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A banda cearense Soulzé leva suas guitarras e seus tambores para o show 'Nordeste ilimitado' João Bernardo Caldeira É preciso coragem para largar o emprego, deixar a cidade natal e tentar viver de música mundo afora. Os sete integrantes do Soulzé resolveram que a carreira da banda acabaria estagnada, caso continuassem em Fortaleza. Há cerca de um ano, foram para Campinas, no interior paulista, e depois se mudaram para a capital. A partir daí, passaram a mostrar a cara em apresentações por cidades como Rio, Belo Horizonte e Brasília. Hoje, o Soulzé mostra o show Nordeste ilimitado, no Teatro Rival, na Cinelândia, às 20h30, com participação do cantor paraibano Totonho (do grupo Os Cabra). - Largamos tudo por esse sonho de tentar renovar a arte e viver da música. E quando vimos a grande empatia que nossa música causa aqui no Sudeste percebemos que podia dar pé. Se a gente tivesse ficado em Fortaleza, a banda ia acabar - afirma Renee Muringa, de 32 anos, vocalista do grupo. O álbum do grupo, Lab SZ, foi gravado ainda na capital cearense, entre 2002 e 2003. A sonoridade tem parentesco com o movimento mangue bit, misturando o peso das guitarras, vocal agressivo e a potência percussiva de tambores e alfaias. - De fato, é uma tendência que teve origem no mangue bit. São memoráveis as conseqüências do movimento ainda hoje, de apresentar o Nordeste para os nordestinos e o Brasil para os brasileiros. A gente continua essa tradição de reciclar o que já foi criado, junto com uma nova geração de nomes, como Bonsucesso Samba Clube, Totonho e os Cabra, Eddie e Wado - analisa. Com oito anos de estrada, o Soulzé - que, nos últimos dois meses, fez um punhado de apresentações no Rio, angariando fãs - pretende gravar seu segundo disco ainda este ano. As dificuldades continuam, a banda não fez fama nem fortuna, mas já dá para pagar o aluguel. Diz Muringa: - A cena de Fortaleza é muito cruel com os artistas alternativos. O cearense não tem curiosidade de conhecer um som novo e são poucos os lugares para fazer show. Além disso, existe a ditadura do forró de plástico, mais comercial, e agora também a do reggae, que se popularizou a ponto de perder a essência. O conjunto volta ao palco do Rival nos dias 15 e 29 deste mês. As passagens pela cidade têm sido proveitosas. - O Rio tem uma enorme receptividade para música, principalmente do Nordeste. E isso não é de hoje: foi no Rio que Luiz Gonzaga começou a sua carreira - lembra Muringa. (© JB Online) Um sertão paulista
Em uma tarde entre São Paulo e o ABC paulista, os músicos Lira Paes e
Clayton Barros falam dos planos do Cordel do Fogo Encantado, frutos de um
novo diálogo entre o sertão de Arcoverde e os prédios da maior cidade
brasileira SÃO PAULO – Um homem branco de pó de gesso chega ao restaurante. Ele vem do outro lado da rua, em um canteiro de obras de uma elegante universidade que ele está ajudando a construir. No restaurante, encontra o pessoal do Cordel do Fogo Encantado, banda que ele reconhece de cara, pois sabe que o grupo vem lá de Arcoverde, cidade próxima à Serra Talhada, terra de sua família. Seu nome é Stanley e quem acompanha a carreira do Cordel sabe que o homem de branco deu título à música Morte e vida Stanley, versos que a banda canta desde 2004 nos chamados shows de transição, um aquecimento para o disco que já está sendo gravado em estúdio e para os projetos de DVD. Demonstração de que o grupo está mais ativo do que nunca, com trabalhos dentro e fora da banda. A história do homem branco foi contada há duas semanas, em uma van que levava os músicos Lirinha e Clayton, além do produtor Antonio Gutierrez, o Guti, até a cidade de Santo André, no ABC paulista. Lá, eles fariam uma participação especial no show da pernambucana Monica Feijó. A cantora, que se apresentou no dia seguinte ao lado do conterrâneo Otto, estava lançando seu disco novo. No descanso do ensaio, ela admitiu: está em um momento da carreira onde precisa se mudar para uma cidade maior, uma cidade como São Paulo. Stanley e o Cordel (e quem sabe no futuro Mônica Feijó), vivem