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Vida de Torquato Neto gera polêmica

Torquato Neto, na foto com o parceiro Gilberto Gil
 

JOSÉ TELES

   O mais importante letrista do tropicalismo, figura emblemática da cultura marginal dos anos 70, o piauiense Torquato Neto tem sua vida dissecada pelo jornalista curitibano Toninho Vaz, em Pra Mim Chega A Biografia de Torquato Neto. Foram dois anos de pesquisa, mais oito meses na feitura para se chegar a esta obra que nasce polêmica.

   O autor não dourou a pílula. Enquanto exalta as qualidades do biografado, não esconde a nuvem de pó que era aspirada naquela época pela turma do, como se chamava então, “desbunde”. Para Luiz Carlos Maciel, autor da orelha do livro e amigo de Torquato Neto, o poeta foi “também um herói romântico típico, fadado a morrer ainda jovem, como James Dean, Jimi Hendrix, Janis Joplin ou Jim Morrison. Toninho Vaz foi jornalista da Isto É, de vários jornais, e é autor de uma biografia de Paulo Leminski (O Bandido que Sabia Latim), e de Darcy Ribeiro (Senado Federal).

   Nesta biografia ele traça a trajetória de Torquato Neto desde Teresina, sua cidade natal, passando pela Bahia, onde o poeta viveu aos 16 anos, Rio e São Paulo e, sem apelar para o sensacionalismo, aborda a bissexualidade do letrista de Geléia Geral, a que melhor definiu o movimento tropicalista[ABRE-ENTREV]. O livro será lançado hoje, às 19h, na Livraria Arraial (Estrada do Arraial, 2.350, Casa Amarela), com a presença do autor.

JORNAL DO COMMERCIO – Por que uma biografia de Torquato Neto?

TONINHO VAZ – Eu já havia escrito a de Paulo Leminski e, para mim, ele e Torquato formam o cerne da poesia marginal dos anos 70. Os demais são pseudomarginais. Foram pessoas bem parecidas, nasceram no mesmo ano, viveram pouco e morreram no auge. Esta a é a minha minicoleção de malditos.

 

JC – É verdade que Ana, a viúva de Torquato, tentou, ou ameaçou, proibir o livro. O que há nele que ela não gostou?

TV – Durante a pesquisa para o livro, eu conversei muito com ela, fiz muitas consultas, inclusive ela trabalha como capista da editora Rocco. Com o passar do tempo, Ana foi mudando de opinião e acabou nem falando mais comigo. O que aconteceu foi que ela não gostou de eu ter revelado a bissexualidade de Torquato. Quer dizer, revelado não. Isto era uma coisa sabida por todos, porém não se dizia isto quando se escrevia sobre Torquato. Ela não deve ter gostado foi de ver o fato em livro.

 

JC – E o episódio com Caetano. É verdade que ele se suicidou por estar apaixonado por Caetano e não estar sendo correspondido?

TV – Bem, Torquato namorou por dez anos com um cara do Piauí, o Aderbal, todo mundo em Teresina sabe dessa história. Aderbal, inclusive, chegou a morar no Rio com ele. Quando fui entrevistá-lo, ele, que está bem doente, resolveu abrir a boca e falar tudo sobre Torquato, inclusive sobre o suicídio.

JC – Mas você chegou a entrevistar Caetano sobre isto?

TV – Entrevistei e ele negou. Falou que nunca teve nada com Torquato, negou tudo.

 

JC - Mas uma pergunta dessas não fez Caetano rodar a baiana, o que é uma coisa bem comum nele?

TV – Não rodou, não. Se tivesse rodado teria se incriminado, confirmado a história.

 

JC – O que traz mais o livro de revelações inéditas sobre o biografado?

TV – Na verdade, Torquato Neto é muito pouco conhecido. Ele teve uma trajetória muito movimentada, chegou com 16 anos à Bahia, onde conheceu Gil, Caetano, Rogério Duarte, já no Rio foi colega de classe de políticos como Wellington Moreira Franco. Morou em São Paulo, passou um ano ano na Europa, entre Londres e Paris. No livro tem ainda, por exemplo, cartas dele para HÉlio Oiticica, e todas inéditas.

 

JC – O resultado do livro lhe satisfez?

TV – Quando me perguntam isso peço que leiam a orelha assinada por Luís Carlos Maciel. Ele conheceu bem Torquato e escreve lá que o livro é um documento essencial para compreeensão do que aconteceu com a geração em transe na sua juventude. E olhe que eu não sou amigo de Maciel. Aliás, antes de ir pedir para ele escrever a orelha do livro, só o havia visto uma única vez. Aliás por causa deste texto de Maciel, a viúva de Torquato até desistiu de me processar.

JC Online)

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