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Morto em 1989, o roqueiro baiano entraria hoje na casa dos sessentões.
Pelo País afora, fãs vão comemorar a passagem da data “Num planeta chamado Terra. Num país chamado Brasil. Num estado chamado Bahia. Numa cidade chamada Salvador. Numa rua chamada Avenida 7. Numa casa número 108. Nasceu um menino gordinho com quatro quilos e meio chamado Raulzito”. O autor desta sucinta biografia precoce (tinha cerca de doze anos quando a escreveu) esqueceu de acrescentar o ano, mês e dia do nascimento: 28 de junho de 1945. O nome completo de Raulzito era Raul dos Santos Seixas, autodenominado “Maluco Beleza”, que hoje, portanto estaria completando 60 anos. Raul Seixas, que escrevia e desenhava compulsivamente desde os nove anos, guardava em seu fornido e lendário baú uma folha de papel pautado, sem data, com alguns pensamentos, entre os quais encontrava-se este: “A vida é um palito de fósforo que vai se queimando até se apagar para sempre”. Raulzito entrou em combustão, em 1960, quando o rock and roll virou de vez sua cabeça. O rock seria o combustível que o impulsionaria até a chama extinguir-se em 21 de agosto de 1989, quando fazia sua derradeira turnê pelo Brasil com o conterrâneo Marcelo Nova (apresentada aqui no Pavilhão do Centro de Convenções). Raul Seixas foi uma espécie de Augusto dos Anjos da MPB. Criou uma obra única, teve muitos imitadores, mas não liderou movimentos. Em entrevistas (concedeu centenas, embora afirmasse não gostar de ser entrevistado) dizia que não se pretendia guru nem líder de nada nem ninguém, no entanto criou um confuso movimento que denominou Sociedade Alternativa, inspirado no “bruxo” Aleister Crowley, porém curiosamente semelhante a Nutopia criada por John Lennon (seu ídolo declarado e em quem se espelhava). Suas declarações sobre filosofia, política, comportamento, aliadas às mensagens das canções, arrebanharam para Raul Seixas um séquito de admiradores, para o qual ele foi mais do que um astro pop. Viam-no como um xamã. Já para o regime militar, ele não pasava de um agitador mais, com aquela história de Sociedade Alternativa. Agentes do DOPS chegaram a invadir o apartamento do cantor à caça de documentos subversivos da tal sociedade. Nada encontraram, mas, em 1974, ele foi aconselhado a deixar o País. Foi para os Estados Unidos (confessava que gostaria de ter nascido americano. A maioria de suas mulheres foram americanas), onde permaneceu até a poeira baixar. Nesta estadianos EUA ele contou que fez amizade com John Lennon, com quem começou projetos que nunca foram terminados (o encontro é contestado por seus biógrafos). Em 1975 estava de volta ao Brasil e com um disco nas lojas O novo aéon, um trabalho que ele considerava estar à frente do seu tempo. O LP foi mais comentado do que ouvido, sem o impacto causado pelos discos anteriores, sobretudo o primeiro Krig-Ha Bandolo, no qual engatou uma parceria bem-sucedida com Paulo Coelho. Os dois tinham em comum mais do que o interesse pelas leituras esotéricas. Sabiam também o segredo de dizer exatamente o que seu público queria ouvir. Raul Seixas foi despertado para o sucesso pelos Beatles, e aprendeu o ofício como produtor de artistas da Jovem Guarda na CBS (atual Sony BMG). Paulo Coelho ensaiou nas letras que fez para Raul Seixas a filosofia prèt-a-porter dos seus futuros best-sellers. Impossível imaginar qual seria a do Raul Seixas sessentão. Com certeza, continuar a balançar o coro dos contentes, a entrar e sair de todas. Jamais ficaria sentado num trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. (© JC Online) Garanhuense encarna personalidade de Raul e festeja o aniversário O garanhuense Francisco Alexandre Cavalcanti teve sua vida marcada pela primeira audição de Ouro de tolo, com Raul Seixas, em 1973: “Eu ainda era criança, mas senti que havia uma coisa diferente ali. Passei então a acompanhar a carreira de Raul”. Com o passar dos anos, já morando no Recife, ele se tornou fã de carteirinha, literalmente, do cantor. Fundou, em 1982, um fã-clube de Raul Seixas, (que conta com cerca de duas centenas de entidades semelhantes no Brasil). Naturalmente, não vai deixar passar em branco a efeméride. Quinta-feira, com a Sessão das Dez (projeto paralelo da The Playboys), Alexandre Seixas (como é conhecido) faz a festa dos 60 anos de Raul Seixas, na nova casa Alive Music, em Boa Viagem (onde funcionava o Theatro, no Edificio Califórnia). A primeira vez