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Moacir Santos, aos 80, grava disco de inéditas, faz shows para o DVD "Ouro negro", título do antológico CD, e lança três songbooksMônica Loureiro Como maestro, arranjador, compositor, saxofonista e professor, Moacir Santos é muito bem conhecido - e reconhecido - em todo mundo. Mas vale rassaltar mais uma faceta do pernambucano radicado nos Estados Unidos desde 1967: ele é um ótimo contador de histórias. Geralmente, começa avisando que "esta é curta" e tome de lembranças deliciosas dos tempos de sua vinda para o Rio - ele fugiu de casa aos 14 anos - da Rádio Nacional, ou de como adotou o saxofone como instrumento preferido. No Brasil para lançar CD, DVD e três songbooks, Moacir falou dos novos projetos ao lado dos músicos Mário Adnet e Zé Nogueira. Ambos encabeçaram em 2003 o registro de sua obra no antológico CD "Ouro negro". Agora, Zé e Mário estão ao seu lado novamente para lançar "Choros e alegrias", CD inédito patrocinado pela Petrobras. "O `Ouro negro' detonou o processo dele de lembrar de choros que havia composto e estavam sem registro", diz Zé. "Ano passado, ele veio ao Brasil receber um prêmio e aproveitamos para trabalhar todos os dias. Era uma música por dia, onde Moacir escreveu harmonia, melodia e baixos", completa Mário, sobre o início do processo do novo disco. De cabeçaO trabalho já está gravado mas ainda em conversações sobre quem vai lançar - a previsão é para setembro. "O disco tem oito choros, daqueles que ele lembrou de cabeça, e no total são 14 músicas. A maior parte é de choros da década de 40, como `Flores' e `Da Bahia ao Ceará'", diz Mário. "Este último eu fiz quando tinha 16 anos. Estava na Bahia e embarquei num caminhão e, enquanto a gente viajava, fui pensando neste choro. Sempre fui um andarilho", conta Moacir. Segundo Zé Nogueira, o que acontece com Moacir é que as músicas vão aparecendo aos poucos e naturalmente. Como "Céu azul": "Esta a gente nem conhecia, porque ele só cantarolava. Aliás, ele sempre subverteu as coisas, escrevia de um jeito que não era hábito na época", diz Mário. Moacir começa a cantar a música e a marcar o ritmo com as mãos, batucando na mesa. "Eu tentava ensinar os trombonistas, mas nunca saiu bom...", lamenta. Brincando, ele e Mário Adnet dizem que nem agora estaria muito bom, o que Moacir retruca na hora: "Vocês nasceram ontem e com uma inteligência dupla. Até hoje, choro ouvindo o `Ouro negro', é vergonhoso", garante. Choros e alegriasO título "Choros e alegrias" foi dado ao novo CD pelo próprio Moacir Santos. "Fiz um paradoxo entre as duas palavras. Choro tem a ver com serenata, aliás, um deles toquei na porta dela - referindo-se a Cleonice, com quem é casado há 56 anos - e no disco tem um chamado `Cleonix'", diz o músico e marido apaixonado. Outra "homenagem" no disco é a música "Felipe", nome do filho de Rique Pantoja. "É uma que tem letra, onde Moacir faz uma ode a todos os Felipes do mundo. Ele é um cara que procura o sentido das palavras e aí descobriu que o nome significava `o que gosta de guerra'", diz Zé. "Vamos fazer igual ao `Ouro negro', que trazia historinhas que explicavam cada música no encarte. Principalmente por causa desta, que fala `Nossa glória de Deus, o amor universal', para não pensarem que é evangélica", brinca Mário. Zé Nogueira diz que os músicos que estão no novo disco são os mesmos que participaram do anterior. "O choro não é um gênero muito orquestral. Mantemos a cozinha do `Ouro' e, mais ou menos, dividimos entre duplas ou trios. Tem peça, por exemplo, para quarteto de saxofone que está também com baixo e bateria", cita, destacando a participação do Trio Madeira Brasil, únicos músicos que não estavam no "Ouro". ApresentaçãoA idéia com "Ouro negro" era apresentar Moacir Santos ao Brasil. "Ele não tinha CD lançado aqui. Aliás, nem lá fora direito", ressalta Zé - e, por isso, nomes como Djavan, Gilberto Gil e Milton Nascimento participaram do disco. "Era uma forma de mostrar o quão importante ele é para estes grandes artistas. Agora, ele vem mostrando o que já fazia antes", diz Zé. Gravação em São PauloNos dias 17 e 18, Moacir Santos gravará no Sesc Pinheiros, em São Paulo, o DVD "Ouro negro". "Como é uma co-produção do Canal Brasil, Sesc e do selo MPB (com distribuição pela Universal Music), foi uma boa oportunidade que surgiu", justifica Zé Nogueira a escolha da cidade paulista para a gravação. Os shows terão participação de Djavan, João Bosco e Ed Motta - que cantaram no CD - e um momento especial: Moacir também cantará. Sobre extras, Mário diz que desde a produção do disco que eles vêm juntando material. "Temos imagens de estúdio, do show de lançamento, de aeroporto, bastidores... E também de sua visita à Rádio Nacional ontem (quarta), onde inclusive participou ao vivo do programa da Dorina", conta Zé, dizendo, no entanto, que a parte da rádio ficará para um próximo DVD. No dia 19, serão lançados dois dos três songbooks com a obra de Moacir Santos. "Tem o `Coisas', com as 'grades completas dos arranjos originais do LP "Coisas", o primeiro registro das músicas do maestro. Os arranjos desapareceram e a gente tirou de ouvido de um disco mono! Foi uma loucura", conta Mário. Zé lembra que "Coisas" é mais que um songbook: "O `Ouro', com as 28 músicas do