dos dias do festival talvez tenham presenciado o início de uma mudança na maneira de se fazer curta-metragem no Brasil. Mudança sobretudo técnica, mas que provoca alterações no conteúdo e na estética. Pelo menos é o que indica a amostragem de vídeos e filmes em 16mm e 35mm selecionadas para as competições deste ano.

   Ainda não dá para dizer o quanto isso é bom ou ruim, mas, afora o estreitamento da relação vídeo-cinema, com o avanço de qualidade e disponibilidade do formato digital, há uma mudança na escolha de temas por parte dos realizadores com uma tendência maior para assuntos mais sérios do cotidiano e com tratamento, digamos, menos cinematográfico. Bem diferente do que se convencionou a ver no cinema brasileiro mais contemporâneo, que vai de Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, a Texas Hotel (1999), de Cláudio Assis.

   Entre os filmes premiados no festival que terminou anteontem, percebemos claros exemplos de trabalhos que adotam essa função jornalística, de usar o cinema simplesmente para registrar, como em Fuloresta do Samba (melhor 35mm pelo Júri Oficial), de Marcelo Pinheiro, e Visita Íntima (melhor documentário 35mm), de Joana Nin. Embora a qualidade da realização fique acima da média, a preocupação estética passou a ser segunda prioridade.

   Curiosamente, os que se aventuraram a fazer curtas menos pragmáticos, como O Mundo É uma Cabeça, de Bidu Queiroz & Cláudio Barroso, e O Homem da Mata, de Antônio Luiz Carrilho, conquistaram os prêmios de melhor filme em 35mm e 16mm, respectivamente, pelo Júri Popular. É lamentável a ausência de Véio, de Adelina Pontual, na premiação, filme notadamente realizado por uma autora que sabe e ama fazer cinema.

   A superexposição do gênero documentário em detrimento da ficção talvez aponte ainda para uma grande carência de bons roteiros. Filmes que se preocupam com a mínima formatação de uma idéia com dedicado desenvolvimento, destacam-se em competições como o Cine PE. Vide o gaúcho Cinco Naipes, de Fabiano de Souza, a animação Quando Jorge Vai à Guerra, de Tadao Miaqui, o suspense Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, e (mesmo sem diálogos) Entre Paredes, de Eric Laurence. Tal carência poderia ser corrigida com o oferecimento de workshops pelas mesmas entidades que promovem concursos de roteiro.

(© JC Online)


Cine PE: recorde de público

Organização estima que 22 mil pessoas foram à nona edição. Cineastas locais questionam seleção e seminários

OLÍVIA MINDÊLO

   Não é de hoje que o público do Cine PE: Festival do Audiovisual se mostra como a grande marca do evento, aliás o seu principal marketing. Ao longo dessas nove edições, o maior cartão de visita do festival não têm sido os curtas ou longas exibidos, mas a quantidade de gente que vai ao Centro de Convenções – e que acaba atraindo ainda mais pessoas ao local, com diferentes interesses (às vezes, não só para ver os filmes). A novidade é que a edição de 2005, encerrada na terça, bateu um recorde: teve a maior participação popular de todos os anos.

   O balanço foi dado por Sandra Bertini, diretora do Cine PE 2005. Segundo a empresária, que sempre esteve na produção do evento, ainda não há um número preciso de ingressos vendidos, mas a freqüência de público foi visivelmente maior nesta edição. E foi mesmo. As entradas esgotaram-se praticamente todos os dias, o que não significa que a cada noite 2.500 pessoas (número de cadeiras do Cineteatro Guararapes) foram ao local, já que sempre tinha alguém de pé e pelos corredores, mesmo no primeiro andar da sala. Até os cambistas resolveram investir em bilhetes no último dia da mostra competitiva, e nem a coincidência de datas com o Abril pro Rock atrapalhou a freqüência do público. “Minha estimativa é de que cerca de 22 mil pessoas tenham ido à mostra competitiva no total”, estipulou Sandra.