que Alexandre viu Raul Seixas ao vivo foi em 1983, numa apresentação do cantor no Geraldão. Em 1987, foi visitá-lo em São Paulo, levando entre outros presentes, um livro do anarquista José Oiticica. Foi recebido por um acessível Raul que o levou para seu estúdio doméstico, e mostrou-lhe várias músicas, algumas até hoje inéditas: “Ele estava preparando o disco A Pedra do Gênesis, e botou para tocar Ouro de tolo em espanhol, Asa Branca em inglês, muita coisa”, relembra Alexandre Seixas. Hoje aos 44 anos ele é um dos mais conhecidos covers do cantor. E quando parar, já tem quem um sucessor. Seu filho, de 15 anos, batizado de Raul, já começa a participar dos shows, e como o pai, conhece todas as músicas do Maluco Beleza. (JT) (© JC Online)
Na terça-feira 28, Raul Seixas faria 60 anos. A principal homenagem que poderia receber é a reedição de seus discos devidamente remixados. O pacote que a Universal está colocando nas lojas, com oito CDs selecionados e supervisionados por sua viúva, Kika Seixas, faz isso e muito mais. Traz fotos inéditas e faixas-bônus, como Caroço de manga, Loteria da Babilônia e Ouro de tolo, incluídas em Krig-há, bandolo (1973), o disco de estréia. Os outros são Gita (1974), Novo Aeon (1975), 30 anos de rock (1975), Eu nasci há dez mil anos atrás (1976) – com uma versão alternativa de Maluco beleza –, Raul rock Seixas (1977), O baú do Raul (1992) e Documento Raul Seixas (1998). Uma ótima oportunidade para conferir a qualidade real do trabalho desse artista que assumiu contornos messiânicos para seus numerosos fãs.
Raul se foi em 1989, aos 44 anos, vitimado pela ânsia de viver que o levou a consumir hectolitros de álcool. Como James Dean, que no dia 30 de setembro de 1955 arremessou seu “pequeno bastardo”, um Porsche Spyder 550 prateado novinho em folha, contra outro carro que teve a infelicidade de cruzar com a lenda. Uma lenda forjada através de três filmes, sendo que dois deles nem haviam estreado. Esse não é o caso de Raul, nem mesmo de Cazuza, Renato Russo e Cássia Eller, ídolos que se despediram no auge do sucesso e que, coincidentemente, estão sendo lembrados. O CD Cazuza – o poeta está vivo traz o show do Teatro Ipanema realizado em 1987 para o lançamento do segundo disco solo do cantor, Só se for a dois. Assim, o público ouvia pela primeira vez, além da canção-título, músicas como Nosso amor a gente inventa (estória romântica) e Solidão, que nada, entre outras. Inédita também era Brasil, em que faz o trocadilho “o nome do teu sócio? conFie eM mIm”, despercebido na época. A música só seria gravada em Ideologia, álbum lançado no ano seguinte. Hoje, as 18 faixas de Cazuza adquirem um outro olhar quando se sabe que ele recebera naquela semana o diagnóstico definitivo da Aids. Cazuza canta a plenos pulmões, com os nervos à flor da pele. A fita do show estava esquecida em uma gaveta da Som Livre que pertencera a Ezequiel Neves, ex-funcionário da gravadora, jornalista, agitador, produtor e amigo pessoal de Cazuza, que assina a direção artística do CD. Cazuza morreria em 1990, aos 32 anos. Seis anos mais tarde, Renato Russo, compositor e líder do grupo Legião Urbana, também era vitimado pela doença, aos 36 anos. A trajetória do ídolo, da adolescência rebelde ao primeiro show do grupo, em julho de 1983, será recriada pelo diretor Antonio Carlos Fontoura e pelo produtor Luiz Fernando Borges, amigo de Renato. O filme, que já tem o roteiro finalizado e está em fase de escolha de elenco, deverá ser lançado no próximo ano. O título provisório é Religião urbana. Inédita – Coincidentemente, Lobão, contemporâneo e parceiro desses artistas, presta homenagem a três deles em seu recém-lançado Canções dentro da noite escura. A partir de escritos deixados por Júlio Barroso, o jornalista, poeta e roqueiro, fundador da Gang 90 e as Absurdettes, falecido em 1982, Lobão compôs Quente e Não quero o seu perdão – esta com Taciana Barros, companheira de Júlio. O primeiro dos textos foi escrito 24 horas antes de Júlio despencar por uma janela. Outra letra inédita, agora de Cazuza, resultou na pungente Seda. Lobão ainda dedica a delicada Boa noite Cinderela à amiga Cássia Eller, que não sobreviveu a uma sucessão de paradas cardíacas em 2001, aos 39 anos. A vida conturbada da cantora de Malandragem, aliás, composta por Cazuza, será focalizada em Apenas uma garotinha – a história de Cássia Eller (Planeta, 274 págs., R$ 35), dos jornalistas Eduardo Belo e Ana Cláudia Landi, que deve chegar