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Memórias de Vladimir

Vladimir Carvalho no CCBB

Jaime Biaggio

   Vladimir Carvalho, documentarista radicado há mais de 30 anos em Brasília, tem cerca de oito horas de fitas gravadas com material inédito de arquivo das bandas de rock que a capital federal revelou nos anos 80. Está tudo guardado no Centro de Produção Cultural e Educativa (CPCE) da UnB, de onde ele é professor aposentado: entrevistas e trechos de shows da mítica tríade Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, mais os Paralamas do Sucesso ( mezzo brasilienses, visto que Herbert Vianna e Bi Ribeiro se conheceram lá) e o Detrito Federal, conhecido de quem viveu a época.

   — Filmei gente quebrada na enfermaria do show da Legião em que ocorreu um quebra-quebra (em junho de 1988) . Tenho o Philippe Seabra (guitarra e vocal da Plebe Rude) nos shows, de calça rasgada no joelho, e depois casando, todo arrumado, com terno risca-de-giz. Tudo isso filmei na época já com a idéia de registrar o rock de Brasília — diz ele.

   Está tudo lá. Alguma hora sai um filme disso. É parte do método Vladimir Carvalho de trabalho: deixar o material decantar, esperar que a junção de novos materiais dê novo sentido ao que já se tem em mãos. Assim foi o processo que levou a filmes como “Conterrâneos velhos de guerra” e “Barra 68”, alguns dos itens mais marcantes de uma filmografia que será celebrada de hoje a domingo no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na primeira retrospectiva completa do trabalho de Vladimir no Brasil.

   — Há 15 anos, houve uma em Montevidéu — lembra ele.

Um presente em vídeo do irmão Walter Carvalho

   A mostra se chama “Vladimir 70”, alusão à idade a que ele chegou em 31 de janeiro, e ocupa o cinema e a sala de vídeo do CCBB, com os cinco longas-metragens dele, curtas reunidos em programas de quatro, o filme de Dácia Ibiapina “Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra”, e, na abertura de todas as sessões da sala de cinema, “Vladimir 70”, um presentinho especial de nove minutos do irmão caçula Walter Carvalho (co-diretor de “Janela da alma”, com João Jardim, e de “Cazuza — O tempo não pára”, com Sandra Werneck, e diretor de fotografia mais celebrado do cinema nacional).

   — Walter armou esse vídeo em segredo junto com nossa irmã Vilma — conta ele.

   O fato de Walter morar no Rio e Vladimir em Brasília ajudou a proteger o segredo: o homenageado só ficou sabendo da existência do vídeo na hora de sua exibição na abertura da mostra na capital federal, há uma semana.

   — Rapaz... sou meio metido a macho nordestino, mas chorei muito vendo o vídeo — confessa ele, paraibano de Itabaiana. — Logo no início, há uma fala do Ariano Suassuna (também paraibano e amigo dele) , e depois aparece um cartão do meu pai para a minha mãe. Não resisti.

   O pai (mestre Lula, como Vladimir o chama) foi a influência que levou o filho mais velho ao jornalismo. Seu primeiro texto foi escrito para um jornal que o pai editava. Foi o início de um caminho que o levaria, já nos anos 60, à geral do “Diário de Notícias” do Rio.

   — Fiz uma matéria com Donga, que deve ter sido a última reportagem com ele vivo (o compositor morreu em 1974) . Entrevistei Pixinguinha e João da Baiana juntos, no Bar do Gouvêia, na Rua da Quitanda — lembra ele, concordando que, de certa forma, faz jornalismo até hoje. — O documentário é muito parente do jornalismo. É primo-irmão. Eu me identifico em especial com o filme que transcende a notícia, os simples dados de uma reportagem, e atinge uma certa qualidade poética. Não que seja uma ficção, mas que tenha uma transcendência aos fatos. Como “O homem de Aran”.

   “O homem de Aran”, do americano Robert J. Flaherty (1884-1951), um dos mitos do cinema de não-ficção, é de 1934 e narra uma saga coletiva à la “O velho e o mar”. Ao longo de dois dias e duas noites, um grupo de homens de uma comunidade pesqueira na costa da Irlanda luta para arpoar uma baleia; na costa, seus familiares esperam pelo retorno deles. Puro drama humano, filmado como tal (há quem sequer o considere um documentário, já que há muito material encenado). E o filme que levou Vladimir ao cinema.

   — Eu tinha 22, 23 anos quando vi o filme, no Recife, dentro de um ciclo de dez filmes de autor que um crítico carioca, o Jonald (pseudônimo de Oswaldo de Oliveira) , levou para lá — conta ele. — Não estava ainda no caminho do cinema. Aquele foi o marco inicial. Percebi ali que também se fazia cinema assim, a partir da vida real. E pensei que aquilo era algo que eu poderia e gostaria de fazer.

   Pouco depois, ele estaria trabalhando na sua primeira assistência de direção, primeiro passo na estrada que o levaria ao “País de São Saruê” (seu primeiro e mais celebrado longa, que passa hoje às 19h).

O Globo)


Um cinema que nasce da espera e do acaso

   Restaurado ano passado com dinheiro da Petrobras, por iniciativa do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, “O país de São Saruê” vasculha a região sertaneja do Rio do Peixe, entre Ceará, Pernambuco e Paraíba, quatro anos depois da tomada do poder pelos militares. Ficou preso na Censura até 1979, e hoje é considerado um dos maiores documentários da História do cinema nacional.