   Para a diretora, outro ponto positivo do Cine PE 2005 foi a presença marcante, em quantidade e qualidade, de filmes e vídeos pernambucanos. Das 32 películas de curta-metragem exibidas, sete foram produzidas no Estado, sem contar com os 12 vídeos feitos só por gente daqui, que, pela primeira vez, ganharam espaço na sala principal de projeção (antes eram mostrados numa sala secundária).

   “Estamos caminhando para inserir vídeos de outros Estados na mostra. Mas ainda não sabemos se isto será feito já no ano que vem”, informou.

   CRÍTICAS – Apesar de ser um sinal claro de vitória dos organizadores, a grande quantidade de público também preocupou e até incomodou alguns espectadores. Foi o caso do estudante do curso de artes plásticas Paulo Eduardo Lopes, 23, que reclamou do barulho e das palmas no meio das exibições. “O povo tem que aplaudir a obra toda e não as partes. Isso é muito chato”.

   O cineasta pernambucano Leo Falcão, que já esteve em outras mostras competitivas do Cine PE, acredita que o público diverso é uma característica do festival. “Isso não é bom, nem é ruim, é um fato. Algumas pessoas ficam deslumbradas, outras se aborrecem. A questão é que temos que admitir essa característica”, analisou Leo. A maior crítica que faz ao festival é com relação à curadoria. Ele acha que os vídeos são um avanço, por exemplo, mas ainda é preciso haver uma identidade na escolha dos filmes.

   Essa identidade, por sinal, é de grande importância para a formação do público, na verdade uma das principais funções dos festivais, sejam de cinema, música, teatro ou dança. “Não existe curadoria. Há um mau gosto tremendo. Além disso, eles (organizadores) também precisam ter mais respeito e sensibilidade com os cineastas, que são os que realizam isso aqui”, desabafou Cláudio Assis, que em 2004 não pode exibir Amarelo Manga, por desavenças com a produção.

   A falta de respeito à qual Assis se referiu tem relação ao acesso das equipes dos filmes ao Cine PE. Segundo ele, a produção não dá credenciais suficientes para os cineastas assistirem a todos os filmes. “Todos os anos enfrentamos problemas com crachás e hospedagem das equipes”, compartilhou o colega Cláudio Barroso, do curta O Mundo É uma Cabeça, feito com o pernambucano Bidu Queiroz.

   Outra crítica citada foi relacionada aos debates. “Pouca gente se desloca até Candeias para assistir aos seminários. É preciso haver movimentação intelectual, senão vira o festival da festa”, resumiu o cineasta e agitador cultural Jomard Muniz de Brito.

(© JC Online)


Curtas

Rainha do drama

Betty Faria subiu ao palco do Cineteatro Guararapes e desabafou em um discurso ensaiado (ela já tinha dito o mesmo texto para a imprensa do lado de fora do teatro): “Estava passando por uma fase muito difícil na minha vida. Esse filme foi um sopro na minha carreira. E eu estava na belíssima Ilha de Itaramacá quando recebi esse roteiro”. O filme em questão era Bens Confiscados, que não conseguiu nem metade dos aplausos que o nome Itamaracá provocou no público.

Longa à vista

Paulo Caldas, que circulava pelo festival na noite de abertura, garantiu que as filmagens de seu próximo longa-metragem, Deserto Feliz, começam a ser realizadas em outubro deste ano. Caldas está morando no Recife, já adiantando o roteiro de locações.

Prêmios fora da tela

Prêmio ‘recreação’: vai para o povo contratado pela Petrobras para criar esquetes no hall do evento. Prêmio ‘amigo do refrigerante’: fica com as coxinhas do Rei das Coxinhas, sucesso absoluto entre o público. Prêmio ‘responsabilidade social’: vai para a camisa com a frase “Legenda para quem não ouve, mas se emociona”, vestida por alguns participantes do evento.

Comoção pública

O grande ganhador do festival, o documentário Do Luto à Luta, provocou uma comoção na platéia, antes de ser exibido na quinta. É que uma portadora de síndrome de Down (assunto do filme), que participa do filme, subiu ao palco e fez um discurso memorável. “Nós vamos vencer!”, gritou. Muita gente chorou.

(© JC Online)
 

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