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Começa a grande festa da viola

Os cantadores Ivanildo Vila Nova e Raimundo Caetano
 
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Afrânio, no Sertão do São Francisco, é palco para a quinta edição de um festival que levará alguns dos maiores nomes da cantoria de viola a quatro Estados brasileiros

JOSÉ TELES

   O V Desafio Nordestino de Cantadores, que começa amanhã, em Afrânio, Sertão do São Francisco, a 782 km do Recife (ver programação ao lado), poderá ter uma final histórica, com a participação este ano da dupla Raimundo Nonato (PB) e Nonato Costa (CE), que lideram um grupo rival ao de Ivanildo Vila Nova. Pela primeira vez, os Nonatos, reconhecidamente a maior revelação da cantoria de viola dos últimos 15 anos, participam do evento, Até então eles se recusavam a fazê-lo porque não aceitavam Vila Nova como integrante da comissão organizadora. Mais do que o encontro de desafetos, será o duelo de grandes artífices do verso improvisado.

   Nesta edição do festival faz-se necessário o uso de um clichê: com a participação de dois grupos quem sai ganhando é o repente e seus admiradores (ou apologistas, como se diz no jargão da cantoria). Os desafios realizados em Pernambuco estavam se tornando redundantes pela repetição dos mesmos violeiros, a maioria do grupo de Ivanildo Vila Nova (que formará dupla com o paraibano Raimundo Caetano). Mas até ser anunciado oficialmente, ontem pela manhã, no Palácio do Campo das Princesas, pelo secretário Mozart Neves e pelo presidente da Fundarpe, Bruno Lisboa, o festival correu perigo de ter seu brilho embaçado pela defecção de Vila Nova, que ameaçou desistir da disputa: “Primeiro, porque não concordei com um júri formado por pessoas de uma só região, a do Pajeú. Nada contra o jurados, são meus amigos, mas me pareceu uma coisa meio bairrista. Depois não gostei de terem descartado do júri a radialista Roberta Clarissa (que apresenta o programa A Voz do Sertão, na Universitária AM) sob alegação de que ela era minha amiga”, revela Ivanildo Vila Nova, considerado o maior nome da cantoria atualmente.

   Por sua vez, Nonato Costa, em entrevista por telefone de João Pessoa, onde residem ele e o parceiro Raimundo Nonato, confirma que só aceitou participar do V Desafio de Cantadores porque Vila Nova não está na comissão organizadora (o festival é de responsabilidade da Fundarpe): “Nunca tivemos nenhuma discussão com Ivanildo, nenhum bate-boca, o que houve foi uma ciumeira, uma perseguição por parte dele, que passou a nos tirar de todos os festivais. A gente recebia uma carta convidando, e quando chegava perto do desafio éramos cortados. Resolvemos formar um grupo alternativo, com cantadores jovens, como Rogério Menezes, Edmilson Ferreira, Antônio Lisboa”, conta Nonato Costa.

   Vila Nova garante que não tem nada pessoalmente contra os Nonato: “Trata-se apenas de a gente trabalhar com quem quer. Da mesma forma que eles reclamam que não participam dos festivais que organizo, eu também não participo dos festivais que eles organizam. Mas não tenha dúvida de que considero os dois bons repentistas, e também bons compositores”.

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Dois talentos do repente trocam a cantoria pelo forró eletrônico

   A cantoria de viola está prestes a perder dois dos seus mais inspirados poetas. Raimundo Nonato e Nonato Costa. Eles estão decididos a abandonar os desafios e abraçar em tempo integral a música popular. A razão é simples:“Para participar do desafio de cantadores tivemos que cancelar vários shows já agendados”, explica o cearense Nonato Costa. Ele e o parceiro Raimundo Nonato além de respeitados repentistas, formam uma dupla de cantores e de requisitados compositores. Fazem, inclusive, questão de ressaltar que não compõem no estilo dos colegas da cantoria: “Nossa música não tem nada a ver com as canções dos repentistas. Fazemos o estilo sertanejo, ou forró mesmo”, explica Costa, sem arrodeios.

   Ele e o parceiro têm composições interpretadas pelos maiores nomes do chamado forró eletrônico: “Já fomos gravados por 35 bandas, Mastruz com Leite, Caviar com Rapadaura, Saia Rodada. O maior sucesso do momento no gênero é a música Ponto final, com o grupo Xero de Menina”, jacta-se Nonato Costa.

   Perguntado se os puristas admiradores da cantoria não aceitaram sem críticas a adesão deles a um estilo de forró que muitos nem consideram forró, Nonato Costa afirma que até agora não houve nehum problema neste sentido: “Eu e Nonato não sofremos nenhuma dificuldade nesse sentido, muito pelo contrário. Acabamos de realizar um total de 31 shows, o que prova que fomos aceitos pelo nosso público”. Pragmática, a dupla não doura a pílula, afirma que o objetivo deles é comercial, em linguagem mais direta, ganhar dinheiro: “Nós somos os repentistas mais bem-pagos da atualidade. Só saímos de casa com o cachê acertado. Cobramos mil e quinhentos por cantoria, e quatro mil por shows, quer dizer quase quatro vezes mais. Então não tem como deixar de lado o forró”.

   Eles estão lançando o décimo disco, por um selo cearense, com produção dos tarimbados Zé do Norte e Marcos Farias (filho de Marinês e Abdias): “É uma proposta comercial mesmo. São 17 canções inéditas, numa linha moderna, com guitarras, teclados. Não adianta fazer um disco com violas, violões, porque as rádios não tocam. Acho que os cantadores têm caminhado há muito tempo na contramão da história, mas nós dois resolvemos fazer diferente. Mil cópias do nosso último disco foram utilizadas só para divulgação, coisa que não é comum entre repentistas”, diz Nonato Costa.(JT)

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