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Frederico Vasconcelos é escritor e jornalista e foi o autor da primeira
reportagem sobre o patrimônio de dois desembargadores federais
Marcus Peixoto
editoria de Reportagem
A dificuldade encontrada pelo
Ministério Público Federal para levar juízes que cometeram irregularidades
a julgamentos e os expedientes adotados para postergar decisões que, em
muitos casos, beneficiam os acusados com a prescrição dos processos são
algumas das questões abordadas pelo jornalista e escritor Frederico
Vasconcelos, autor do livro "Juízes no banco dos réus".
No caso do juiz Pecy, acusado de
matar um vigilante em Sobral, o jornalista não acredita que o episódio
terá maior ou menor reflexo na imagem do Judiciário. Segundo ele,
promotores e jornalistas também já cometeram crimes violentos. Frederico
Vasconcelos publicou, há seis anos, a primeira reportagem sobre o
patrimônio de dois desembargadores federais. A reportagem levaria a
processos movidos pelo Ministério Público, inaugurando uma seqüência de
outras matérias e ações na Justiça, entre as quais algumas que geraram as
prisões dos juízes Nicolau dos Santos Neto (o Lalau) e João Carlos da
Rocha Mattos.
Na sua avaliação, os dois casos
apresentam pontos comuns, mas foram apresentados pela imprensa como
incidentes isolados. Formado em Jornalismo pela Universidade Católica de
Pernambuco, Frederico exerce a profissão desde 1967 e também é autor do
livro Fraude (Scritta, 1994). Confira a entrevista.
Diário do Nordeste - O livro "Juízes no banco dos réus" cita os casos dos
juízes Nicolau dos Santos Neto (o Lalau) e João Carlos da Rocha Mattos. O
que há de convergente nas ações de ambos magistrados?
Frederico Vasconcelos - Os juízes Nicolau dos Santos Neto e João Carlos da
Rocha Mattos têm perfis e trajetórias muito diferentes. O que aproxima
esses dois magistrados no livro tem pouco a ver com a ação deles como
juízes. Tem mais a ver com as dificuldades encontradas pelo Ministério
Público Federal para levá-los ao banco dos réus. Em ambos os casos, o
livro revela os expedientes adotados para postergar decisões e muitos
casos em que os acusados foram beneficiados pela prescrição. Como digo na
introdução, quando se trata de investigar membros da magistratura, a
Justiça, no Brasil, costuma tardar e falhar.
- Esses dois casos foram noticiados pela imprensa como incidentes
isolados. Você mostra que guardam pontos comuns, além de terem acontecido
no ambiente da Justiça Federal de São Paulo. Que coincidências seriam
essas?
Frederico Vasconcelos - Nicolau dos Santos Neto foi o único preso num
escândalo de grandes proporções. Segundo o Ministério Público Federal, o
juiz não teria atuado sozinho. A imprensa não questionou os expedientes
judiciais que livraram da condenação os cúmplices de Lalau. No caso de
Rocha Mattos, a Justiça foi lerda e o Ministério Público Federal também
não atuou com presteza. O juiz já havia sido afastado da magistratura e
voltou à Justiça Federal porque houve, no mínimo, certa omissão, inclusive
da imprensa. O livro mostra tudo isso. A Operação Anaconda trouxe à tona
documentos, gravações e processos que guardavam pontos comuns entre esses
personagens.
- Qual foi, então, o propósito do livro?
Frederico Vasconcelos - O propósito do livro foi costurar esses fatos,
perdidos ao longo do tempo. Uma curiosidade é que entre os juízes
afastados na Anaconda estava Casem Mazloum, que proferiu a controvertida
sentença que condenou Lalau e absolveu os cúmplices do ex-presidente do
TRT paulista.
- A CPI do Judiciário acabou transformando-se na "CPI do Lalau". Concorda
que ela foi bastante restrita em seus resultados?
Frederico Vasconcelos - Concordo. Essa também é a avaliação de uma
procuradora regional da República, Ana Lúcia Amaral, citada no livro. Ela
diz que Lalau era um juiz sem maior expressão, vindo do quinto
constitucional da Justiça do Trabalho. O caso só teria ganho notoriedade
quando envolveu o senador Luiz Estevão e quando o noticiário passou a
mencionar o ex-secretário da Presidência da Republica, Eduardo Jorge
Caldas Pereira.
