O cantor denuncia a segregação da mulher em uma opereta
irônica
Véronique Mortaigne
Em Paris
Felicidade! Tom Zé lança o seu novo
álbum, intitulado "Estudando o Pagode na Opereta 'Segrega Mulher e Amor'",
ou seja: este cantor-compositor que é um verdadeiro vibrião do rock
tradicional brasileiro, destrincha aqui o "pagode", um estilo de samba
popular, nervoso e irônico, sob a forma de uma opereta imaginária, na qual
são abordados os temas da segregação da mulher e do amor. O menos que se
possa dizer é que é um programa que promete.
Aliás, programa é o que não falta
entre as ferramentas utilizadas por Tom Zé: há truques geniais produzidos
por meio de computadores, que permitem armar a distorção de um ave-maria
adocicado, ou a amplificação cavernosa de um macho imbecil. Será uma opereta
sintetizada, eletrônica, esta sobre a qual o autor precisa que ela é
"inacabada"? De jeito nenhum.
Tom Zé trabalha os seus sons, mas os
violões, os cavaquinhos, as percussões e o bandolim que não poderiam faltar,
estão presentes.
Tom Zé canta, e toca folha de fícus.
Ele que nasceu num lugar improvável do sertão baiano, antes de se tornar um
dos fundadores do movimento tropicalista junto com Caetano Veloso e Gilberto
Gil, nos explica no encarte do disco de que maneira a folha de fícus, quando
enrolada em forma de canudo, permite emitir um som nasal e estridente, o
qual "produz uma música crua, que se alimenta da sua própria insipiência.
Essa insipiência é a veia do meu interesse".
Portanto, "Estudando o pagode" não se
parece com nada que nós já conhecemos. Este era também o caso do álbum
precedente, "Jogos de Armar", o qual trazia um segundo CD que incluía os
"esqueletos" das músicas do primeiro, para ser utilizado por todos os
criadores de remixes.
Mas esta nova coleção extraordinária
de 16 músicas que contam uma história aparentemente desvinculada da
realidade (o negro Maneco Tatit que maltrata Tereza é, por sua vez,
maltratado pelo seu professor da universidade) é uma pérola de inteligência
política.
Neste álbum, composto para duas vozes
(masculina, Tom Zé, feminina, Suzana Salles) e mais erudito do que pode
parecer à primeira vista, Tom Zé convida os pseudo-desconstruidores de sons
(Seu Jorge) a plantar batatas e a ver se ele está na esquina.
A ironia como forma de se opor ao
machismo, a denúncia crua da exploração da mulher, a complacência desta
última frente à sua dor e, no final, a sua força, são sentimentos que ele
expressa com uma total liberdade.
Enquanto a substância musical
permanece impregnada das ricas sonoridades nordestinas (em que predominam
violões de sete cordas), da filosofia do deserto interior, entre messianismo
e submissão, a alquimia produziu-se por contágio com as pesquisas muito
urbanas do underground de São Paulo, onde Tom Zé se instalou duas décadas
atrás.
Um excêntrico e um grande apreciador
de trocadilhos, Tom Zé utiliza as formas antigas dos coros de mulheres para
desmontar os velhos lugares-comuns ("a mulher é o mal") e detoná-los em
forma de música para dançar.
"Estudando o Pagode" faz referência a
"Estudando o Samba", um disco que ele mesmo havia lançado durante os anos
negros da ditadura militar (1976). Neste, na ilustração da capa, branca,
havia uma fileira de arame-farpado preto. No novo álbum, o arama-farpado
continua ali, mas ele cerca uma Vênus que parece surgir do século 19.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
(©
Le Monde/UOL Mídia Global)