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DJ Dolores e sua nova aparelhagem

DJ Dolores

Em novo disco, o artista abre para o hip hop, o samba, o funk e o tecno-brega

João Bernardo Caldeira

   Aparelhagem, o nome do terceiro disco do DJ Dolores, é bem diferente do primeiro, batizado sabiamente de Contraditório?. Mudou completamente a banda escalada pelo sergipano radicado em Pernambuco, que se apresenta no Jockey Club, dentro do Vivo Open Air. O CD, que dá nome ao novo grupo, não se prende aos ritmos nordestinos tradicionais e abre o leque para gêneros como samba, hip hop, funk ou o tecno-brega de Belém do Pará (leia crítica ao lado). Dolores, ou simplesmente Hélder para os amigos, segue doutrinando seus ouvintes com misturas inesperadas.

   - As pessoas se preocupam muito com a diferença entre os estilos, mas o importante para mim é que a combinação funcione. Além disso, o mundo já é muito compartimentado por gosto, classe social e religião. Pelo menos na música, posso criar um universo ideal sem nenhum tipo de divisão - almeja.

   A banda Aparelhagem foi reformulada quatro vezes desde seu início, há cerca de um ano. No festival Abril Pro Rock do ano passado, ainda parecia pouco vibrante. Mas, na apresentação no mesmo evento, há duas semanas, conseguiu arrebatar o público, que dançou e curtiu as batidas de sotaque ímpar. Dolores diz que foi aos poucos que alcançou sua sonoridade ideal e explica por que motivo a Santa Massa ficou para trás, com exceção da cantora Isaar, ainda à frente, no palco:

   - A Santa Massa acabou porque tocamos tanto tempo que eles esperavam fazer um disco de banda. Mas não me interessa fazer um trabalho coletivo. Quero fazer discos de produtor. E também gosto da idéia de estar sempre recomeçando e pensando cada disco como um novo projeto, com prazo de validade determinado.

   No Brasil, o DJ-produtor radicado em Recife não conquistou fama, mas o elogio de gente como Caetano Veloso. No exterior, no entanto, Dolores é mais conhecido, já que faz turnê pela Europa há quatro anos. Aparelhagem está sendo lançado na Europa, Estados Unidos e Japão, pelo Ziriguiboom, braço do selo belga Crammed, de artistas como Bebel Gilberto. Lá fora, causa estranheza e rebuliço faixas como Mantilha, presente no novo trabalho, repleta de nuanças e recantos:

   - Essa é uma canção bastante curiosa. Parti do sample de uma rumba colombiana, coloquei uma batida meio chanson e o Catatau seguiu essa linha latina nas guitarras. O nova-iorquino Frank London, do grupo Klezmatics, estava passando por Recife e colocou um trompete com sotaque do Leste europeu. Essa faixa é exemplar da combinação de diferentes influências.

   Enquanto apresenta a turnê do CD, Dolores vai pensando no próximo disco e cuidando de projetos paralelos. O DJ-produtor constantemente é chamado para compor trilhas para cinema e teatro, e também para fazer remixes (os próximos serão dos grupos Mombojó, Cordel do Fogo Encantado e do colombiano Batata). A pedido de um selo inglês, ele também está selecionando músicas para uma compilação de dance music latina.

   Depois do show no Rio, Dolores vai direto para o México, onde manterá um velho ritual:

   - Quando chego numa cidade, enquanto todo mundo vai passear e comprar roupa, eu fico fuçando loja de disco. Tocar hit é fácil. Difícil é mostrar coisas novas e surpreendentes.

JB Online)


Eletrônica sem algemas

Tárik de Souza

   Adepto da coqueteleira de estilos, o sergipano/ pernambucano DJ Dolores (Hélder Aragão, 37) agrega eletrônica aos ecos das ruas nordestinas, da ciranda ao coco e até o brega no recém-editado Aparelhagem (Azougue/Ziriguiboom). Criador avesso às algemas dos gêneros, DJ Dolores oxigena o cenário com suas alquimias sonoras, cujo acúmulo de citações, referências e interseções convida a novas audições elucidativas.

   Atuante desde antes da erupção oficial da cena manguebeat, em 1989, o DJ Dolores virou comandante de nave eletrônica em 1997 e tripulou a Orquestra Santa Massa (integrada por rabeca, guitarra, trombone e picapes) até o disco anterior, o dialético Contraditório?.

   Autor de trilhas elogiadas para filmes como O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas, Narradores de Javé, balés (Desatino do norte, com o Corpo de Baile do Municipal de São Paulo) e peças (A máquina, de João Falcão), Dolores agora comanda a Aparelhagem, com destaque para a cantora/ autora Isaar.

   Assim como Marcelo D2 busca a batida perfeita, o pernambucano/ sergipano navega na ''zona de confluência entre as várias expressões da tradição musical urbana do Norte/ Nordeste revistas sob a ótica da eletrônica''. O pulso do baião (numa batida dura, quase house) come solto em Salvo (The preacher) e na abertura De dar dó. A voz crua de Isaar dardeja a embolada: ''é da calçada pro transporte/ do transporte pro trabalho/ do trabalho para a morte/ a vida do operário''.

   O maracatu rave Azougue serve o literalmente explosivo coquetel do mesmo nome que leva cachaça limão e... pólvora. ''Faz os caboclos dançarem a noite inteira'', informa ele no encarte. Na Ciranda da madrugada, de ritmo ralentado em relação ao pique original do estilo, há uma ''vibe'' de reggae. Já Sanidade remete à cena original brega do Pará, ao misturar carimbó e zouk caribenho a uma batida house fixa. Para não dizer que focou apenas o cenário nativo, Dolores, que faz excursões européias seriadas, evoca Emma Bovary, personagem de Flaubert, sob a névoa eletrônica de Rouen. Nada escapa à centrífuga pós-moderna.

JB Online)

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