- Que dificuldades são mais comuns para um jornalista investigativo, ao
abordar desmandos do Poder Judiciário?
Frederico Vasconcelos - A maior dificuldade, sem dúvida, é o temor de
represálias. No caso, há um grande mérito da "Folha de São Paulo", que
sustentou uma investigação jornalística durante seis anos, mesmo sofrendo
duas ações de indenização por dois desembargadores que tiveram seus
patrimônios revelados pelo jornal. Como digo na introdução do livro, esse
trabalho não é resultado apenas do esforço individual de um repórter. As
ações por danos morais, com indenizações elevadas, desproporcionais, devem
intimidar veículos de informação, principalmente em centros menores.
- O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Edson Vidigal,
defende a admissão de testes psicotécnico e de uma investigação da vida
pregressa para os candidatos à magistratura. É possível imaginar que esses
instrumentos teriam evitado as acusações de crime para os juízes Nicolau
dos Santos Neto e João Carlos da Rocha Mattos?
Frederico Vasconcelos - Não creio que esse seja o ponto fundamental.
Acredito que esses cuidados devam ser tomados também em outras atividades
e em outras profissões. Os juízes são submetidos a grandes pressões. Os
regimentos internos dos tribunais prevêem a realização de exames de saúde
periódicos.
- Onde estaria, então, a maior fragilidade do Poder Judiciário?
Frederico Vasconcelos - Acho que o problema maior está na fragilidade dos
mecanismos de correição e de fiscalização do trabalho dos magistrados. E
na falta de transparência, no sigilo das investigações contra magistrados
muito suspeitos.
- Que avaliação faz do juiz Pecy Araújo, processado por crime duplamente
qualificado, ao assassinar um funcionário de supermercado, mas que se
encontra preso. Esse caso, como o dos demais abordados pelo livro, não
leva a crença de que mais juízes estão atualmente sentando no banco dos
réus?
Frederico Vasconcelos - Não conheço esse juiz. Tomei conhecimento do crime
como qualquer cidadão que assistiu a gravação. Não acho que esse episódio
tenha maior ou menor reflexo na imagem do Judiciário, como instituição. A
meu ver, trata-se de caso isolado e extremo. Jornalistas e promotores
também já cometeram crimes violentos. A relação com a imagem do
Judiciário, na minha opinião, aparece quando uma pesquisa de opinião
indica que mais de 80% da população não acredita que o desfecho seria o
mesmo se, por hipótese, o vigia tivesse assassinado o juiz.
- Há seis anos, uma primeira reportagem sobre o patrimônio de dois
desembargadores federais, resultou em processos movidos pelo Ministério
Público. As evidências levantadas não convenceram o Ministério Público ou
havia algum outro temor de uma investigação mais extensa?
Frederico Vasconcelos - Ao contrário. Dois dias depois da publicação da
reportagem, o Ministério Público Federal abriu investigação preliminar.
Ela foi interrompida, porque o Tribunal entendeu que desembargadores não
poderiam ser investigados por juiz de primeira instância. Mas o livro
revela que o Ministério Público Federal (PMF) encontrou muitas
resistências no tribunal para a apuração do episódio. Foi a partir de
denúncias e da persistência do MPF que os dois desembargadores foram
afastados do cargo.
- Há diferenças de grau de dificuldade em se fazer um trabalho
investigativo entre os Poderes Executivo, Legislativo e o Judiciário? Há
um poder mais fechado do que o outro?
Frederico Vasconcelos - Há diferenças substanciais. Não há uma tradição da
imprensa de investigar o Judiciário com a mesma naturalidade e
desenvoltura que investiga o Executivo e o Legislativo. A imprensa e
muitos juízes ainda não se conscientizaram de que os magistrados são
servidores públicos e que seus atos estão mais sujeitos à fiscalização da
sociedade. Há problemas de ordem prática. A imprensa pede uma velocidade
que é diferente do tempo do processo. A imprensa costuma destacar a
denúncia e não dar o mesmo espaço para os desdobramentos das ações,
principalmente quando os desfechos contrariam os fatos revelados
inicialmente pelos jornais, rádios e televisão. Finalmente, os jornalistas
precisam conhecer e traduzir a linguagem do Judiciário. E entender como é
o funcionamento dessa instituição, para melhor acompanhar os processos.
