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Baião de dois

Elba Ramalho e Dominguinhos

Elba Ramalho e Dominguinhos fogem dos clichês do forró com pitadas de jazz

Tárik de Souza

   Sopa no mel. A paraibana Elba Ramalho, discípula de Marinês, e o pernambucano Dominguinhos, filho musical de Luiz Gonzaga, consolidam no primeiro CD a dois a herança do baionato. Elba Ramalho e Dominguinhos (BMG), inicialmente intitulado Baião de dois, também serve como songbook do sanfoneiro, que projetou o forró (uma cornucópia de gêneros, do próprio baião ao xaxado, coco, quadrilha e até xote) no segmento dos consumidores mais sofisticados.

   Embora duas músicas não tenham a assinatura dele, o disco da dupla, que também divide a maioria dos vocais, alinha o amplo espectro de parceiros de José Domingos de Morais, nascido em 1941, em Garanhuns. De Chico Buarque (Xote da navegação) a Nando Cordel (Isso aqui tá bom demais, De volta pro aconchego). De Djavan (Retrato da vida) ao pouco conhecido Wally Bianchi, em Rio de sonho.

   Os arranjos do produtor Zé Américo Bastos procuram fugir aos clichês do chamado forró universitário, enfiando pitadas de jazz, promovendo trocas de andamentos e recauchutagens em números muito surrados. E Elba, de Conceição do Piancó, nascida em 1951, apurou ainda mais o trinado de pastorinha.

   São casos como o da manjada Lamento sertanejo (velha parceria do sanfoneiro com o ministro Gilberto Gil), que, além da interpretação soberba de Elba (''ela cantou tão bem que não me atrevi a entrar'', admite Dominguinhos), recebe um engate redentor de Pipoca moderna, tema de Sebastião Biano, da Banda de Pífanos Zabumba de Caruaru, letrado com maestria por Caetano Veloso.

   Enquanto Eu só quero um xodó (com Anastácia) ganhou ritmo mais picado, trespassado por sopros, Pedras que cantam (parceria com Fausto Nilo) e a supracitada Isso aqui tá bom demais, acopladas, tiveram acelerado o pique de quadrilhas à beira da fogueira. Se algum reparo pode ser feito é a seqüência de xotes, Chama (de Tato, do grupo Fala Mansa), Xote da navegação e Gostoso demais (outra com Nando Cordel), que produz um remanso excessivo no fluxo do disco, logo após Retrato da vida (bipartido em bolerão) e outro xote anterior, Onde está você (de Zezum, músico que há anos acompanha Dominguinhos).

   De volta pro aconchego é apresentada numa versão ainda mais lânguida, onde Elba, a criadora do megasucesso, investe nos glissandos vocais. Tenho sede (outra de Dominguinhos com a ex-mulher Anastácia) recebe uma jam de guitarra. Normalmente pouco criterioso na parte vocal, favorecido por um barítono de bom timbre, Dominguinhos refina a interpretação nesse disco, como destaca Gilberto Gil no texto de apresentação.

   E em faixas sacudidas como Forrozinho bom, parceria com Climério Ferreira (''ele costuma fazer a letra em cima da perna, na hora'', brinca o sanfoneiro), nem há o que encucar. É ''requebrasil'' puro, fruto daquele balanço ancestral injetado na música nordestina pelo patriarca Luiz Gonzaga.  

JB Online)


Afilhados do seu Luiz

A cantora convidou e o sanfoneiro aceitou. Juntos, Elba Ramalho e Dominguinhos fazem o grande encontro que o mestre Luiz Gonzaga aprovou no céu. O CD valoriza o lado compositor do afilhado

Luciano Almeida Filho
da Redação

   Elba Ramalho e Dominguinhos se conhecem há 30 anos, desde que a paraibana acompanhou o Quinteto Violado em sua mudança para o Rio de Janeiro. A amizade foi se solidificando paulatinamente. Elba convidava e Dominguinhos sempre aceitava participar de seus discos. A recíproca também era verdadeira, apesar de menos freqüente. Nestas três décadas, os dois estavam sempre se encontrando, principalmente quando o assunto era o padrinho dos dois, o mestre Luiz Gonzaga.

   Desta vez, Elba Ramalho pensou diferente. Convidou Dominguinhos para dividir o palco lado a lado. A princípio, ele não compreendeu: na sua modéstia sertaneja, aceitou achando que seria mais uma participação no show da estrela paraibana. Elba retrucou. Não era uma participação, era um show meio a meio, os dois cantando juntos praticamente todas as músicas. A estréia aconteceu no Canecão e foi se transformando num projeto de um CD em parceria, Elba Ramalho e Dominguinhos (Sony-BMG). Um grande encontro que Luiz Gonzaga abençoou lá do céu.

   O resultado é quase um 'songbook Dominguinhos', onde o homenageado se faz presente e atuante. Das 13 faixas, apenas duas não levam sua assinatura: ''Onde está você'' (Zezum) e ''Chama'' (Tato, do Falamansa). A linha mestra do CD é mesmo os clássicos já consagrados de sua obra em novos arranjos: ''Tenho sede'', ''Lamento Sertanejo'', ''Eu só quero um xodó'', ''De volta pro aconchego'', ''Pedras que cantam'' e ''Isso aqui tá bom demais''.


