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JOSÉ TELES Lançado em 1950, volta às lojas o clássico Antologia do Negro Brasileiro Editora Agir, 510 páginas, R$54,90), do baiano Edison Carneiro (1912/1972), reunindo 157 textos, das mais diversas fontes, indo de uma carta do bandeirante Domingos Jorge Velho a poemas anti-escravagista de Castro Alves, ou reproduzindo documentos clássicos referente à escravidão no Brasil, tais como um tristemente célebre aviso do Ministro da Fazenda Ruy Barbosa. Datado de 14 de dezembro de 1890, o aviso requisita de todas as repartições no âmbito do ministério, no País, os documentos existentes “relativos ao elemento servil”. O parágrafo 2º determina que uma comissão formada pelo presidente da Confederação Abolicionista e do administrador da Recebedoria “procederá à queima e destruição imediata deles (dos documentos), o que se fará na casa da máquina da Alfândega desta capital, pelo modo que mais conveniente parecer à comissão”. Perderam-se assim milhares de documentos importantes, mas felizmente milhares de outros foram preservados, vários deles estão no livro de Edison Carneiro, que, mostrando aspectos sociológicos, antropológicos, históricos, literários, faz uma panorâmica do negro no Brasil, desde os navios negreiros até os primórdios do Brasil republicano. A antologia é dividida em oito capítulo: Os Pioneiros, Marcha da Abolição, As Reações do Negro, Folclore, Religiões, Figuras de Negros, Sob a República. o autor (irmão do falecido senador Nelson Carneiro) não emite opiniões, nem faz análises. A propalada, relativamente, boa convivência entre senhores e escravos não resiste ao que mostra o texto Castigo de Escravos, no qual o seu autor (Arthur Ramos) detalha o suplício público dos cativos nos pelourinhos ou os instrumentos utilizados para castigá-los, como a “máscara”: “Era usada para o escravo que furtava cana, ou rapadura, ou que comia terra. Era uma máscara de folha-de-flandres, que tomava todo o rosto, e vinha presa no occiput por uns prolongamentos que se fechavam por um cadeado. Apenas alguns orifícios permitiam a respiração. O escravo com a máscara não podia comer nem beber sem permissão, e ficava neste suplício muitas vezes o dia inteiro” (© JC Online) Da morte de Zumbi à Revolta da Chibata Em A Emancipação dos Escravos, Parecer, de 1871, assinado por Cristiano Ottoni é relembrado mais outro ato de crueldade cometido contra escravos, no qual ele cita os cálculos peculiares dos fazendeiros nas províncias do Rio e São Paulo: “Compra-se um negro por 300$000, colhe no ano cem arrobas de café, que produzem líquido pelo menos o seu custo, daí em diante tudo é lucro. Não vale a pena aturar as crias, que só depois de 16 anos darão igual serviço”. Por este raciocínio as escravas grávidas continuavam a trabalhar e, aí, ou perdiam o filho ou, se conseguiam tê-los, não podiam amamentá-los bem. “Não há estatísticas que o digam...do nascidos na escravidão não escapavam certamente mais de 5%”, conclui Ottoni.O livro pode ser lido aleatoriamente, os textos não são interligados, e qualquer que seja a página depara-se quase sempre com um artigo, ensaio, trecho de algum romance, poema, mas sempre algo interessante. Domingos Jorge Velho que chefiou a expedição contra o Quilombo dos Palmares, em carta ao governador da capitania de Pernambuco, dá sua versão da morte de Zumbi, traído por um escravo mulato, que guiou o capitão André Furtado de Mendonça até onde estava o líder da comunidade quilombola, que lutou bravamente até o fim: “Enviou-se-me a cabeça do Zumbi, que determinei se pusesse em um pau, no lugar mais público desta praça, a satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que julgavam este imortal, pelo que se entende que nessa empresa se acabou de todo com os Palmares”. Um pequeno trecho de uma carta do Conde dos Arcos ressalta o óbvio: que no Brasil não houve uma, mas várias culturas “africanas”. O conde aprova o governo por liberar os batuques dos negros (que os senhores preferiam trabalhando de domingo a domingo), e não por motivos humanitário: “O governo, porém, olha para os batuques como para um ato que obriga os negros, insensível e maquinalmente, de oito em oito dias, a renovar as idéias de aversão recíproca que lhes eram eram naturais desde que nasceram e que, todavia, vão se apagando, pouco a pouco, com a desgraça comum”. Para evitar revoltas como a dos malês, na Bahia, era interessante às autoridades que os nagôs continuassem inimigos dos daomês, os ashantis dos tapas, ou os gegês dos hauçás. Até a Revolta da Armada, em 1910, liderada pelo almirante negro João Cândido, repassada a epopéia dos africanos e seus descendentes num país que não escolheram para morar, mas para cuja formação foram de suma importância, como ratifica Edison Carneiro nesta antologia. (© JC Online) Mario Cravo Neto registra iniciação no candomblé em mostra fotográfica
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