- Na condição de jornalista, como analisa o papel da imprensa atuando mais
como um quarto poder ou o anti-poder?
Frederico Vasconcelos - Pessoalmente, não gosto de ver a imprensa tratada
como mais um "Poder", com "P" maiúsculo. As pesquisas mostram que boa
parcela da população confia mais na imprensa do que no Judiciário. Para
mim, isso é uma distorção. Se isso acontece, é porque o Judiciário não
está atendendo às demandas da sociedade. Acho que o jornalista não pode
esquecer que ele não acusa e não deve julgar. Há muitas diferenças entre a
investigação jornalística, a apuração policial e a investigação no
Judiciário. Como digo no livro, repórter não é policial, redator não é
promotor e editor não é juiz.
- O título do livro "Juízes no banco dos réus" não seria então demasiado
forte e com grande apelo para o interesse popular?
Frederico Vasconcelos - O título realmente é forte e deve ter algum apelo
popular, acredito. Mas é, ao mesmo tempo, sóbrio. Apenas constata uma
realidade: é um fenômeno recente o fato de que juízes estão sendo
investigados pelo próprio Judiciário. E, em alguns casos, afastados. Mas
entendo que juízes desonestos são uma minoria. Esse processo de saneamento
do Judiciário pode, num primeiro momento, abalar a imagem da instituição,
mas é saudável e deve ser entendido como um processo natural.
- A publicação pode representar um caminho para que o bom jornalismo venha
a ganhar espaço no mercado editorial?
Frederico Vasconcelos - A idéia de publicar "Juízes no banco dos réus"
está na linha de outras contribuições de jornalistas que acumularam
experiências semelhantes e decidiram colocar em livro informações que não
caberiam nas reportagens, até mesmo para auxiliar repórteres iniciantes,
ao sugerir alguns "caminhos das pedras". Minha maior satisfação, nesse
livro, está no fato de que todos os acusados têm suas versões registradas.
O livro é essencialmente um trabalho jornalístico.
(©
Diário do Nordeste)
Obra exemplar
Livro mostra a dureza de combater a corrupção judiciária
por Márcio Chaer
As notícias, assim como os fatos, espalhadas ao longo do
tempo, às vezes parecem pertencer a contextos diferentes, mesmo sendo atos
da mesma peça ou episódios da mesma novela. Só mesmo em um livro ou texto
mais alentado é que se pode sintetizar a história estabelecendo aquilo que
os advogados chamam de “nexo causal” entre os fatos que se sucedem.
O jornalista Elio Gaspari conseguiu isso com a série “As
Ilusões Armadas”, coleção que lhe consumiu quase duas décadas, mas que hoje
é obra obrigatória para quem quiser entender o que foi o Brasil sob o regime
militar instalado em 1964.
O também jornalista, Frederico Vasconcelos dirigiu
seu foco para uma tarefa mais recente e específica: os terremotos que
sacudiram o Judiciário brasileiro, a partir de 1999. É a esse livro que se
dedica esta resenha: “Juízes no Banco dos Réus”, da editora Publifolha.
Frederico escolheu para o lide de seu texto de 367 páginas
uma cena especial e expressiva. Nela, o comando do Tribunal de Justiça
paulista, depois de mostrar a um desembargador a prova de que ele fora
flagrado negociando uma sentença, negocia a destruição das provas em troca
da aposentadoria do colega. O fato se dá em 1999.
Esse jeitinho de fazer “injustiça com as próprias mãos”,
como definiu o jornalista-escritor, até pouco tempo atrás era a fórmula
padrão de resolver esse tipo de questão, quando a corrupção tornava-se
pública e não era possível abafar o caso.
O ano de 1999 parece ser um marco importante nesse contexto.
É a partir daí que as acusações de corrupção contra juízes se intensificam,
com regularidade até. Frederico não toca no assunto: mas é a partir daí que
as condenações contra jornais e jornalistas também se intensificam. Com
regularidade inédita.
