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Um dos mais completos artistas moderistas brasileiros tem a
multiplicidade de sua obra reunida em livro
DIANA MOURA BARBOSA
O artista plástico Vicente do Rego Monteiro foi o nome mais
completo que as artistas plásticas pernambucanas já conhecera. É a partir
desta tese que o também artista plástico Paulo Bruscky, na companhia de
Edmond Dansot, Jobson Figueiredo e Syvia Pontual, elaborou a obra Vicente
do Rego Monteiro: poeta, tipógrafo, pintor, um compêndio de 557 páginas,
lançado no Palácio do Campo das Princesas. O trabalho faz
o que parecia impossível depois que o crítico de arte Walter Zanini lançou
o seu Vicente do Rego Monteiro: artista e poeta, 1899-1970, e traz muito
material inédito sobre o pernambucano. A diferença entre os dois livros é
que, enquanto Zanini preferiu se dedicar a uma avaliação crítica bastante
detalhada das criações do pintor, Bruscky e seus colaboradores optaram por
escrever menos e deixar as criações de Rego Monteiro falarem por si
mesmas.
Assim, há apenas cerca de 50 páginas de ensaios sobre o trabalho do
artista – replicadas em mais 50 páginas com os mesmos textos vertidos para
o francês, já que toda a edição é bilíngüe. As avaliações críticas são
assinadas por Bruscky, Mário Hélio, Edmond Dansot, Ypiranga Filho, João
Câmara, Edson Nery da Fonseca, Milton Lins, Francisco Oiticica Filho,
Sebastian Joachim, além de um texto de Gilberto Freyre, de junho de 1954,
recuperado para o livro. A apreciação de Câmara também é antiga, publicada
originalmente em 1959.
O peso da publicação, entretanto, está na quantidade enorme de material
produzido por Rego Monteiro e que se encontrava inacessível ao público –
ou pela sua raridade, ou porque estavam perdidos antes de Bruscky
emnpreender sua odisséia em busca dos caminhos trilhados pelo pintor
pernambucano. Durante muito tempo, Paulo Bruscky dedicou seu fôlego a
viagens e pesquisas em arquivos mortos, à caça de qualquer texto,
referência, fotografia e correspondências que pudessem estar relacionados
ao trabalho de Vicente do Rego Monteiro. O resultado é surpreendente.
Vicente do Rego Monteiro: poeta, tipógrafo, pintor apresenta toda a obra
poética de Rego Monteiro.
São 21 livros, todos republicados integralmente. Estão aqui os “poemas
de bolso” do autor, seus famosos caligramas – disponíveis no acervo do
Mamam – e os títulos de Concreção, publicados na França em 1952, que,
acredita-se, antecipa o concretismo brasileiro. Outra obra
interessantíssima é a Cartomancia, também editada em Paris, na mesma data,
e que monta poemas a partir da combinação de naipes em cartas de baralho.
Essas poesias foram editadas originalmente em cartões que formavam de fato
um baralho. Essa relação entre a forma e o conteúdo do poema permeia todo
o trabalho textual de Vicente do Rego Monteiro, que escrevia como quem
pintava. A forma altera conteúdos e sentidos dos seus escritos,
modificando a escrita em si, desde a sua origem. Algumas de suas poesias
foram criadas para serem mais olhadas do que lidas.
(© JC Online)
Livro de Vicente
resgata pioneirismos e raridades
Série de poemas-postais e CDs com poemas sonoros enriquecem a obra
dedicada ao artista A estreita ligação do pensamento textual e visual em Vicente do Rego
Monteiro fez do artista um excelente tipógrafo. Por isso, o livro
dedica-se também às suas criações gráficas. Não só em relação ao seu
trabalho, mas também em publicações de outros autores, o artista
dedicava-se à criação de exemplos de trabalhos que merecem o título de
artes gráficas. Essas peças combinavam equilíbrio gráfico, harmonia de
cores e, às vezes, ilustrações assinadas pelo próprio Rego Monteiro. Suas
ilustrações, aliás, foram outro capítulo de Vicente do Rego Monteiro:
poeta, tipógrafo, pintor. Entre os trabalhos reproduzidos no livro
assinado por Paulo Bruscky estão produções para a Revista Nordeste
(Recife, 1960), Boletim da Cidade (Recife, 1941), Jornal
Fronteiras (Recife, 1938) e para Revue de la Maison de la Poèsie
Rhone (França, 1971).
Entre os pioneirismos identificados por Bruscky, na obra de Rego
Monteiro, encontram-se também obras de arte-correio. No livro, consta a
publicação da série de Poème-Postal, com textos do pernambucano e
de outros autores, escritos em francês. Esse trabalho, de 1952 a 1968,
teria antecipado a arte postal, que envolve artistas da Europa e das
Américas na criação de obras coletivas. Os trabalhos eram realizados por
artistas de lugares diferentes, depois da troca de cartas e
cartões-postais contendo obras inacabadas, que eram completadas e
repassadas para outros endereços. Essa produção só se torna freqüenete nos
anos 60 e 70. O próprio Bruscky participou do movimento.
Outro destaque do livro é o conjunto de poemas sonoros – escritos por
Vicente do Rego Monteiro ou por outros autores – que foram resgatados por
Paulo Bruscky. Esse material, que era editado pelo poeta nos discos Vox
Poetica, dava destaque para autores contemporâneos ao pintor. O
material, todo reproduzido num disco encartado no livro, traz declamações
de escritos assinados por François Dodat, Pierre Mathias, Edson Regis,
entre outros.
Por fim, em Vicente do Rego Monteiro: poeta, tipógrafo, pintor,
Paulo Bruscky também se empenhou em publicar na íntegra a correspondência
de Bruscky para Pietro Maria Bardi, que durante um longo período dirigiu o
Museu de Arte de São Paulo (Masp). As cartas acompanham diversas fases da
trajetória de Rego Monteiro – e ocupam quase cem páginas do livro. Os
textos foram copiados eletronicamente, constando no livro com a letra do
próprio pintor. Também foram registradas as cartas que enviou para
Gilberto Freyre, em menor número.
(© JC Online)
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