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Nossos homens em Cannes

Sérgio Machado e Marcelo Gomes

Roberta Oliveira

   Até hoje, em comum, o cineasta baiano Sérgio Machado, de 36 anos, e o colega pernambucano Marcelo Gomes, de 42 anos, tinham apenas o fato de ambos terem trabalhado com Karim Aïnouz no roteiro do longa-metragem “Madame Satã”. Agora, o ponto de encontro, literalmente, é outro. Ambos tiveram seus filmes, “Cidade Baixa” (lançamento no Brasil em 5 de agosto) e “Cinema, aspirinas e urubus” (ainda sem previsão de estréia), selecionados para a Un Certain Regard, principal mostra paralela, mas nem por isso sem prêmios, da 58 edição do Festival de Cannes. “Cinema, aspirinas e urubus” marca a estréia de Gomes em longas-metragens, enquanto “Cidade Baixa” é o primeiro longa de ficção de Machado, que já tinha no currículo o documentário “Onde a terra acaba” e o filme em episódios “Três histórias da Bahia”.

   — Vai ser uma festa nordestina, com certeza — comemora Machado.

   — Se o cinema é uma maneira de se comunicar, vai ser interessante se comunicar com pessoas que estão tão distantes de nós, da nossa realidade — completa Gomes.

Trajetória de Gomes começou com cineclube

   Os dois cineastas tiveram trajetórias distintas. Sem encontrar uma saída para a falta de uma faculdade de cinema em Recife, Gomes resolveu fazer, como ele mesmo diz, “o que a tradição manda”. Ou seja: inscrever-se no curso de engenharia. Um ano depois, já tinha trocado de carreira: comunicação social. Mas só se encontrou de verdade quando criou seu próprio cineclube. E o batizou de Jurando Vingar, mesmo nome do filme do cineasta pernambucano Ary Severo realizado na década de 20.

   — Na época, era difícil ter acesso ao cinema de arte — lembra Gomes. — Daí, a gente alugava uma sala e alugava os filmes.

   Da teoria, ele passou para a prática. Primeiro indo estudar cinema na Universidade de Bristol, na Inglaterra, e depois, de volta ao Brasil, fundando, com Adelina Pontual e Claudio Assis, a produtora Parabólica Brasil, onde fez seu primeiro curta, “Maracatu, maracatus”. Em 1999, veio o segundo, “Clandestina felicidade”. Na época, já vinha pensando em seu primeiro longa-metragem. Mas foram precisos sete anos para que ficasse pronto. Gomes viu, pela primeira vez, o produto final na última terça-feira.

   — Nossa, é difícil dizer como foi — tentou descrever o cineasta. — É muito emocionante ver pronto o filme com que você sonhou por sete anos.

   A idéia que deu origem ao roteiro surgiu a partir de uma conversa com seu tio-avô Ranulpho. Este também é o nome do personagem central da trama, vivido pelo ator João Miguel, estreante no cinema. Ranulpho, tanto o da ficção quanto o da vida real, é um homem que, nos anos 40, resolveu deixar o sertão da Paraíba — onde o filme foi rodado — para tentar a sorte no Sudeste. No caminho, encontrou Johann, um alemão que fugira da Segunda Guerra e que, no Brasil, sobrevivia vendendo, de cidade em cidade, um novo remédio: aspirina.

   — Apesar de o filme mostrar como, através da campanha publicitária da aspirina, o cinema chegava em cidades em que não havia nem energia elétrica, “Cinema, aspirinas e urubus” vai além — esclarece Gomes. — É um filme sobre a relação entre pessoas diferentes, de origens diferentes.

   Inicialmente, “Cidade Baixa” também se passaria nos anos 40, mais especificamente na Salvador dos anos 40. Mas Sérgio Machado acabou por ambientar nos dias de hoje o triângulo amoroso entre dois malandros (Lázaro Ramos e Wagner Moura) da capital baiana e uma prostituta (Alice Braga).

   — A passagem para a atualidade trouxe uma vitalidade maior ao filme e deu a ele um tom mais documental, com o acréscimo, inclusive, de cenas do cotidiano de Salvador — diz Machado, esclarecendo que o filme “Cidade Baixa” não é um docudrama. — Não usamos figuração, as pessoas que aparecem estavam nas locações na hora em que filmamos. Isso foi decisivo na hora de tornar “Cidade Baixa” um filme vertiginoso.

