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Trabalho do gravurista pernambucano é fio condutor em exposição na
França, contando o passado e o presente da literatura de cordel J. Borges, esse senhor que há quase cinco décadas conta em imagens sua versão bem pessoal para a História (e as histórias) do Nordeste, aumenta este ano a sua coleção de carimbos no passaporte. O trabalho do pernambucano é fio condutor da exposição que segue para território francês em agosto, dentro da programação do ano Brasil-França, com a tarefa de contar o passado e o presente da literatura de cordel – da oralidade às palavras, da capa/espada medieval ao chapéu de couro. Patrocinada pelo Banco do Nordeste, a exposição teve seu contrato assinado ontem pela manhã, na oficina do mestre, na cidade de Bezerros, com direito a papangu, passistas de frevo, bolo de rolo, discurso de prefeito e a presença de Andréa Lago, da produtora paulista Vide o Verso, responsável pela idealização do projeto. A idéia da exposição, de acordo com a produtora, é deixar o cordel contar o cordel. “A nossa preocupação era não cair no exotismo do Nordeste ou algo parecido. E, sim, contar a história do cordel, mostrar suas origens na Europa. Queríamos pensar como aquelas histórias lá dos séculos 15 e 16 ainda continuam tendo eco atualmente e entender como elas foram adaptadas ao cenário do Sertão”, explicou Andréa Lago. A mostra de Borges realça imagens dos principais arquétipos do nordestino – o cangaceiro, o vaqueiro e o padre Cícero, o santo “criado” pelo povo que não precisou do caminho oficial da fé católica. Como a exposição também conta um pouco da história “dos de lá”, figuras típicas do imaginário europeu, e particularmente francês, também estarão presentes, como Joana d’Arc. Itinerante, a expô começa em agosto em Paris, na Maison Auguste Comte, centro cultural franco-brasileiro, em pleno bairro turístico de Marais. Depois, segue para a Bibliothèque Alcazar, em Marselha. Em novembro, a mostra passa pelo centro cultural Châteauvallon, em Toulon, e tem suas últimas datas em dezembro, no conselho geral da cidade de Poitiers. Durante essas paradas, J. Borges realiza oficinas e palestras. “O projeto teve uma repercussão tão boa porque ele também é itinerante. Esse caráter ‘vivo’ de palestras e de mobilidade chamou bastante a atenção dos franceses”, afirmou Lago. Encerrada a turnê internacional, a exposição irá cumprir temporada brasileira. Até agora, apenas quatro cidades estão certas, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Teresina e Recife. As datas e os locais ainda não estão fechados. A confirmação de J. Borges, dentro desse concorrido “vestibular” de projetos culturais que virou o ano Brasil-França, chegou em um momento de datas redondas importantes para o mestre. No final do ano, ele comemora 70 anos de vida e, em 2006, 50 anos de trabalho dedicado às palavras e às imagens do cordel. Antes de seguir para a França, Borges vai para uma temporada de palestras e exposições nos Estados Unidos, em julho. A lista de carimbos no seu passaporte não pára de aumentar. “Acho que só faltam umas duas ou três cidades da Suíça que eu não conheço. Falta conhecer aquela, qual é o mesmo o nome, ah, lembrei, Genebra”, puxa pela memória J. Borges quando questionado em relação à Europa que conhece esse lado daqui do mapa pelas figuras que ele cria. Tantas viagens ao redor do mundo, no entanto, nunca fizeram o artista querer “pular a cerca” e usar as paisagens internacionais como inspiração. “Eu vi lugares lindos, mas o meu compromisso é contar a história do Nordeste, falar das coisas que eu vejo aqui. Por exemplo, quando eu fui à Universidade do Texas fazer uma palestra, eu vi que lá eles têm uma rádio só de música brasileira, que não deixa de tocar Asa Branca. Eu acho bonito isso o que o Luiz Gonzaga fez: ficou famoso no mundo inteiro só falando do Nordeste. Como grande fã dele que eu sou, faço do meu trabalho uma espécie de imitação (risos) da sua fidelidade à região”, esclareceu o mestre. “Tem vezes que um estrangeiro me pede para fazer desenhos das imagens de lá. Por encomenda, eu faço. Mas isso não é muito freqüente, não, porque eles já têm lá as pessoas que pintam esses lugares. Os turistas querem mesmo as imagens daqui para levar pra casa”, atestou. O Nordeste, esse real, no entanto, está se esgotando quando o assunto é despertar a imaginação de Borges. Por isso, o mestre agora se debruça em uma série que ele chama “acrescentando à Natureza”, em que seu material de criação é o fantástico para dar vida a bichos inacreditáveis, como um peixe com pé. “As coisas estavam se repetindo, então pensei: por que não criar a partir das lendas?” De lobisomem, dragão a peixes que caminham à solta por aí, tem gente que até acredita que esses personagens são reais e que vivem vagando pelas redondezas da oficina do mestre. “Eu digo aos estrangeiros que é tudo verdade, e tem alguns que nem duvidam de uma só palavra do que eu digo (risos)”, completou. (© JC Online) |
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