Notícias
Nelson Rodrigues explica

Nelson Rodrigues

A peça interativa 'Traição' se despede do Rio colecionando reações inusitadas da platéia

Rachel Almeida

   Os tímidos podem querer fugir, os comprometidos têm grandes chances de se complicar e os mais atirados costumam se aproveitar. Não importa o estado civil, a falta ou o excesso de decoro: quem está na platéia da peça Traição deve estar preparado para receber cantadas de homens e mulheres, conselhos sentimentais e até beijo na boca. A grande interatividade entre atores e espectadores proposta pela Cia. Duplô já criou situações delicadas não só para a platéia, mas também para o elenco, comprovando que, 25 anos depois de sua morte, Nelson Rodrigues ainda causa polêmica.

   Traição é a adaptação de cinco crônicas do dramaturgo pinçadas da série A vida como ela é, coluna publicada nos anos 50 pelo jornal Última Hora, cujo tema predominante era o adultério. Costurados pela diretora e atriz gaúcha Gabriela Linhares, os textos O monstro, Marido fiel, A mulher do próximo, Um chefe de família e O marido sanguinário são apresentados fielmente no palco e também no meio da platéia, fazendo com que os espectadores se tornem personagens da montagem.

   - Nossa maneira de encenar, com o mesmo personagem passando de um ator para o outro, é dinâmica e mexe com as sensações do espectador - avalia Gabriela, que fundou a Cia. Duplô em 2001, em Porto Alegre, com integrantes de um curso de interpretação que ela ministrava na época.

   Atualmente radicada no Rio, a companhia é formada por atores gaúchos e cariocas escolhidos por testes. Em cartaz por aqui desde janeiro do ano passado, sem patrocínio ou atores renomados no elenco, Traição já passou pela gafieira Estudantina, pelos extintos bistrô Balthazar e Ballroom e pelo Centro Cultural Suassuna, antes de chegar ao Teatro Café Pequeno e ao Teatro da UFF, onde encerra a temporada. A companhia agora se prepara para rodar o Brasil com o espetáculo.

   Depois das inúmeras histórias acumuladas na temporada, os atores aprenderam que essa interatividade tem seu preço, principalmente por mexer com a libido do público. O ator Marcelo Andriotti, por exemplo, sentiu na pele os efeitos dos ataques de ciúmes de dois espectadores.

   - Foi durante a temporada no Centro Cultural Suassuna, na Barra da Tijuca. No entreato antes da apresentação do conto A mulher do próximo, eu finjo estar em uma sinuca e fico encarando uma mulher acompanhada na platéia. Nesse dia, o acompanhante da pessoa escolhida era um japonês, que não gostou nem um pouco da cena e me deu um golpe de judô ou caratê, sei lá... Numa outra vez, um espectador me agarrou pela gola da camisa depois que eu cochichei no ouvido da mulher dele. Mas tudo isso faz parte, já que a gente gosta de provocar um pouco - observa Marcelo.

   Mas o piti que mais marcou a companhia não foi protagonizado por nenhum homem enciumado, e sim por uma mulher, colérica, que viu a peça no Ballroom.

   - Sentei no colo do namorado de uma mulher; ela não gostou e se levantou com raiva. O rapaz foi atrás dela, derrubou um copo de água no meio do caminho e acabou levando um tapa na cara. Os dois foram embora na maior gritaria - lembra Gabriela.

   Os episódios, no entanto, não são causados apenas por ciúmes excessivos, como lembra o ator Fabiano Gonçalves. Certa vez ele provocou a ira de um rapaz depois de simular que cuspia em sua cara.

   - O sujeito ficou me esperando do lado de fora do teatro, dizendo que queria acertar as contas comigo. Tivemos que sair escoltados - conta.

   Se há quem se revolte com os toques de libertinagem dos atores da Cia. Duplô, também há aqueles que se divertem, como um grupo de senhoras que assistiu ao espetáculo pelo menos quatro vezes e adora receber beijos na boca. A peça também já conseguiu formar casais na platéia.

