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Djavan |
Músico brasileiro fala do mercado fonográfico em entrevista
a LV
Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro
Quase 30 anos de carreira. Dezesseis
discos nas costas. Alguns com mais de 3 milhões de cópias vendidas. Um
Grammy em seu poder. Colaborações internacionais com Stevie Wonder e Paco de
Lucía, entre outros. Um estilo próprio que funde o Brasil com o mundo.
Djavan, um artista que há décadas
conquistou o público dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, acaba de
romper com as multinacionais. Fundou o selo Luanda Records e lançou em 2004
o álbum "Vaidade", que acaba de sair na Espanha. Djavan fala com
sinceridade, amável, "djavaneando", o verbo que Caetano Veloso cunhou há
alguns anos.
La Vanguardia - O que o levou a abrir sua própria gravadora?
Djavan - Considero-me um sonhador, um romântico, e não um empresário. E
foi um "feeling", senti que precisava sair. E não por problemas de
liberdade. Sempre fiz o que quis. Mas todo o processo está mudando muito
rapidamente. Quando a indústria criou o duplicador de CD assinou sua
sentença de morte.
LV - Aí pode haver uma lição para as multinacionais. Em pouco tempo
"Vaidade" conseguiu o Disco de Ouro (50 mil cópias) e ruma para as 100 mil.
Djavan - Não pretendo dar lições a ninguém. Mas ser livre me permite
vender o CD muito mais barato, o que é importante em um país com baixo poder
aquisitivo como o Brasil e com uma pirataria enorme. Também cuido de todos
detalhes. Por exemplo, as gravadoras não dão importância à venda de CDs nos
shows. Eu vendo cerca de 250 por show, o que no final da turnê é muito. As
multinacionais também têm ânsia de vender muito em pouco tempo, e esta é uma
corrida de meio-fundo.
LV - Você considera que "Vaidade" é um álbum de maturidade, a
conseqüência de quase 30 anos de carreira?
Djavan - Nele, está toda a minha evolução, todos os estilos estão
incorporados de alguma maneira. A diferença é que foi composto no tempo
certo, no estúdio, sem pressa. Creio que o resultado é mais fresco e
compacto ao mesmo tempo.
LV - A crítica sempre teve problemas para classificá-lo, por sua sutil
mistura de gêneros. Djavan é um gênero em si mesmo?
Djavan - Creio que no Brasil já fazíamos fusão antes que essa palavra
fosse utilizada. Depois da MPB me interessei pelo funk, o soul, a canção
italiana, o flamenco, o jazz, a música mexicana... Mas nossa música já é uma
mistura de muitos sons. Creio que na música a curiosidade move montanhas. E
a vida não existe sem música, é claro.
LV - Em sua carreira, você teve a oportunidade de colaborar com o "dream
team" da música brasileira e com Stevie Wonder ou Paco de Lucía...
Djavan - Para mim, as colaborações não são uma transação comercial. Só
fiz isso quando havia sentimento, intimidade, admiração mútua, respeito e
tempo para fazê-lo. Por isso colaborei com o "rapeiro" Gabriel O Pensador e
não com outros clássicos brasileiros. Com Paco de Lucía foi especial, houve
muito entendimento.
LV - Você participa de muitos shows de caridade, mas não de campanhas
políticas, apesar de simpatizar com o Partido dos Trabalhadores.
Djavan - Sim, uma coisa é acreditar em um político e outra colocar-se a
seu serviço. Eu venho do apartidarismo. Mas creio em Lula, o país precisa de
um presidente com origens humildes como ele.
LV - Então, a música é apolítica mas o músico não?
Djavan - Mais ou menos. Em minha música, não falarei de política, mas,
fora dela, sim. Creio que precisamos com urgência de uma reforma agrária,
uma distribuição da riqueza e muito investimento contra a pobreza, sobretudo
em educação.
LV - Qual é sua opinião sobre a gestão de Gilberto Gil no Ministério da
Cultura?
Djavan - Gil é uma pessoa trabalhadora, vanguardista, tem coragem,
generosidade. Está enfrentando grandes dificuldades, principalmente de
orçamento. Mas sua gestão está trazendo grandes benefícios para a cultura do
Brasil.
LV - Em plena globalização, há necessidade de protecionismo cultural?
Djavan - Quando a televisão chegou ao Brasil temia-se que todos os
ritmos regionais, nosso folclore, fossem desaparecer. E aconteceu o
contrário. Misturou-se com outros sons, mas também se conservou. Mas é
preciso estimular o regional, sim, porque dele se chega ao universal.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
(©
La Vanguardia/UOL Midia Global)
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