Machado fez filmes com Walter Salles

   Apesar de Machado ter estreado como cineasta à frente de um documentário, ele acredita estar mais ligado ao universo ficcional. Afinal, foi assim que se iniciou na carreira, fazendo pequenos vídeos em Salvador e, depois, como assistente de direção de Walter Salles em “Central do Brasil”, “O primeiro dia” e “Abril despedaçado”. Fascinado com o material que encontrou na produtora Videofilmes sobre o cineasta Mario Peixoto, diretor do mítico “Limite”, ele resolveu fazer o documentário “Onde a terra acaba”, que colecionou prêmios em vários festivais de cinema. Para realizar tanto um quanto o outro filme, ele diz ter sido influenciado principalmente pelo cinema mudo.

   — Em “Cidade Baixa”, as imagens falam por si, há mais ações físicas do que diálogos — diz o cineasta, que, apesar de ter estado no Festival de Veneza com Walter Salles nas sessões de “Abril despedaçado”, considera completamente nova a experiência de ir a Cannes. — A melhor coisa que um primeiro filme pode dar ao seu diretor é a possibilidade de fazer um segundo. Espero que “Cidade Baixa” me abra as portas para fazer o que mais gosto: filmar.

(© O Globo)


Três curtas brasileiros também estão no evento

   Há mais três presenças brasileiras em Cannes. Os curtas “Vinil verde”, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, e “Da janela do meu quarto”, do mineiro Cao Guimarães, serão apresentados na Quinzena dos Realizadores, e o também curta “O lençol branco”, de Juliana Rojas e Marco Dutra, está na mostra Cinéfondation, de cutas estudantis.

   Tanto Mendonça Filho quanto Guimarães têm uma trajetória recheada de prêmios. Apresentado pela primeira vez no ano passado no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, “Vinil verde” recebeu quatro prêmios no Festival de Brasília e outros três na 9 edição do Cine PE.

   Já Guimarães ganhou no ano passado os prêmios de melhor documentário nacional e internacional da mostra É Tudo Verdade, com o longa “A alma do osso”. Este ano o mineiro venceu, com o seu “Da janela do meu quarto”, a competição de curtas nacionais na mesma mostra.

(© O Globo)


DOCUMENTÁRIO

Lêdo Ivo mistura terra e água em versos

LUCIANA ARAUJO
DA REDAÇÃO

   Se o documentário "Imagem Peninsular de Lêdo Ivo" fosse uma fotografia, seu título seria uma legenda para cegos. A imagem que fica do poeta neste filme dirigido por Werner Salles Bagetti em 2004 e exibido amanhã, às 21h, pela STV, é exatamente a de uma península: cercada de água por todos os lados, menos um, pelo qual se liga a outra terra.

   A água é o universal na obra do escritor, mas a ela ele mistura sua terra. Aos 80 anos, é o próprio Lêdo Ivo quem diz pertencer à linhagem "dos alagoanos que emigram", ao contar que deixou a peninsular Maceió quando tinha 18 anos, rumo ao Rio de Janeiro, onde vive até hoje, para cursar direito. Mais adiante, ele completa: "O porto sempre foi um signo de evasão". E registra em verso: "Minha pátria são os apitos dos navios".

   Por outro lado -aquele ligado à terra-, o poeta parte, mas carrega consigo a cidade onde nasceu. "Minha vida haveria de transcorrer longe de minha terra natal, embora, dada a minha condição de poeta, eu estivesse aparelhado para levar minha terra na forma de lembrança, na forma de linguagem", diz Lêdo Ivo.
Assim, o universal em Ivo se dá, como sugere Tolstói, falando de sua aldeia. A célebre frase do escritor russo é citada no documentário pelo ensaísta Ivan Junqueira, que destaca a presença de Alagoas nos escritos de Ivo como marca de memorialismo, em detrimento do regionalismo.

   Junqueira situa ainda Lêdo Ivo na geração de 45, na qual o poeta parece não se encontrar. "Eu sempre fui visto como um estranho no ninho", afirma Ivo. "A gente começa geração e termina solidão. No meu caso, começo solidão e termino solidão", avalia.

   Entre outros lugares, como Recife e seu oposto João Cabral de Melo Neto, que fazem parte da trajetória de Lêdo Ivo, o filme destaca também a polêmica causada por outro ninho, o romance "Ninho de Cobras" (1973), este sobre os alagoanos que não emigraram.

Imagem Peninsular de Lêdo Ivo
Quando:
amanhã, às 21h, na STV

(© Folha de S. Paulo)

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