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Marcelino Freire, esse pernambucano radicado em São Paulo, virou sinônimo de agitação, confusão até, nos meios literários desde que surgiu com o livro de contos Angu de sangue. Violenta, rápida e nada rasteira, a obra foi o trampolim ideal para ele e o colega (e também escritor) Nelson de Oliveira tocarem na ferida aberta de “geração de escritores” – essa aí, deles, toda urbana e com os dois pés fincados em retratar gente que não tem muito o que perder. Depois, Marcelino editou
uma coleção de livros de bolso, provando que cinco minutinhos estão de bom
tamanho para você se dedicar à leitura, seguida por Os 100 menores contos
brasileiros do século, uma participação (barulhenta) na Festa Literária
Internacional de Parati. Agora Freire chega como livro Contos negreiros,
ponto de partida para a seguinte conversa. MARCELINO FREIRE – Eu percebi que havia vários contos meus em que o negro é personagem. Daí gostei da idéia de fazer um livro negreiro, assim, à Castro Alves, Jorge de Lima. Um livro “abolicionista” em pleno século 21. Compactuar com o Freyre com “y”. Digamos que criei o meu Casa-Grande & senzala. Movimento dos sem-terra, sem-teto e senzala, entende? Não sei escrever sobre outros personagens. Também sou periférico. Sou retirante, filho de sertanejo, etc. Sei bem o que é isso. Perguntaram-me por que no meu Contos negreiros não tem um só negro bem de vida. Gente bem-sucedida não tem vez na minha prosa. Eu não escrevo livro empresarial. Não vendo felicidade. Eu faço é literatura.
JC – Você fez algum trabalho de pesquisa, alguma entrevista, para chegar a essas histórias, ou é tudo fruto de observação, de criação? MF – Nenhum trabalho de pesquisa, que conversa é essa? Não vou parar um parágrafo para verificar onde fica a Cochinchina. Nem quero que o leitor faça isso. O melhor guia para o meu livro, tanto para mim como para o leitor, é o ouvido. Meu livro não é um livro de História, entende? É um livro de histórias. E o melhor: sonoras. Quero ser bem ignorante, como diz um dos meus personagens, a Totonha: “Aprender com o vento, tá me entendendo? Ser demente como um mosquito.” Na verdade, o que pesquisei depois foi a imagem para a capa. Essa foto do negro nu, de frente e de costas, encontrei em um livro de fotografias do século 19.
JC – Além da temática, outra coisa que chama atenção no seu livro é o fato dele fazer mais sentido quando lido em voz alta, recitado. Essa é uma marca que acompanha o seu trabalho. Por que essa sua preocupação de fazer prosa com um quê de poesia? MF – Eu escrevo em voz alta. É com uma memória musical que eu trabalho. Que eu vou costurando os sons das minhas narrativas. Isso tem muito a ver com o fato de eu ser filho de sertanejos. De ter ouvido, desde cedo, muitas ladainhas e queixas. Meus personagens sempre estão assim, gritando alguma coisa. Sacudindo o verbo. Essa oralidade é bem da nossa cultura. E é aí onde eu me agarro. Fazendo uma espécie de maracatu desarmorial. Não vem a ser uma “preocupação” minha fazer prosa como se fosse poesia. Toda prosa, creio, é poética. Toda poesia é prosa, enfim, assado.
JC – No seu perfil presente em Contos Negreiros, há a definição “um dos principais nomes da nova geração de escritores brasileiros.” Essa divisão por geração já causou diversas polêmicas. E para não fugir dessas polêmicas: a que geração você acha que pertence? MF – Eu sempre digo que pertenço a uma geração teimosa. Se eu sou de uma geração, eu sou da “geração da teimosia”. Todos esses nomes que surgiram nos anos 90 têm uma coisa em comum: não ficam parados. Agitam a cena, escrevem, produzem. Há muito não se via um movimento tão vivo, tão intenso. Eu fico orgulhoso de fazer parte desse movimento. Como um dos principais. Fui eu quem mandou colocar no final do livro: “Um dos principais.” Não disse que eu sou teimoso? Um dia essa afirmação aí vira verdade.