Os casos que o livro leva ao banco dos réus: o estrepitoso
episódio do Fórum Trabalhista de São Paulo; o afastamento dos
desembargadores federais Roberto Haddad e Theotônio Costa do TRF paulista; a
Operação Anaconda, que também recaiu sobre a justiça federal paulista; e, um
caso aparentemente menos espetacular, mas muitíssimo paradigmático: o caso
do perito falsário que superestimava avaliações imobiliárias, Antônio Carlos
Suplicy.
Pelo tecido e pela agulha usada na costura por Frederico,
fica patente que os esquemas criminosos se entrelaçam. Por dossiês que
circularam à época é possível determinar também que as organizações eram
compostas por um leque bem mais amplo de personagens. Ou seja: além de
juízes federais, perito, advogados e delegados da polícia federal,
percebe-se que dos esquemas participavam também servidores da Receita
Federal, policiais civis e militares, entre outros.
Algo como uma sociedade organizada paralela. Com a diferença
de ser voltada para o crime.
O autor exibe modéstia, discrição e cautela raras no
jornalismo. Vê-se que ele tinha muito mais informações do que usou. Poderia
ter ido mais longe do que foi. Mas fez uma opção preferencial pelo resultado
em detrimento do estardalhaço. Preferiu ficar no terreno seguro das
afirmações que se pode provar.
Frederico não sentou diante da TV para torcer pelo bandido.
Festejou os gols e as vitórias da polícia e dos procuradores e só deu espaço
para queixumes dos acusados por pura generosidade. Ele não perdeu tempo com
as firulas de que tanto gostam os criminalistas nem se perdeu em aspectos
como as falhas de investigação. Tampouco cedeu à tentação de malhar
derrapadas do Ministério Público. Pode-se discordar da omissão, mas não da
opção de mostrar que as vitórias foram mais importantes e expressivas que os
reveses e que a dobradinha PF-MP foi mais longe do que de hábito em um
terreno inédito.
O livro homenageia o Ministério Público, vaia as bobeadas da
imprensa, mas faz jus a um veterano do jornal concorrente, contemplado com
inúmeras citações: o repórter Fausto Macedo, do Estadão. Indiretamente, a
obra homenageia o próprio Frederico. Ele, assim como Fausto Macedo,
antecipou com suas notícias e reportagens boa parte dos importantes
acontecimentos narrados.
Fácil de perceber que o autor se inteirou de tudo antes de
escrever. Ele fala dos trâmites judiciais com a desenvoltura de quem mostra
a casa a um hóspede. Não será dessa vez que os doutores em Direito poderão
dizer que os jornalistas confundiram conceitos ou não entenderam nada. Se
Frederico não entendeu tudo é porque nem tudo é possível compreender, nos
subterrâneos desse universo em que a justiça está a serviço do crime.
O livro relata casos concretos sem tergiversar. Mostra o
quanto é difícil compatibilizar o princípio da ampla defesa com o da
eficiência judicial. O leitor pode angustiar-se ao ver como os comparsas do
juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto escapuliram no caso do Fórum
Trabalhista, ou refletir sobre o quebra-cabeça da Anaconda, onde se pode
desconfiar que muitas peças ficaram faltando.
As críticas, acusações, mazelas e maracutaias mostradas pelo
autor não desmerecem a justiça, como instituição. Ao expor a banda podre
desse universo, ele reverencia a ala digna do sistema que teve a coragem de
enfrentar a sua escumalha. De forma transversa, expõem-se de maneira cruel
juízes, policiais e jornalistas. Mas absolve-se a Justiça, a Polícia e a
Imprensa — já que, ao final, o bem triunfou. Perdão, não foi bem isso que
ocorreu: na verdade, os bandidos apenas não escaparam.
Em 2005, estima-se que a chamada ‘comunidade jurídica’ será
destinatária de dois mil novos títulos, cujas tiragens somadas deve chegar a
9 milhões de livros. Dificilmente haverá obra tão importante quanto “Juízes
no Banco dos Réus”, do jornalista Frederico Vasconcelos.
Márcio Chaer: é diretor de redação da revista
Consultor Jurídico
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