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Documentos de um sertanejo

Vladimir Carvalho
 

Mostra no CCBB comemora os 70 anos do documentarista paraibano Vladimir Carvalho

Carlos Helí de Almeida

   O documentarista paraibano Vladimir Carvalho tem uma teoria bastante curiosa para explicar a popularidade que o documentário, este gênero quase sempre menosprezado pelas massas, vem conquistando nos últimos anos dentro e fora do país:

   - Não foram os documentários que melhoraram, mas o público - acredita o cineasta, cujos 70 anos de vida estão sendo comemorados com a retrospectiva Vladimir 70, que começa amanhã no Centro Cultural Branco do Brasil (CCBB), com exibição de, entre outros, sua obra mais celebrada, O país de São Saruê (1971). - A mídia abraçou o documentário e os espectadores estão respondendo a esse bombardeio. Combinado a essa situação, percebemos um certo esgotamento da ficção, que se apoia cada vez mais na tecnologia, no aparato, e se desumanizou. O documentário nos aproxima do homem.

   Passatempo estimulado em criança pelo pai, um intelectual de esquerda da pequena Itabaiana, ex-centro agropecuário da Paraíba, o cinema só virou uma possibilidade profissional quando Carvalho já entrava no mundo adulto. O diretor estudava em Recife quando chegou à cidade uma mostra de filmes organizada por um crítico carioca que assinava apenas como Jonalde. Um dos títulos da mostra era O homem de Aran (1934), documentário sobre uma colônia de pescadores irlandeses dirigido por Robert J. Flaherty, um dos pioneiros do gênero.

   - Eu tinha uns 20 anos e, até aquele momento, documentário para mim era o curta que exibiam antes dos longas-metragens. Fiquei em estado de graça assistindo a O homem de Aran. Era algo diferente de tudo o que eu vira antes, não havia um sinal sequer da parafernália hollywoodiana. Entendi que a realidade é muito rica e a naturalidade do documentário me fascinou - conta o diretor,irmão mais velho e referência do fotógrafo e também cineasta WalterCarvalho.

   Nascia em um cineclube pernambucano, um documentarista de intenso apego por suas origens sertanejas. Sua obra é marcada por investigações da ligação do homem com a terra ou com o trabalho, como nos curtas Romeiros da guia (1962, em co-autoria com João Ramiro Mello), sobre a peregrinação anual de pescadores, ou A bolandeira (1967), um réquiem para os engenhos do Nordeste. Carvalho realizaria o seu primeiro grande clássico ainda nos anos 60, o perseguido O país de São Saruê, sobre a exploração da mão-de-obra sertaneja no interior da Paraíba, filmado em três etapas entre 1966 e 1971 e banido das telas pelo regime militar até 1979.

   Restaurado recentemente, O país de São Saruê permanece como um marco da militância de Carvalho na defesa da bravura sertaneja. Uma atuação que não arrefeceu com a transferência do cineasta para Brasília, cidade onde mora desde 1969 e que inspirou filmes como Conterrâneos velhos de guerra (1991), sobre o massacre de operários (nordestinos) durante a construção da capital federal, e Barra 68 (2001), que conta a criação da Universidade de Brasília e a invasão do campus por tropas militares durante a ditadura.

   - A minha filmografia é reflexo de minha formação e de minhas raízes. Meu pai era um sujeito politizado, lia romances socialistas. Minha mãe era católica. Dona de um sentimento de solidariedade ímpar, visitava hospitais e dava assistência às vítimas da seca. Para mim, seria inevitável fazer filmes com contexto social, até como forma para eu entender a mim mesmo - explica o diretor, que tem Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, e Os sertões, de Euclides da Cunha, como livros de cabeceira desde a juventude.

   Enquanto goza da homenagem promovida pelo CCBB, Carvalho prepara-e para filmar O engenho de José Lins, inspirado em texto do escritor paraibano José Lins do Rego. É um projeto que vai investigar o desmonte da indústria açucareira na Paraíba, a ser rodada em Pilar, um dos antigos centros do ciclo da cana-de-açúcar. A fase de entrevistas e pesquisas já começou.

   - É uma volta a mim mesmo - assume o diretor.

JB Online)

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