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A voz que não quer se calar

Z.Guimarães/FI-2002

Ferreira Gullar
 

Ferreira Gullar lança livro infantil, escreve para o teatro e propõe o debate sobre temas brasileiros na presidência do Instituto Casa Grande

Cleusa Maria

   O poeta Ferreira Gullar acaba de lançar pela editora José Olympio o seu primeiro livro de poesia infantil, Dr. Urubu e outras fábulas, com a parceria do ilustrador Cláudio Martins. Um gato chamado gatinho, livro do gênero publicado em 2000, ele escreveu não para as crianças, mas para um companheiro de pêlos macios e olhos contemplativos que vive em sua casa há 15 anos. Ao mesmo tempo, o teatrólogo Ferreira Gullar está dando a última demão no monólogo que deverá ficar pronto dentro de um ano e do qual só adianta título e tema: O homem como invenção de si mesmo, uma reflexão sobre a vida. Pois a vida, como ele diz, ou se inventa ou não existe. Além disso, o autor de A luta corporal e outros incêndios, que teve seu nome indicado para o Nobel de Literatura em 2002 (embora, por opção, nunca tenha sequer disputado um assento na Academia Brasileira de Letras), acaba de saber que o livro de contos Cidades inventadas será traduzido no México. Isso, um ano depois de o seu Poema sujo ter sido publicado na Suécia, o sétimo país a traduzir a obra escrita no exílio durante a ditadura militar no Brasil.

   Mas, antes mesmo de se chegar à sala do antigo apartamento no Lido, com as paredes cobertas por obras de Iberê Camargo, Aluisio Carvão, Rubem Grilo e outros artistas brasileiros, depara-se com a outra face conhecida do intelectual maranhense, nascido em São Luís, em 1930, e batizado de José Ribamar Ferreira. A do crítico que, em 1959, escreveu o Manifesto neoconcreto e a Teoria do não-objeto , sinalizando um novo rumo para a arte no país. A evidência está no pequeno quadro de linhas pretas e cores primárias dependurado à entrada de casa e que provoca dúvida e espanto: um Mondrian? Sim, um falso Mondrian, pintado não pelo pioneiro da pintura abstrata, mas pelo próprio morador, que se diverte com a pergunta.

   - Só um maluco penduraria um autêntico Mondrian do lado de fora de casa - diz com o tom enfático e surpreendentemente bem-humorado (para quem tem fama de resmungão) que marcará a conversa na tarde chuvosa.

   Além das novidades na carreira literária, o combativo poeta, escritor e teatrólogo, que se filiou ao Partido Comunista em 1º de abril de 1964, mesmo ano em que participou da criação do Grupo Opinião, de teatro, acaba de ser escolhido presidente honorário e também presidente do Conselho Consultivo do Instituto Casa Grande. A instituição, que começou oficialmente suas atividades na terça-feira, tem entre seus fundadores alguns dos integrantes dos debates do extinto Teatro Casa Grande, no Leblon, que abrigou nos anos de ditadura uma importante trincheira na luta contra a opressão militar. Entre eles, estão os sócios do antigo teatro Moisés Aichenbat e Max Haus, o jornalista Sergio Cabral, o cientista político Luiz Werneck Vianna, o escritor Arthur Poerner, o compositor Sergio Ricardo, o arquiteto Oscar Niemeyer, o professor da UFRJ Vicente Cassano, o psiquiatra Washington Loyelli.

   O objetivo do instituto é reavivar o debate e estimular a reflexão crítica em torno de temas sociais, políticos, econômicos e culturais brasileiros. O instituto funciona provisoriamente no espaço cedido pelo Clube de Engenharia, no Centro, até que se cumpra o acordo com o Governo de Estado de destinar uma sede permanente no shopping que está sendo construído na área onde funcionava o Casa Grande.

   A retomada da reflexão proposta pela nova instituição chega, coincidentemente, no momento em que o presidente Lula declara que os brasileiros não se levantam da cadeira para lutar contra os juros altos. É um prato cheio para iniciar a conversa com Ferreira Gullar, um homem de idéias e um dos mais importantes intelectuais do país.

   - Ele cometeu um equívoco. O que os comentaristas econômicos escrevem é que a diferença de juros entre os diversos bancos é mínima. O Lula de bobo não tem nada. Falou isso porque uma das maiores críticas a seu governo são os juros altos. Como o Lula quer parecer do lado do povão, ele pensou que falando assim o povo iria pensar que ele está do seu lado. É o único presidente que faz comício contra si próprio - dispara.

   Sentado à mesa da sala, sob o olhar derramado de Gatinho, Ferreira Gullar expõe suas opiniões com veemência. Diz que entre os mais graves problemas do Brasil não está a falta de reflexão, mas as negociatas e a corrupção em benefício dos que fazem as leis com a conivência de quem deveria zelar pelo seu cumprimento.

   O povo brasileiro está refém das negociações entre as instituições, tanto do Legislativo quanto do Judiciário e do Executivo, que se acertam entre si em proveito próprio. O Lula não é um corrupto, mas a tal governabilidade é o toma-lá-dá-cá - reforça.

   É assim que ele reflete também sobre a insegurança que oprime os moradores do Rio. A seu ver, a escalada da violência não se deve apenas ao crescimento do número de bandidos (''eles são uma minoria''), tampouco à polícia que se alia a traficantes e não pune policiais criminosos.

   - Esta geração que está no poder é a geração da droga e, no mínimo, trata o assunto com tolerância. Vivemos numa sociedade que quer se fazer de avançada e acaba dando uma de permissiva - acrescenta.

   Ou seja, para Ferreira Gullar, é passada a hora de se processarem mudanças mais fundas na sociedade para se chegar ao núcleo dos problemas, que são muitos. E transformações nesse nível passam inevitavelmente pela Justiça. E mais, por uma lei que esteja a favor do oprimido. Pois, nas palavras do poeta - que se diz um cidadão relativamente saudável, bem humorado e, aos 75 anos, um revoltado com as injustiças sociais -, o poderoso está acima do bem e do mal:

   - Como intelectual, você pode mobilizar a sociedade para que ela exija mudanças de quem é pago por nós para encontrar as soluções. Eles que cumpram o seu papel.

   O poeta lembra que já pagou o seu preço (com a prisão e o exílio) por fazer poesia política, na época da ditadura. Na situação atual, pensa que não cabe à poesia, ao cinema ou ao teatro resolver os problemas brasileiros. E arremata:

   - Quem quiser se engajar na denúncia das questões sociais que o faça. Esta é uma escolha pessoal e não obrigação da cultura e da arte. Não isso de contrapartida social, como o governo queria impor como condição para financiar projetos artísticos. Quem faz o cinema é o cineasta, quem faz o teatro é o teatrólogo. O governo tem de dar condições para que eles trabalhem e não palpites.

JB Online)

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