   De quebra, rendeu ainda um belo curta, “A pedra da riqueza”, que passa hoje, junto com outros quatro, na sessão inaugural da mostra, às 17h.

   — Percorrendo o sertão na época de “São Saruê”, eu paro para beber água e de repente ouço aquele barulho de ferro batendo na pedra. Era uma mina de xelita (tungstato de cálcio, minério do qual se extrai tungstênio) , palavra que eu nem sabia que existia então — conta ele, que se deixou fascinar pelo processo de trabalho dos mineiros. — Fiquei por ali, filmei nessa tarde mesmo e no dia seguinte inteiro.

   As imagens foram registradas assim, de sopetão, no calor do momento. Já o filme foi submetido ao método Vladimir de decantação. Só foi ver a luz do dia em 1975, quando ele já residia em Brasília.

   — Eu detestava ter de explicar o que eu mesmo filmei. Um dia, José Laurentino, servente da UnB, chamado pelos alunos de Barra Limpa, porque era fornecedor de maconha, viu-me a mexer com o material, reconheceu o lugar e me disse que tinha trabalhado lá. Então gravei um depoimento dele. E o off disso é o áudio do filme.

Um vazamento no banheiro o levou a José Lins do Rêgo

   “Barra 68”, o seu longa mais recente (2001), sobre a UnB nos anos 60 enquanto utopia (o projeto de Darcy Ribeiro de criar uma instituição de ensino revolucionária) e realidade (a morte desse projeto nas mãos da ditadura, com a ocupação do campus pelo exército, em 68), passou por processo semelhante de decantação. A base do documentário, de 82 minutos, é um rolo de filme de seis. São imagens tremelicantes de estudantes acuados na quadra de basquete, filmadas na encolha pelo futuro cineasta Hermano Penna. Estavam nas mãos de Vladimir desde meados dos anos 70, inicialmente para entrarem em “Conterrâneos velhos de guerra”. Ficaram inéditas até o lançamento de “Barra 68”.

   — Aquele filme ficou grande demais e tirei dele o rolo. Esperei surgir o contexto certo. Em 96, quando entrevistei Darcy por outro motivo, e ele contou a história da UnB, ele surgiu.

   O acaso costuma ajudar Vladimir. E continua a fazê-lo hoje, quando ele prepara seu próximo projeto, “O engenho de Zé Lins”, sobre José Lins do Rêgo, conterrâneo e ídolo de seu pai. Outro dia, um vazamento no banheiro do apartamento que mantém no Rio, no Flamengo, deu infiltração no do vizinho. Papo vai, papo vem, como-é-mesmo-o-nome-do-senhor?

   — José Lins do Rêgo. É neto dele — diz Vladimir.

O Globo)


A programação da mostra

26/04

SALA DE CINEMA: às 17h, Pantasmas: Os Curtas Nordestinos (“Romeiros da guia”, “A bolandeira”, “Incelência para um trem de ferro”, “No galope da viola” e “A pedra da riqueza”); às 19h, “O País de São Saruê”.

SALA DE VÍDEO: às 16h30m, Curtas — Programa 2 (“Itinerário de Niemeyer”, “Vila Boa de Goyaz”, “Paisagem natural” e “Brasília Segundo Feldman”); às18h30m, “Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra”, de Dácia Ibiapina

27/04

SALA DE CINEMA: às 17h, Cinema Brasiliense — Programa 1 (“Vestibular 70”, “O espírito criador do povo brasileiro”, “Itinerário Niemeyer” e “Vila Boa de Goyaz”); às 18h30m, “Barra 68, sem perder a ternura” — sessão seguida de debate

SALA DE VÍDEO: às 16h30m, “Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra”; às 18h30m, Curtas — Programa 1 (“Romeiros da guia”, “A bolandeira”, “A pedra da riqueza” e “Incelência para um trem de ferro”); às 20h30m, debate com as presenças de Vladimir Carvalho, do curador Sérgio Moriconi e do crítico Carlos Alberto Mattos.

28/04

SALA DE CINEMA: às 17h, Cinema Brasiliense — Programa 2 (“Quilombo”, “Mutirão”, “Perseghini”, “Paisagem natural” e “Brasília segundo Feldman”); às 19h, “Conterrâneos velhos de guerra”.

SALA DE VÍDEO: às 16h30m, Curtas — Programa 1; às18h30m, “Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra”.

29/04

SALA DE CINEMA: às 17h, Pantasmas: Os Curtas Nordestinos; às 19h, “O Evangelho segundo Teotônio”.

SALA DE VÍDEO: às 16h30m, “Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra”; às 18h30m “Zum-zum com os pés no futuro”, “Vila Boa de Goyaz”, “A paisagem natural” e “Brasília segundo Feldman”.

30/04

SALA DE CINEMA: às 19h, “O homem de areia”

SALA DE VÍDEO: às 16h30m, Curtas — Programa 2; às 18h30m, “Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra”.

01/05

SALA DE CINEMA: às 17h, Cinema Brasiliense — Programa 2; às 19h, “Barra 68, sem perder a ternura”.

SALA DE VÍDEO: às 16h30m, “Vladimir Carvalho, conterrâneo velho de guerra”; às18h30m, Curtas — Programa 1.

O Globo)

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