às livrarias na sexta-feira 1º de julho. “Resolvi abrir o livro com as circunstâncias da morte de Cássia, que é a parte mais nebulosa de sua vida”, adianta Belo. A exemplo do CD de Cazuza e a reedição de Raul Seixas, trata-se de uma homenagem nada nostálgica. Como a jornalista Mônica Figueiredo escreveu na apresentação do disco de Lobão, diante do que produziram pode-se dizer que os exagerados estão “mais vivos do que muito nego por aí”. E quem há de negar? (© Revista ISTO E) Liverpool-Salvador Com o piano de João Donato, Palmyra e Levita misturam beatles e bossa Tárik de Souza Discípulo confesso do violão meticuloso de João Gilberto, o baiano (Paulo) Levita volta a gravar em dupla com a mulher cantora, Palmyra, num trio informal com o piano de outro fundador da bossa, João Donato. O CD Lucy in the sky with bossa diamonds (JSR), reunindo Palmyra & Levita com João Donato, já circula no mercado internacional, mas ainda não tem data para sair no Brasil. Como no disco de estréia, Here's that rainy day (2001), o repertório mescla temas nacionais e internacionais com tratamento bossa nova. O toque de baianidade do primeiro chegou à axé music de Carlinhos Brown (A namorada). Rapunzel saiu numa faixa bônus que, remixada, virou single emplacado nas danceterias européias. Dessa vez, entra em cena o Caetano Veloso dançante do manifesto setentista Odara, reforçado ''no balanço pelo fá sustenido na sexta corda'', como ensina Levita. Outra remodelação harmônica de peso foi feita no standard Come rain or come shine (Harold Arlen/ Johnny Mercer), sucesso, entre outros, de Frank Sinatra. Além do ritmo cadenciado no samba, a harmonia ganhou um acorde a mais em cada compasso. - Com esta leitura a melodia se tornou mais vibrante - admite o ourives Levita. O clima joãogilbertiano envolve toda a confecção de Lucy in the sky with bossa diamonds. O produtor Arnaldo De Souteiro gravou tudo em estúdio, em três noites, sem emendas, com a mixagem tradicional do violão no canal esquerdo, o piano no direito e a voz da cantora no centro, sem reverberação artificial. - Assim como no disco anterior, procurei equilibrar bossas jazzificadas com standards americanos devidamente adaptados ao balanço da bossa - detalha ele. João Gilberto está onipresente no repertório, a começar por seu próprio bossalero Oba-lá-lá, recriado com acordes alterados que acrescentam um sotaque baiano ao tema. Sucesso, entre outros, de Ray Charles, Ruby (Mitchell Parish/ Heinz Roemheld) foi quase uma imposição do guru. Em seu aniversário do ano passado, cumprimentado ao telefone por Levita, João Gilberto pegou o violão e tocou Ruby, ditando acorde por acorde para o interlocutor. ''Pegou tudo? Então grave no próximo disco'', comandou. Ruby está no cardápio, docemente suingada na voz de Palmyra, com um Samba de uma nota só, implícito no violão de Levita, e um lírico improviso pianístico de Donato. É o cenário que predomina no disco. O hiper harmônico Donato, cujo livro de cabeceira é de partituras de Debussy, tece comentários em diálogos de intenso suingue com o violão em temas jobinianos como Outra vez e O grande amor e no referido Samba de uma nota só (com Newton Mendonça). Isso sem contar seu próprio Ahiê, letrado por Paulo Cesar Pinheiro para o disco Quem é quem, que marcou o ingresso de Donato, autor seletivo de temas instrumentais, no universo da canção assobiável. Aliás, o assobio que se ouve na faixa é de Levita. - É o que uso para chamar minha filha Sarinha - conta. O refinamento do disco vai a ponto de optar pela versão Les printemps, do chansonier Jean Sablon, para It might as well be spring (Oscar Hammerstein II/ Richard Rodgers), Oscar de melhor canção de 1945. Apesar de cantar em francês, Palmyra inspirou-se na interpretação de sua ídola, a cantora americana Blossom Dearie, chamada de ''Chet Baker de Saias'', numa emissão nonchalant, como escreveria o mestre da crítica jazzística Sylvio Tulio Cardoso. Ao lado de outros clássicos (Tenderly, Fools rush in), o disco também traz composições elaboradas de Levita, como Revelação e O sono da América do Sul, e enlaça na bossa a beatle Lucy in the sky with diamonds. A combinação dos acordes oitavados dos ingleses com a dissonância da bossa e o vocal alado de Palmyra elevam a lisergia do tema ao paroxismo. Está posta a ponte Liverpool-Salvador. Uma ponte que levita (com trocadilho, por favor), balança, mas não cai. (© JB Online) |
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