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Ferreira Gullar tira o Maranhão da Toca

Ferreira Gullar

Maranhenses homenageiam o poeta

Rafael Sento Sé

   Uma celebração bem maranhense vai saudar o poeta Ferreira Gullar na homenagem que a Toca do Vinicius, em Ipanema, presta hoje, às 19h (após o jogo do Brasil), ao poeta, que gravará as mãos numa placa de cimento para o acervo da casa. A festa, sob o comando de diferentes gerações de músicos maranhenses, terá como ponto alto a apresentação da Companhia Mariocas do tambor de crioula, dança típica do Maranhão em que são entoadas cantigas populares sob a percussão forte de três tambores.

   Portanto, não se assuste se você passar pela Rua Vinicius de Moraes e encontrar na calçada uma roda de pessoas ao redor de um fogareiro. Essa chama aquece os instrumentos antes da dança e certamente vai mexer com o coração do homenageado, que, no Rio desde 1951 e à beira dos 75 anos, relembrará um pouco a cultura da terra natal.

   - Independentemente da idade, vamos homenagear a presença dele. Com todo o respeito aos outros poetas, o Ferreira Gullar é um patrimônio vivo da poesia brasileira. Queremos cobri-lo de carinho e, como moldura dessa homenagem, faremos uma grande festa maranhense - explica Carlos Alberto Afonso, da Toca do Vinicius.

   Nessa moldura estarão os conterrâneos Nonato Buzar, que deu os primeiros passos junto com a bossa nova, Glad e César Nascimento - músicos que em suas carreiras fogem do simplesmente regional, mas que na ocasião celebrarão a riqueza de ritmos da terra natal. Glad, há 10 anos no Rio, vai atacar de sotaque pindaré - um dos ritmos de bumba-meu-boi - para acompanhar Dente de ouro, composição do letrista maranhense Josias Sobrinho.

   Já César Nascimento vai musicar o poema Um instante, de Ferreira Gullar.

   - Pesquisei a obra dele e achei que esse tem muita musicalidade - diz o músico, que vai apresentar o resultado pela primeira vez ao poeta.

   A adaptação de poemas de autores do Maranhão para música é um projeto coordenado pelo veterano Nonato Buzar, que começou a carreira depois da mudança para o Rio, em 1953.

   A admiração de Nonato por Gullar também rendeu um poema: ''Jamais pensei ser poeta/ Poeta nasce no céu/ Eu nasci num lugarejo/ Meus versos beiram o cordel/ Jamais pensei ser Vinicius, Bandeira, Drummond ou Gullar/ Eu respeito essa estrada/ Mas acho que posso passar/ (...)''.

   Com menos tempo de estrada do que Nonato, Glad e César conheceram Ferreira Gullar na mesma ocasião, numa rodada de pizzas na casa do artista plástico Zé Andrade, e saíram do encontro com a mesma boa impressão do poeta devido à sua rara amabilidade.

   - Primeiro, eu tremi nas bases, pensei se ia mesmo tocar minha música na frente do poeta, mas, com o tempo, fiquei mais à vontade - lembra Glad, que está lançando o primeiro CD depois da mudança para as terras cariocas, há dez anos.

   César destaca a militância política do autor de Poema sujo, um dos pioneiros do movimento neoconcreto no país:

   - Ele é um verdadeiro guerrilheiro social.

   Além de outros artistas da terra, também participa do encontro o poeta Salgado Maranhão.

JB Online)

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