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Os novos sambas de Caymmi

Hugo Sukman

   O telefone de Muri Costa toca. É Danilo Caymmi:— Papai lembrou de umas músicas que fez há muito tempo, dá para você vir para cá ajudar a tirar as harmonias?

   Mesmo para Muri — violonista que acompanhou o velho Dorival por 11 anos, foi aluno e discípulo de Dori, tocou na banda de Nana, é amigo de Danilo desde a adolescência, é como se ele próprio fosse um quarto filho — um chamado desses emocionou.

   — Cheguei lá em Copacabana e eram três inéditas: um foxtrote, uma marchinha de carnaval e um samba, que a Stellinha Caymmi ( neta que então escrevia a biografia de Dorival ) achou fragmentos de letra — diz Muri. — De repente o Dorival lembrou de outro samba, “O que me importa se eu tiro o domingo pra sambar?”, e enquanto ele lembrava e eu tirava no violão, ele virou para mim e disse: “Isso não tem cara de conjunto vocal?”.

   Tinha cara de conjunto vocal. Tanto que “O que me importa se eu tiro o domingo pra sambar?” tornou-se um dos dois sambas inéditos de Caymmi que o Arranco de Varsóvia, quinteto vocal especializado em samba que Muri integra, lança em seu novo disco, “Na cadência do samba” (Dubas). O outro, “Falou com a moça?”, também tem jeitão de conjunto vocal, o velho Bando da Lua, que tanto cantou Caymmi, com e sem Carmen Miranda, certamente gravaria.

   — É curioso, são dois sambas que Dorival compôs nos anos 30 e ambos têm perguntas no título, como tantos outros sambas dele daquela época, tipo “O que é que a baiana tem?”, “Você já foi à Bahia?” — diz Muri.

Samba demorou mais de 60 anos

   Os dois sambas estão no nível habitual de Dorival Caymmi: são suingados, formalmente perfeitos, malandros, sacanas. “Falou com a moça?” é a história de um sujeito metido a conquistador, tão ao sabor dos anos 30. “Falou com a moça?/Não, não/Cutucou a moça?/Não, não/Mexeu com a moça/Não, não/Então como agora você diz/Que toda moça lhe namora?”, provoca a letra, que tem música sincopada, nos moldes de um “A vizinha do lado”.

   “O que me importa se eu tiro o domingo para sambar?” é mais legal ainda. E, provavelmente, é a música de Caymmi que mais tempo demorou a ser feita, talvez recorde mundial levando-se em conta a proverbial lentidão perfeccionista do compositor baiano. Iniciado em 1930, o samba só foi concluído na tarde de 1999 em que Muri foi à casa de Caymmi, ou seja, 69 anos depois de iniciado, batendo longe o recorde anterior de uns trinta e poucos anos de “João Valentão”.

   — Dorival esqueceu dois versos, então teve que escrever novos versos na hora — testemunhou Muri.

   Nos novos versos, o esperto Dorival aproveitou para auto-ironizar sua injustificada fama de indolente: “Trabalhador eu sou/E tenho os documentos aqui para provar”, diz o personagem do samba, sempre justificando o fato de que, aconteça o que acontecer, “eu tiro o domingo pra vadiar”.

   — Tem outro detalhe interessante. Naquela época, os compositores gostavam muito de exaltar o Brasil de forma ufanista, era a época do samba-exaltação, e isso incomodava um pouco Dorival, que não achava necessário demonstrar o amor pelo país daquela maneira exagerada. Então ele acaba o samba com aquela ironia: “E aqui termino saudando as mulatas de todo o Brasil/O que me obriga a uma rima forçada com céu de anil” — analisa Muri.

   Os dois Caymmis inéditos são a principal atração do novo disco do Arranco. Mas não a única. O grupo tem nova formação — além dos fundadores Muri e Paulo Malaguti, as três cantoras são novas, Andréa Dutra, Cacala Carvalho, Elisa Queirós, escolhidas em testes — e, depois de gravar um disco só de Cartola, volta ao formato do primeiro CD: misturar sambas da geração Cacique de Ramos, como Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho, à incursão no samba de compositores de MPB, como Caetano Veloso (“Força da imaginação”, parceria com Dona Ivone Lara), e até de rock como Leoni (“Três dias de ventania”, com Malaguti).

   Como Muri Costa gravou a sessão em que ajudou Caymmi a lembrar das músicas esquecidas, ele conseguiu registrar a frágil voz nonagenária de Dorival ensinando os versos de “O que me importa se eu tiro o domingo para sambar?”. Trata-se do mais recente registro vocal de Dorival, que abre a gravação do Arranco devidamente autorizada por seus três filhos músicos.

   — Considero a chance de, com o grupo, lançar esses dois sambas do Dorival, um coroamento da minha relação com os Caymmi — diz Muri, que é amigo de Danilo desde o início dos anos 70, quando formou o hoje mítico conjunto A Barca do Sol, foi o violão da banda de Nana por quatro anos nos anos 80, estudou violão com Dori que, quando foi morar nos Estados Unidos, passou o bastão de violonista oficial de Dorival para o aluno. — Eu me tornei brother mesmo do Algodão.

   Por óbvias incompatibilidade de gênero, já que o Arranco de Varsóvia é um grupo dedicado radicalmente ao samba, outros dois Caymmis inéditos dos anos 30 continuam a dar bobeira por aí: o foxtrote “Iracema”, sobre uma fã de cinema impressionada com os primeiros filmes falados, e a marchinha de carnaval “Lucila”, dois nomes de mulher para enriquecer o repertório mulherístico do autor de “Dora”, “Marina”, “Juliana” etc.

O Globo)


O que me importa

Que o mundo se acabe

Que a casa desabe

Seu eu tiro o domingo pra sambar?

E o que me importa

Se a sogra desanca

Se a mula não manca

Se eu tiro o domingo pra sambar?

Trabalhador eu sou

E tenho os documentos aqui pra provar

Mas eu tiro o domingo pra vadiar

Eu amanheço cercado das boas do lugar aonde moro

E não exploro a boa vontade de ninguém

E aqui termino saudando as mulatas de todo o Brasil

O que me obriga a uma rima forçada com céu de anil

“O que me importa se eu tiro o domingo para sambar?”, de Dorival Caymmi

O Globo)

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