na capital paulista. Em medidas diferentes, operário e banda representam a saga de retirada nordestina poetizada por João Cabral de Melo Neto. A única diferença, como explica o vocalista Lirinha, é que o primeiro sai do interior nordestino chega à cidade com a cabeça baixa. E eles chegaram “com a cabeça erguida”. “O sistema capitalista que a gente vive faz com que a cidade que concentra a maior renda de um país, independente de qual seja ela, tenha uma característica de sucção. A retirada se torna inevitável em algum momento”. Pois assim, como retirantes de uma indústria cultural concentrada no eixo Rio-São Paulo, a banda Cordel do Fogo Encantado começa a ramificar seus produtos. Em contato com “pessoas de vários circuitos”, como define o violonista Clayton, eles fixam o CEP na zona oeste de São Paulo, para criar suas respectivas vidas em uma cidade que, em habitantes, é 170 vezes maior que Arcoverde, terra natal da banda. Até agora, estão conseguindo bons resultados com a experiência. Somente Lirinha, compositor e vocalista, conseguiu trabalho para todo fim de semana na capital paulista. No Teatro Oficina, ele dirige aos sábados e domingos a parte musical do espetáculo Os Sertões – A Luta: Primeira Parte, de Zé Celso, peça que dura sete horas e toma quase todo o fim de semana do cantor. O mesmo Zé Celso havia contratado Lirinha e Clayton para compor duas músicas em Os Sertões – Homem: Segunda parte. No começo deste segundo semestre, Lirinha aparece nos cinemas, não como músico, mas como ator. No longa-metragem do pernambucano Lírio Ferreira, Árido Movie, ele interpreta um acessor de profeta. E o profeta é interpretado por Zé Celso. As cenas, gravadas durante uma semana em Arcoverde, intensificaram o contato entre o músico e o teatrólogo. Na segunda semana de julho, ainda na capital paulista, a banda grava seu primeiro DVD. “Não é ainda ‘o’ DVD. O show faz parte de um projeto da MTV para gravar DVDs. O filme mesmo do Cordel deve ser gravado em Arcoverde ou no Recife”, conta Guti. A cidade também proporciona uma agenda mais intensa de shows. São 750 quilos de equipamento que, no lugar de serem transportados em avião (o que dá trabalho e custa muito dinheiro), são deslocados de ônibus, onde o pessoal da banda se aloja quando precisa cair na estrada. STANLEYS – Lirinha e Clayton, os dois maiores compositores do grupo, têm apartamento fixo em São Paulo. O resto da banda “mora” em um hotel próximo aos edifícios onde Clayton e Lirinha vivem. “Os caras só não tem casa aqui por jogo psicológico. Eles precisam manter o vínculo com o Nordeste”, diz Lirinha. Problema esse que Clayton diz não ter: “Minha vida é montada em São Paulo. Somente a saudade e as referências estão no Nordeste”. No começo dos anos 90, Clayton chegou em São Paulo para trabalhar na construção civil. “Eu também já fui Stanley”, lembra. Clayton, assim como Lirinha, já tem filho nascido em São Paulo. O bebê dele é uma menina de três meses, chamada Tarcila. O de Lirinha é um menino de três anos, João, irmão mais novo de Elvira, 6, que nasceu em Arcoverde e mora em Pernambuco. “João já tem sotaque paulista, ele coloca artigo antes dos nomes, ‘a Cida, o Paulo’. Eu digo: menino, aprende a falar direito”, diz o pai. Embora sejam aparentemente bem resolvidos quanto à mudança sertão-megalópole, os rapazes do Cordel ainda cultivam o tal “jogo psicológico”. Exemplo maior disso está na zona eleitoral. Bastante politizados em cena ou na mesa do bar, os músicos ainda mantêm o título de eleitor em Arcoverde. E, como quase não passam por lá, na maioria das vezes precisam justificar o voto. “Quero manter meu título em Arcoverde, porque é o lugar que eu gostaria de ajudar a crescer”, explica Lirinha. Pernambucano já com uma “inclinação” a torcer pelo Corinthias, Lira Paes, seu nome completo, vê um lirismo no reflexo dos espelhos paulistanos: “Todo mundo que vem pra cá está aqui por uma opção de sonho. E a cidade é o resultado do sonho de quem mora nela. São Paulo é um aglomerado de sonhos. Não há nada mais lírico que isso.” (© JC Online) |
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