disco, e `Choros e alegrias', que será lançado em setembro, são neste estilo de cifras de piano e harmonia. O `Coisas' é um livro de arte, com a história da gravação do disco". "Causos" de sua vida e da MPBEntre uma e outra explicação sobre os novos projetos - CD, DVD e songbooks - Moacir Santos intercala as falas com uma historinha. Seja sobre o início da carreira, a descoberta da vocação musical ou a bebedeira com amigos, o maestro, de um jeitinho cativante e engraçado, vai contando "causos" que já podem ser considerados parte da história da música brasileira. No bê-a-bá da música: "Todo dia, eu ia aos ensaios de uma banda marcial lá em Pernambuco. Acabei virando vigia e aprendi a tocar todos os instrumentos. Um dia, pedi ao mestre Paixão que me deixasse tocar alguma coisa e mostrei o que sabia com o pistom. Ele olhou para mim e disse que eu iria tocar clarinete, até hoje não sei o porquê. O maestro tocava pistom". O início na Rádio Nacional: "Quando cheguei à rádio, fui submetido a testes rigorosos, diferente dos músicos do Rio, São Paulo e Itália. Os diretores ficavam perguntando: `E o rapazinho do Norte?'. O maestro Chiquinho disse que toquei de primeira `Urubu malandro', música que eu nem conhecia. E falou que eu botei uma música para a orquestra e eles não conseguiram tocar. Era `Céu azul". "O mojo" (divisão criada por ele diante da dificuldade dos músicos americanos em tocar os ritmos brasileiros): "Teve um dia que parei. Foi quando eu estava tocando para o Henry Mancini e, com aquele cachimbo de lado, falou que parecia charleston. Eu desisti...". Encontros etílicos: "A cachaça entrou na casa de Vinícius de Moraes por minha causa. Quando fui à casa dele, ele me ofereceu uísque, e eu disse que preferia um Crush misturado com cachaça. Foi experimentar e gostar..." Cebola frita (este contado por Cleonice): "Lá em casa, os encontros começavam às 22h, geralmente eram Tom Jobim, Baden Powell e Vinícius. Lá pelas quatro, já não tinha mais nada para comer. Um dia eu disse que só tinha cebola e falaram: `Então, frita!'. Quando dizia que queria dormir, eles iam embora, mas Moacir ficava lá, no piano. Pouco depois, já chegava um táxi para levá-lo para a casa de Vinícius" Teosofia: "Conheci um músico na Rádio Nacional que me disse que eu era diferente, que pertencia a uma sociedade e que ia me dar um livro. Eu olhei ele meio de lado, mas, quando li o material, vi que era tudo aquilo que eu estava procurando. E mais uma coisa, pela qual sou capaz de colocar a mão no fogo: eu acredito em reencarnação. O que a gente não sabe e não entende, vai aprender depois que morrer" (© Tribuna da Imprensa) Em passagem pelo país, compositor e saxofonista acompanha edição de
songbooks e participa de dois shows em SP DA SUCURSAL DO RIO "Ouro Negro" foi lançado em 2001,
mas Moacir Santos diz que ainda chora quando ouve o CD duplo com regravações
de suas músicas. As lágrimas terão um desdobramento neste ano com "Choros &
Alegria", novo capítulo do processo de revitalização de sua obra empreendido
pelos músicos Mario Adnet e Zé Nogueira. Radicado nos EUA desde 1967 -mora em Pasadena, Califórnia-, Santos está passando o mês no Brasil por vários motivos. Um deles é "Choros & Alegria", que já foi gravado com patrocínio da Petrobras, mas só será lançado em setembro. O disco reúne 14 temas, sendo 12 inéditos. São oito choros e seis "alegrias" -como acabaram batizados os não-choros. Santos foi puxando as composições da memória, que continua firme apesar do derrame sofrido pelo músico há dez anos. Ele não toca mais, mas a musicalidade se mantém intacta. Entre os temas lembrados está "Da Bahia ao Ceará", feito aos 16 anos. "Eu estava indo de caminhão de Salvador a Juazeiro, e fui criando a música", conta ele, nascido em Serra Talhada e criado em Flores, sertão pernambucano. Só uma das composições tem letra: "Felipe", feita para o filho do músico Rique Pantoja, mas que virou uma homenagem a todos os Felipes do mundo. "Moacir é um homem da palavra. Ele pesquisa o sentido das palavras e vai mudando a composição de acordo com o que descobre", conta Zé Nogueira. Além de conhecer o resultado de "Choros & Alegria", Santos veio ao Brasil participar de uma nova etapa do projeto "Ouro Negro". Com produção do Canal Brasil e do selo MP,B, um DVD com os temas do disco será gravado nos dias 17 e 18, no Sesc Pinheiros, com a participação do próprio homenageado e de Djavan, João Bosco e Ed Motta. Os músicos presentes em "Ouro Negro" se reuniram novamente para o DVD e para as gravações de "Choros & Alegria". "Choros normalmente não são orquestrais, mas quisemos manter o mesmo time. Em algumas faixas, o que acontece é destacarmos alguns duos e trios", diz Adnet. Nogueira e Adnet são os responsáveis também pela edição de três songbooks. Neste mês sairão dois: um com as partituras de "Ouro Negro" e outro, em estilo de livro de arte, com as de "Coisas", o mais célebre disco de Santos, lançado em 1965, relançado em CD no ano passado e prova maior de sua condição de saxofonista, compositor e arranjador. O terceiro só será lançado depois do CD. "Esses rapazes [Nogueira e Adnet] nasceram ontem, conhecem tudo. Têm inteligência dupla", exalta Santos. (LUIZ FERNANDO VIANNA) (© Folha de S. Paulo) |
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