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Com 40 anos de carreira, Erasto Vasconcelos, irmão do percussionista Naná Vasconcelos, lança seu primeiro disco no Brasil NELSON GOBBI Das pedras que cobrem as ruas do Recife à beleza do canto do azulão, a música de Erasto Vasconcelos é construída das sutilezas que permeiam os espaços entre a imaginação e a realidade. Em 40 anos de carreira, ele viu de perto a música brasileira se transformar, acompanhando movimentos como a tropicália e o Clube da Esquina, tocando ao lado de Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, os irmãos Márcio e Lô Borges, entre outros. Hoje Erasto é cultuado pela geração que fez do mangue beat a ponte que uniu Pernambuco ao mundo. Mesmo sendo uma obrigatória referência regional, Erasto não desfruta do prestígio internacional conquistado por seu irmão, o célebre percussionista Naná Vasconcelos. Fato que o músico, compositor e cantor espera mudar com o recente lançamento do CD Jornal da palmeira, que o coloca nas prateleiras do Brasil pela primeira vez em quatro décadas de carreira – além do LP Stone alliance, feito em 1977 com Marcio Montarroyos e Hermeto Pascoal, Erasto chegou a gravar outros dois discos nos EUA, ainda inéditos no Brasil. "O disco é poesia musicada, um noticiário sonoro que trata dos seres que habitam a casa, o jardim. Já vendi toda a primeira tiragem, de três mil cópias, e estou preparando outras mil", empolga-se Erasto, que quer lançar até o mês de junho o CD Estrela brilhante, que estava pronto desde 2000 e teve suas faixas remixadas. O repertório de Jornal da palmeira foi extraído de um musical criado por Erasto, que fala sobre o canto dos pássaros, danças e festas regionais e lembranças idílicas de Recife e Olinda. Um relicário emocional distribuído em 12 faixas compostas pelo músico em épocas distintas. "Uma das músicas do CD, Pipoca no cinema, foi feita quando estava nos Estados Unidos, nos anos 70. Havia uma bilheteira de um cinema de Nova York que sempre estava cantando Tom Jobim. Fiz a canção como uma homenagem aos dois", explica o compositor. Foi também em Nova York que Erasto Vasconcelos viveu alguns dos momentos mais marcantes de sua carreira, quando tocou duas vezes ao lado da lenda do jazz Stan Getz: "A primeira vez que toquei com Stan Getz foi uma surpresa. Fui procurado por músicos dele para lhes dar uma aula de percussão. Depois fui chamado até um teatro onde ele estava se apresentado e fui convidado para participar do show. Só então descobri que a aula era, na verdade, um ensaio. Um tempo depois estava passeando pelo Central Park e o vi fazendo uma apresentação ao ar livre. Stan Getz me viu no meio do público e me convidou para subir ao palco com ele " relembra o músico. O disco é fruto da amizade de Erasto com Fábio Trummer, vocalista e guitarrista do Eddie, grupo com o qual o músico se apresenta constantemente. Fábio incentivou o percussionista a gravar suas composições, produziu o álbum e convidou outros destaques da música pernambucana para participarem das gravações. O CD, que tem projeto gráfico assinado pelo vocalista Jorge du Peixe, conta com as presenças do baterista Pupillo e do baixista Dengue (Nação Zumbi), da cantora Karina Buhr (Comadre Florzinha), do percussionista Alexandre Urêa (Eddie), além da Orquestra Popular de Pernambuco. "O Erasto é uma das poucas pessoas que dialoga com várias gerações e transita por diversos gêneros com autenticidade. Eu o conheci nos anos 90 e aos poucos tomei contato com a sua obra e sua história na música. Ele se integrou completamente ao Eddie, hoje é como um dos membros da banda", elogia Fábio Trummer. A desenvoltura com que Erasto circula entre as novas gerações da música pernambucana fez com que a gravação de seu primeiro álbum se tornasse um acontecimento na cena local: "Aproveitei uma folga da turnê da Nação Zumbi para poder participar do disco, que foi feito só por amigos. Muita gente até ficou chateada por não ter feito parte do projeto. O Erasto é um grande contador de histórias, um artista que interage com seu tempo", define Pupillo, sócio do selo Candeeiro Records, por onde o discoi foi lançado. Dentre os artistas que ficaram de fora do CD está Naná Vasconcelos, que por uma incompatibilidade de agenda deixou de tocar no disco do irmão: "Infelizmente, não estava no Brasil quando ele gravou o disco. Gostei muito do resultado final, o Erasto tem uma imaginação muito aguçada e o CD reflete isso. Queria ter participado das gravações, mas, de certa forma, foi melhor ficar de fora, para que não fiquem associando o projeto dele com o meu nome", contemporiza Naná, para quem a produção musical centralizada no Sudeste faz com que artistas como seu irmão não sejam reconhecidos nacionalmente. Erasto, que deixou de ser relojoeiro para se dedicar à música, não se arrepende de ter deixado Nova York em 1981 e voltado a Recife, onde suas raízes deram forma à produção artística: "Acho que agi certo em ter voltado para Recife e ter passado os últimos 20 anos escrevendo. O material que tenho em mãos é muito rico. Se ainda morasse no Sudeste talvez tivesse gravado cinco discos, mas também poderia não ter acontecido nada. Para mim foi melhor assim. Sou muito feliz com a minha obra" (© JB Online) |
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