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A saga de um editor de cordel

GIOVANNI SANTOS

 KLÉVISSON Viana investe na publicação de folhetos desde 1997, por meio da editora Tupynanquim

A editora Tupynanquim, de Klévisson Viana, acaba de lançar uma caixa com 12 cordéis do poeta Leandro Gomes de Barros. Outro lançamento é a reedição do folheto Romance de Iracema

Eleuda de Carvalho
da Redação

   ''Tô indo como Deus quer'', e emenda numa gaitada, tirante ao relincho satisfeito de um jegue cardão. É Klévisson Viana, poeta e cartunista nascido em Canindé, responsável pela renovação de uma das mais engenhosas criações populares: o cordel. Através da Tupynanquim, Klévisson publica autores contemporâneos e reimprime os mais famosos títulos de folhetos, que fizeram a fama de poetas, xilógrafos e editores durante os anos de 30 a 50. Os mais novos lançamentos são Iracema, cordelizado por Alfredo Pessoa de Lima e reeditado para comemorar os 140 anos do romance de José de Alencar, e uma caixa com 12 folhetos de Leandro Gomes de Barros, nascido também há 140 anos.

   O Romance de Iracema vem com dois tipos de capa, em amarelo e em papel reciclado, todo ilustrado e com o histórico do autor, o poeta e advogado paraibano Alfredo Pessoa de Lima. ''A coisa mais maravilhosa deste folheto é que é extremamente atencioso ao romance de José de Alencar'', repara Klévisson. A caixa de Leandro Gomes de Barros vem com os folhetos Juvenal e o Dragão, O Testamento do Cachorro, Meia noite no cabaré, A sogra enganando o diabo, A vida de Pedro Cem, A vida de Cancão de Fogo, Casamento e divórcio da lagartixa, O cavalo que defecava dinheiro, O cachorro dos mortos e A Donzela Teodora, além do folheto sobre a vida do poeta, O pioneiro da literatura de cordel, por Klévisson Viana (texto e xilo da capa). Os folhetos podem ser adquiridos nas livrarias Livro Técnico, nas lojas da Ceart e pontos de venda da Praça do Ferreira (banca de informações turísticas), e na banquinha do Dragão do Mar. ''Desde que o Centro foi fundado, a gente tá por lá''.

   O xodó por cordéis começou cedo, relata Klévisson. ''Desde menino véi que compro folhetos. Me enchia de folhetos nas festas do Canindé. Eu trabalhava de vendedor ambulante. Nas romarias, vendia imagem de santo, tercinhos, bijuterias. No inverno, vendia bombom. Hoje não tenho só a maior coleção de folhetos mas de folclore. São 286 livros, verdadeiras raridades que eram do escritor Barros Alves. Ele não quis vender pra ninguém, só pra mim. Só que meu dinheiro tava mais curto do que coice de barrão. Ele pediu 'tanto', eu disse, dou a metade, que era pra ele desistir... Me pegou na palavra, tive que comprar''. No balaio, ''tudo'' de Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Silvio Romero, Alceu Mainardi, Juvenal Galeno, Catulo da Paixão. ''Só os fracos''.

   Mas foi apenas em 1997 que Klévisson, já cartunista de fama e poeta, começou a investir também na edição de folhetos. ''Me veio uma preocupação... Não diria que o folheto estava morto, mas se não se faz grandes tiragens, o folheto não circula, e se não circula, não chega às mãos do grande público''. A tiragem mínima da Tupynanquim é de mil exemplares por edição. O cordel História completa de Lampião e Maria Bonita já vendeu mais de oito milheiros. ''É igual à manteiga em venta de gato. Fiz uma tiragem há três meses, já tem outra saindo amanhã, é show de bola pra vender''.