   As vozes de Elba e Dominguinhos possuem registros diferentes, o que nem sempre resulta em duetos interessantes. Praticamente em todas as faixas, o sanfoneiro tenta se adaptar ao tom da cantora mais agudo da cantora, nem sempre com resultados satisfatórios. Mas quando a liga funciona, a parceria gera momentos de rara emoção. Vale conferir especialmente as faixas menos conhecidas que comprovam as qualidades de Dominguinhos como um dos melhores melodistas da música popular brasileira em atuação hoje.

   Ele tem o mérito de saber equilibrar melodias de beleza tocante e sofisticação com rara maestria, fato que independe do parceiro - Nando Cordel, Fausto Nilo, Chico Buarque, Gilberto Gil, Anastácia, Climério, Djavan, ou qualquer outro. Elba e Dominguinhos agora prometem viajar o país com show junto. Tudo só depende das agendas deles e das limitações do sanfoneiro que não viaja de avião. Quem tiver oportunidade de conferir, não perca. No palco, estes dois devem render melhor que no disco.


SERVIÇO
Elba Ramalho e Dominguinhos
- CD reunindo a cantora paraibana e o cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano. Produção: Zé Américo Bastos. Lançamento Sony-BMG. 13 faixas. Com letras. Preço médio: R$ 32,00.

NoOlhar.com.br)


Olhar que revela a musicalidade

O milagre do Candeal. Carlinhos Brown e outros

Antonio Carlos Miguel

   Um dos mais exuberantes exemplos da musicalidade brasileira contemporânea, Carlinhos Brown, no entanto, parecia que vinha jogando sua carreira pelo ralo. Depois de dois interessantes discos, “Alfagamabetizado” (1997) e, principalmente, “Omelete man” (este, produzido por Marisa Monte em 1998, foi um fracasso comercial), seus trabalhos solos seguintes decepcionaram. Alguma dose de megalomania do artista, falta de direção e tentativa de jogar segundo as regras do mercado entornaram o caldo.

   A sorte, no entanto, acompanha o cantor, compositor, produtor e multiinstrumentista. Largado pelas gravadoras brasileiras, virou estrela na Espanha, onde foi contratado pela BMG; por aqui, participou, ao lado de Marisa Monte e Arnaldo Antunes, do CD “Tribalistas”, o último grande sucesso de vendas na MPB; e teve sua importante ação sócio-musical num bairro de periferia em Salvador registrado em “O milagre do Candeal”, filme do espanhol Fernando Trueba.

Desejo de Bebo Valdés inspirou Fernando Trueba

   A trilha do documentário, lançada no Brasil pela Sony/BMG, funciona também como painel abrangente da música de Carlinhos Brown e de suas influências. Com a participação de convidados — o principal deles, e um dos motes para o filme, é o pianista cubano Bebo Valdés — Brown vai além de seus últimos, e equivocados, discos: “Carlito Marrón” (2003), preso demais à influência da música caribenha; e “Candyall beat”, projeto em dupla com o DJ Dero, igualmente amarrado por uma estética redutora.

   Para se entender o que se ouve em “O milagre do Candeal”, vale lembrar de como nasceu o projeto de Trueba — diretor que tem no seu currículo um Oscar de filme estrangeiro, em 1993, com “Sedução”, apaixonado por música, com um grande filme sobre o jazz afro-latino, “Calle 52”, e produtor de discos. Há dois anos, ele procurara a BMG espanhola para negociar a distribuição do CD “Lágrimas negras”, de Bebo Valdés com o cantor flamenco Diego El Cigala, e saiu de lá com a encomenda de um documentário sobre Carlinhos Brown, sua música e seu papel para a revitalização do Candeal em Salvador.

   Trueba ampliou o conceito, lembrando-se que Valdés — radicado há 40 anos na Suécia e pai de outro grande pianista, este ainda em Cuba, Chucho Valdés — dissera que o único lugar que gostaria de ir antes de morrer era a Bahia. Para Bebo, então com 85 anos, a música, a cultura e a religião de seus ancestrais africanos estariam mais preservadas na Bahia do que em Cuba.

   Com essa idéia, câmeras e gravadores em muitas mãos, Trueba e Bebo foram ao encontro de Carlinhos Brown, que os ciceroneou por Salvador. No repertório, além de composições de Brown (algumas gravações tiradas de seus discos), há temas de domínio público (“Ashansu”, da tradição afro-brasileira, adaptada por Brown e o cantor Mateus), músicas estrangeiras que influenciaram os baianos (a cubana “Blen blen blen”, do percussionista Chano Pozo, e o standard de jazz “Moonlight serenade”, ou “Serenata ao luar” na versão de Brown e Gerônimo Santana) e um clássico da canção brasileira (“Faixa de cetim”, de Ary Barroso, na gravação que Caetano Veloso fez para o songbook de Almir Chediak).

   Entre as composições de Brown, um destaque é “Músico”, parceria com Cézar Mendes que fora lançada em “Omelete man”, regravada aqui com Marisa Monte e Bebo. Um dos belos encontros de um filme que agora merece ter sua versão em DVD também editada entre nós.

O Globo)

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