JC – Você também comanda um blog (o www.eraodito.blogspot.com). Esse tipo de veículo é fundamental para um autor, hoje em dia, divulgar seu trabalho? MF – Cara, adoro blogues. O meu já faz quase três anos que tenho. Todo mundo vai lá, de escritores novos a veteranos. Virou uma agenda do que tem acontecido na literatura hoje. Por meio do eraOdito, conheci muita gente. Gosto disso. É uma ferramente ótima para a gente divulgar o nosso trabalho. Colocar os textos à prova, entende? Circular. É fundamental, sim, sair um pouco do casulo. Principalmente hoje. Escritor em casulo só serve para peidar. Vamos nos comunicar.
JC – Você está sempre envolvido em diversos projetos. Conta aí os projetos da vez? MF – Eta danado! Estou organizando com o escritor Santiago Nazarian uma antologia de contos gays intitulada Contos para ler fora do armário, que será publicada, em dois volumes, pela editora Record, até o final do ano. Idealizei e estou produzindo o programa de TV e o DVD literário Saideira, com apresentação do Xico Sá, cujo primeiro piloto já foi gravado. É um programa que reúne escritores e afins em uma mesa de bar. No primeiro, estavam lá, por exemplo, o Mário Bortolotto e o Sérgio Sant’Anna. Tudo para tirar um pouco a literatura do Olimpo. O Olimpo é sujo, entende? A literatura precisa estar junto do arroto e da batata frita, não acha? Eu acho. (© JC Online) País enraivecido emerge dos "Contos Negreiros" DA REPORTAGEM LOCAL A queixa de um negro que assalta no farol e, preso, é impedido de retornar ao barraco e beijar as crianças. "Violência é a gente naquele sol e o cara dentro do ar-condicionado uma duas três horas quatro esperando uma melhor oportunidade de a gente enfiar o revólver na cara do cara plac." A queixa do impedido de vender o rim, seu próprio rim, por R$ 10 mil. "Por que não cuidam eles deles, ora essa?" A queixa da mulata de Recife, que sente falta dos alemães que chegavam todas as tardes para levá-la a rodar restaurantes, hotéis, camas d'água. "Menos pior que essa vida de bosta arrependida." Queixas, discursos, teimosias, ladainhas. Essa é a arte do pernambucano de cabeça quente Marcelino Freire, que lança em julho, pela Record, seus enraivecidos "Contos Negreiros". Lembranças de sua mãe, sertaneja de Sertânia, a cantar Luiz Gonzaga quando contente, e a bater panelas quando brava, quando indignada com suas misérias. De Gonzaga ou das panelas surgiram esses cantos, brados entoados por personagens de pouca fortuna. "Essa coisa sertaneja da minha mãe falando o tempo todo, isso aí ficou marcado na minha prosa desde os primeiros livros que publiquei", explicita Freire. "Nordestino é de se queixar muito. E me interessa porque é som e é a partir dele que vou dizendo as coisas que me incomodam." Dizer o que incomoda: é dessa forma que as histórias se sucedem, negro trás negro, branco trás negro, negro trás negra trás branco. Histórias rápidas, curtas. "Em tudo na arte, todos os artistas, em toda arte, eu gosto dos que dizem imediatamente o que querem e vão embora, pelo amor de Deus", declara Freire. Um livro abolicionista em pleno início de novo milênio. No conto "Trabalhadores do Brasil", a questão ganha caráter explícito e ironia fina: "Ninguém aqui é escravo de ninguém", e aí termina. Mas quem serão esses ninguéns? O trabalho mal ou nunca pago, o abuso policial, o comércio sexual. Retratos de um Brasil tantas vezes retratado. E o próprio Freire vê-se enredado nessa mesma trama, embora talvez em seu ramo mais nobre. É também ele um escravo, mas da literatura, que muito o requer e pouco lhe paga. Dominadores e dominados, essa é a temática que o atrai. Atrai, não, que o toma de assalto. E é preciso exorcizar, livrar-se do que o invadiu, compartilhar o que ouviu, tomar também de assalto ele mesmo. "Tem uma nervura ali, de todo mundo, um desencontro, uma doença geral." De resto, no entanto, se sobressai o humor, e a certeza de que ler seus contos não será tão penoso quanto vivê-los. "É, tem uma coisa do riso nervoso. Gosto desse humor que desorienta. É o rir do absurdo a que se chegou." (JF) Contos Negreiros (© Folha de S. Paulo) |
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