   O gosto que começou na infância tem antecedentes familiares, lembra Klévisson. O bisavô, seu Fitico, era primo do cantador Jacó Passarinho, ''aquele da famosa peleja com o Cego Aderaldo, registrada em livro por Leonardo Mota. E minha vozinha, mãe de meu pai, Alzira de Sousa, já era uma colecionadora e leitora de folhetos. Contaminou meu pai com este gosto. Meu pai tentou se tornar um cantador - é improvisador de mão cheia - mas nunca foi incentivado pela família. Papai é poeta mas nunca publicou nada. Sempre tem uma estrofe, uma glosa na ponta da língua pra receber as pessoas. Ele tem um caderno, com as coisas que ele escreve. Qualquer dia, roubo aquele caderno''.

SERVIÇO
Romance de Iracema
e caixa Leandro Gomes de Barros (doze folhetos) - O romance, em tamanho maior que o cordel tradicional, com fac simile da capa da primeira edição e ilustrado com xilogravuras, custa R$ 4,00. A caixa de Leandro Gomes de Barros sai por R$ 20. Edições Tupynanquim. Informações: (85) 3217.2891 ou pelo e-mail kleviana@ig.com.br

NoOlhar.com.br)


Do folheto à Rede Globo

   A fama de Klévisson chegou mais longe do que ele imaginava. Em junho do ano passado, foi convidado para o seminário internacional Fronteiras da Literatura, na Universidade de Poitiers, ''onde estudou Descartes, Rabelais''. O rapaz do Canindé se abismou com a França, a terra natal de Carlos Magno e seus 12 pares, um dos ciclos mais importantes da literatura de cordel. ''Em frente à catedral de Notre Dame tem uma estátua dele, com Rolabd, que a gente chama Rolando ou Orlando, e Oliveiros. Pra onde você se vira, é um livro grande, com as páginas abertas. Fiquei hospedado numa casa de 1100 anos, em frente às ruínas de um castelo fantástico. A cem metros tinha outro, mais incrível ainda. A pessoa que estuda a história da Idade Média tem que ir lá''.

   Em outubro, Klévisson participou da caravana cearense que foi à feira do livro, na cidade do México. Lá, encantou-se com o Museu das Culturas Populares. ''Tudo que você imaginar na cultura brasileira, tem uma coisa correspondente. São culturas geradas da mesma fonte e você percebe isso claramente. Primeiro, a influência ibérica e indígena, que é a mesma nos dois povos, são os traços de união mais fortes, e tem também a participação dos negros, porque houve escravidão nos dois países. A casa do sertanejo é uma construção muito parecida com a nossa casa de taipa, eles usam rede assim como a gente, as lamparinas são sem tirar nem por, de flandres, do mesmo jeito das nossas, as rabecas são idênticas. A roupa do vaqueiro é toda de couro, mas com arabescos diferentes. E isso, sem contar os folguedos, a batalha de Oliveiros com Ferrabraz, um de encarnado, outro de azul, lutando de espadas, que vi na praça do Zócalo, durante a feira do livro. E a religiosidade, né? Se juntasse Aparecida, Juazeiro e Canindé, inda era pouco, pro tanto de gente na basílica de Guadalupe. E fui lá numa segunda-feira, imagine nos festejos da santa''.

   Klévisson Viana é filiado à Associação Brasileira de Literatura de Cordel, sediada no Rio de Janeiro, e à Associação Brasileira de Cordel, presidida pelo jornalista e poeta Vidal Santos. Seu folheto, A moça que namorou o bode, virou minissérie da Globo e tese na Unifor. ''E o jornalista José Nêumanne Pinto fez minha biografia pra coleção Cordel, da editora Hedra. E tem folhetos meus adaptados pra várias peças de teatro. No teatro Morro do Ouro está em cartaz 'O tribunal da floresta', e um grupo de Goiás montou 'O negrinho do pastoreio', outro grupo está montando 'O divórcio da cachorra', e por aí vai... A gente vai comendo pelas beiradas, à moda índio comendo canjica'', diz Klévisson, que finaliza um livro inédito de poemas, O Miolo da Rapadura.

(© NoOlhar.com.br)

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