   - Conheci minha namorada durante o espetáculo. Ela foi com amigas e sentou numa fileira atrás de mim, mas não estava conseguindo ver direito e veio parar do meu lado. Batemos papo e no fim eu perguntei se ela tinha namorado. Ela disse que não e eu falei: 'Então não posso te conhecer, já que a peça fala de traição'. Ela gostou da cantada e estamos juntos até hoje - relata o aeroviário Felipe Miller, 22 anos.

   A diretora da companhia lembra que um amigo já cansou de jogar charme para mulheres da platéia:

   - Em duas sessões ele saiu do teatro acompanhado. Em uma delas, foi para um motel e, no fim da noite, a mulher confessou que era casada.

   Influências rodriguianas?  

JB Online)


Para conhecer Nelson Rodrigues

Barbara Heliodora

   Daniel Herz já dirigiu trechos rodriguianos antes, e desta vez, com um novo grupo de jovens profissionais, apresenta no Teatro Miguel Falabella um trabalho diferente com “A glória de Nelson”. O espetáculo é composto por quadros independentes, cada um deles representativo em si das chamadas idéias fixas de Nelson Rodrigues: a virgindade, a corrupção sexual, a preservação e a desagregação do núcleo familiar etc. Para tanto, são apresentadas, em seqüência , cenas de “Bonitinha mas ordinária”, “Senhora dos afogados”, “Vestido de noiva”, “Os sete gatinhos”, “Perdoa-me por me traíres”, “Álbum de família” e “O beijo no asfalto”, com interessante incursão pela repetição temática.

   A produção é simples e interessante, com a cenografia de Ronald Teixeira reduzida a dezenas e dezenas de bonecos nus formando o universo comum, suspensos ao alto, e poucos elementos, apenas os indispensáveis, introduzidos para a vaga identificação do ambiente de cada peça. Os figurinos de Anna Markum são simples, bem no estilo do universo social de Nelson Rodrigues, com o permanente uso do uniforme colegial como símbolo da pureza ostensiva (sem nenhuma garantia de sua verdade). Tudo é muito bem iluminado por Aurélio de Simoni, com o despojamento geral permitindo uma boa fluência cênica.

   Herz, desta vez, usa mais claramente a direção como experimentação de possíveis linguagens menos realistas, por vezes mais expressionistas, com freqüentes momentos de valorização do personagem, tal como ele seria criado pelo autor. Para isso, faz uso de mais de uma atriz interpretando o mesmo papel, a fim de usá-lo como exemplificação de determinado comportamento, mais do que como expressão de determinada pessoa.

Recursos usados levam a reflexão sobre o texto

   A todo momento é enfatizado o aspecto teatral da encenação, inclusive com o aparecimento de um “ponto” para colaborar com o conflito Alaíde/Lucia no “Vestido de noiva”. Em muitas ocasiões, os recursos são interessantes porque levam à reflexão sobre o próprio texto e sobre a riqueza que permite variedade em sua interpretação. O único momento realmente infeliz é aquele no qual o Arandir do “Beijo no asfalto” é vestido de mulher, indo contra a essência do sentido do que Nelson escreveu. O saldo geral, no entanto, é bastante positivo.

   O elenco forma uma equipe, e atuações um pouco melhores ou piores são muito menos significativas do que o rendimento em conjunto, do que a idéia de uma proposta de trabalho na qual todos estão igualmente envolvidos. Seus componentes são Ana Ferraz, Mariana Costa Pinto, Julia Gorman, Ana Lelis, Renata Tobelen, Ricardo Martins, Felipe Mônaco, Fernanda Neder, Raquel Colly, Isabel Pinheiro, Rodolfo Bello, João Rodrigo, Marcio Kieling, Nathalia Dill, Andréia Leves e Patrícia Lírio. “A glória de Nelson” é uma boa apresentação para quem quiser começar a conhecer o universo do autor, ou até mesmo a pensar nele com maior profundidade.

O Globo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2005

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia